Caldeira das tradições

Aclamado nos anos 1970 por longas como 'Passe Livre' e 'O Bom Burguês', realizador mineiro, respeitado por sua carreira como professor, encerra um hiato de 17 anos sem ficções com o lírico 'Histórias de Alice'

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30 de março de 2016

Oswaldo Caldeira une uma experiência documental a uma série de reflexões sobre a História em seu drama romântico "Histórias de Alice"

Oswaldo Caldeira une uma experiência documental a uma série de reflexões sobre a História em seu drama romântico “Histórias de Alice”, em cartaz a partir desta quinta-feira (imagem do doc “Tudo Por Amor ao Cinema”, de Aurélio Michiles)

Ensaio sobre o poder autorregenerativo do amor e sobre a (assombra)ção existencial do Passado sobre as grandes paixões, a coprodução luso-hispano-brasileira Histórias de Alice entra em cartaz neste fim de semana marcando o regresso ao circuito de um realizador premiado, cuja potência criativa nem sempre recebeu o devido prestígio. Todo cinéfilo que estudou Comunicação na rede pública do ensino superior no Rio de Janeiro dos anos 1990 ou 2000 deve um “Obrigado, mestre!” ao diretor mineiro Oswaldo Caldeira que, durante anos no ofício de professor na Universidade Federal da Cidade Maravilhosa, formou gerações e gerações como suas reflexões sobre linguagem e narrativa audiovisual, enquanto preservava seu viés de cineasta autoral, rodando produções como Tiradentes (1999). Por quase duas décadas, dividido entre pesquisa e docência, o realizador de cults como O Bom Burguês (1979) e Passe Livre (1974) permaneceu afastado das salas de exibição com suas ficções, investindo mais no formato DVD e em documentários. Mas esse jejum chega ao fim. Rodado em 2006, em locações cariocas, mineiras e portuguesas, este drama de amor narra o o périplo de um cineasta (Leonardo Medeiros) que se embrenha Oceano Atlântico adentro atrás de respostas sobre seu passado, sobretudo sobre sua mãe, Alice vivida por Ana Moreira. Nesta entrevista, Caldeira fala sobre seu retorno, sobre a arte de filmar e sobre resistências estéticas – assunto que ele transformou em lição de aula muitas vezes, refinando o olhar de seus estudantes.

Leonardo Medeiros e Tonico Pereira nos sets do longa

Leonardo Medeiros e Tonico Pereira nos sets do longa, fotografado por Antonio Luiz Mendes

O quanto da sua experiência documental pesa numa recriação histórica e num deslocamento geográfico entre nações como é o caso de Histórias de Alice?OSWALDO CALDEIRA – Telejornal, meu primeiro filme, um média-metragem sci-fi de 1967, foi feito por um jovem cineasta e estudante de filosofia, fã de Heráclito, Godard, Faulkner e James Joyce.  Como o  próprio nome indica, tratava-se de um programa jornalístico de televisão supostamente do futuro, que se propõe, com base em fragmentos de som e imagens, a reconstituir uma cidade desaparecida no espaço e no tempo – o Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, ele busca explicações para o que terá acontecido com ela. Vemos imagens documentais jornalísticas de tragédias, desmoronamentos, manifestações de rua contra a ditadura militar, pancadarias, violências policiais, intercaladas por cenas com personagens ficcionais que percorrem e participam destes eventos. O protagonista destas cenas do passado é encarnado pelo mesmo ator que apresenta o programa em busca de uma resposta para suas indagações. Ele tenta juntar reunir estes fragmentos de forma a fazerem sentido e trazerem uma resposta, uma verdade para suas indagações. No filme Histórias de Alice, nós vemos o protagonista, o cineasta Lucas, saindo de seu país, o Brasil, para buscar em outra nação – Portugal – o passado de sua família, particularmente das histórias que sua mãe contava e que não conseguiu gravar. Ele também vai buscar depoimentos, documentos, locais, fragmentos de verdades ou supostas verdades que lhe permitam uma resposta sobre o passado de sua família, sobre sua própria identidade e biografia. Então, são dois movimentos no espaço e no tempo que, de certa maneira, têm um percurso similar e que valem como descoberta mais pelo percurso em si e suas indagações e revelações do que pelas supostas verdades descobertas. É a aventura do conhecimento. Esse percurso indetermina-se nas minúcias realistas, aquilo que normalmente se atribui a documentaristas. Não busco em meus filmes tanto de ficção como documentais a reconstituição minuciosa realista. Para mim  ficção e documentário estão em permanente tensão entre si.

