Califórnia

Estreia de Marina Person na ficção é uma viagem aos anos 1980

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15 de outubro de 2015

Depois do documentário “Person” (2007), que retratava a vida e a obra de seu pai, Luiz Sérgio Person, Marina Person debuta na ficção com o longa “Califórnia”. Estela (Clara Gallo), ou Teka, como seus amigos preferem, é uma adolescente que não vê a hora de completar 17 anos. Seus pais prometeram que, se ela mantiver as boas notas no colégio, poderá viajar para encontrar o tio Carlos (Caio Blat), que ela idolatra e de quem recebe frequentemente fitas k-7 daquelas bandas que demoravam uma eternidade para chegar aos ouvidos brasileiros. Seu sonho é frustrado, contudo, quando o tio, doente, regressa ao Brasil.

Califórnia

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O filme de Marina Person parte de uma premissa nada original: retratar as angústias e incertezas de um dos períodos mais confusos de qualquer ser humano, a adolescência. Filmes como “As vantagens de ser invisível” e “Confissões de adolescente” (2013), apenas para citar os mais recentes, já haviam abordado o tema de forma competente, de modo que “Califórnia” pouco tem a acrescentar.

Contudo, uma das máximas do cinema diz que o importante não é a história que se conta, mas a forma como se conta a história. E, nesse aspecto, “Califórnia” não poderia ser mais feliz. Ambientando na década de 1980, em São Paulo, no contexto da redemocratização brasileira, o filme faz uma viagem no tempo que provavelmente deixará boquiabertos os jovens de hoje (haja dificuldade para conseguir uma fitinha do Bowie!) e encherá de saudosismo os jovens da época. Por outro lado, se a obra apela forte para a nossa nostalgia, deixa claro que aquele não era um tempo de pura felicidade. Era um tempo em que a AIDS matava impiedosamente, e o tio de Teka está lá para lembrar disso a todo o instante. Não por acaso, são as intercorrências da doença de Carlos que frustram todos os momentos de felicidade da sobrinha: da viagem originalmente planejada ao feriadão em um acampamento com os amigos.

Califórnia

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Outro trunfo da obra de Person é o carisma do elenco, especialmente o da protagonista, interpretada de forma contida e cativante por Clara Gallo. A jovem atriz, cujas feições lembram a da própria diretora, evidenciando mais um aspecto do caráter autobiográfico da obra, consegue transmitir as aflições da adolescência sem parecer caricata. Além disso, os enquadramentos que a diretora faz da personagem, sempre deslocada para os cantos esquerdo e, eventualmente, direto da tela, transmitem a sensação de deslocamento própria da idade. Caio Horowicz, por sua vez, compõe o seu JM com a dose certa de rebeldia; uma rebeldia que é apenas aparente e esconde, por trás da aura de desajustado, a doçura de um jovem que, assim como qualquer outro, só deseja encontrar o seu próprio espaço.

Califórnia

Califórnia

“Califórnia” é, afinal, uma saborosa diversão, apesar do gosto agridoce de sua narrativa. Um filme para ser assistido despretensiosamente e com os ouvidos bem atentos para a sua trilha sonora, praticamente uma personagem do filme.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil: Competição longa ficção

Califórnia (Califórnia)

Brasil, 2015, 85 minutos.

Direção: Marina Person

Com: Clara Gallo, Caio Horowicz, Caio Blat, Virginia Cavendish, Paulo Miklos


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