Ana Moreira e Filipe Duarte em um Portugal idílico

Ana Moreira e Filipe Duarte em um Portugal idílico

Como se dava essa tensão em seus longas históricos anteiores?
CALDEIRA – Não é a primeira vez que faço um filme que implica numa reconstituição histórica – foi também o caso do Tiradentes, de O Bom Burguês, do meu documentário sobre a Pampulha e trabalho este fator como mais um elemento de que se dispõe, como outros do filme, para explicitar a consciência de que um filme é apenas um filme. Ou seja, um filme é uma encenação, uma construção através de planos, feita com base em enquadramentos, movimentos, sons, músicas,  ruídos, diálogos. É uma montagem, um acoplamento, uma colagem, que se transfigura a cada momento com possibilidades de conjunções várias. Um filme é uma tentativa de conhecimento, uma entre as muitas existentes, seja de seu diretor, seus autores, seus atores seus personagens. Essa postura permanece até em meus filmes mais recentes, como é o caso de Histórias de Alice, que traz a indagação sobre o sentido das coisas e nossas possibilidades de alcançarmos o seu sentido mais profundo. Então no meu trabalho, a ficção e o documentário convivem sempre lado a lado numa espécie de tensão se questionando se afirmando e se negando permanentemente.

 

De que forma a jornada de Lucas, o protagonista de Histórias de Alice, vivido por Leonardo Medeiros, carrega experiências pessoais suas?
CALDEIRA – Quando Lucas se desloca para Portugal em busca das histórias de sua mãe, do passado de sua família, essa viagem me remete a uma famosa frase citada num filme do diretor Joseph Losey: “O passado é um país estranho, pois lá, eles pensavam diferente”. Quando fui a Portugal, depois da morte de minha mãe, não encontrei lá nem sequer as palavras que minha família usava. Não ouviam-se mais traços do sotaque que eles tinham. Quando estive lá em 1966, era o Portugal de Salazar, um país sinistro. E agora, tinha jovens, muita liberação e mercado comum europeu. Lucas, como herói romântico, busca a todo custo conciliar os dois passados de sua família no Brasil e de sua família em Portugal, mas não encontra nenhum deles. Lá estão agora os aventureiros, os sem pátria, sem ideal, sem filiação e apego a nada. Então, o eventual documentarista que existe em mim no sentido mais estrito, tem de se ater e se fixar nesta flutuação, nesta flutuação de valores, de interpretações, de meias e turvas verdades.

 

 De que maneira a tradição do cinema francês da qual o senhor é entusiasta, estudioso e pesquisador entra na concepção espacial e afetiva desta Europa visitada por Lucas?
CALDEIRA – Acossado, de Godard, foi um marco para mim. Trazia uma ruptura com a narrativa tradicional, carregado de uma nova concepção do espaço e do tempo, Era o cinema de travellings, como queria Bazin, violentando da luz de estúdio com a câmera na mão e vários outros elementos.  Godard, ao mesmo tempo em que filma com atores, faz um documentário simultâneo em que os passantes apontam para a equipe. Ali, o ator interrompe uma cena para se dirigir ao diretor. Na direção, Godard revela permanentemente os elementos de construção do cinema, da ilusão do cinema, de sua ação sobre o espectador.  O espectador é despertado permanentemente para o fato de que ele não está dentro do filme, vivendo através dos passos do protagonista. Há um corte permanente de que aquilo não é uma verdade, mas uma das verdades, a verdade daquele filme, dos personagens daquele filme. Poiccard é herói ou vilão. Patricia Franchini é heroína ou vilã. Uma heroína que chama a polícia e denuncia o seu amado para provar a si mesmo que não o ama. Uma ruptura radical com a concepção amorosa do happy end tradicional. Então, de certa forma, ainda que de uma forma inconsciente, todas essas questões de Godard estão presentes em Historias de Alice.  Nessa permanente aproximação e afastamento com o amor romântico e um amor cínico, debochado mesmo.

Como foi estruturada a luz para esta narrativa? Que elementos o senhor buscou para compor planos de cada segmento da trama?
CALDEIRA – Os planos que pertencem nitidamente ao passado foram filmados por Antonio Luiz Mendes Soares em sépia. Planos de sonhos, de situações mais oníricas, são mais aguados, difusos. Planos do presente são tratados de forma realista, cores fortes etc.