Campo Grande

A poderosa inocência da criança ante o disparate social da cidade, das obras e do caos

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10 de junho de 2016

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“Campo Grande” da cineasta Sandra Kogut, ganhadora do Festival do Rio 2007 por “Mutum”, chegou para trazer outro tipo de sensibilidade muito necessária ao cinema nacional do ano, desde que pré-estreou pela primeira vez no Festival do Rio 2015. Que através da solidariedade e compreensão se pode falar sobre diferença de classes e injustiças sociais, além da falência da instituição familiar pela ótica tradicional arcaica, com uma pegada documental e sem jamais ser piegas. Sandra nos convida a ingressarmos numa visão elitizada de moradia em bairro nobre na Zona Sul do Rio através do olhar outsider de duas crianças perdidas de sua mãe que são deixadas no endereço de uma madame rica. A partir daí, e sem entender o que tem a ver com as tais crianças, a patroa e sua filha já em conflito interno vão tentar ajudar aos infantes e a si mesmas sob um novo olhar familiar.

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Uma espécie doce e naturalista de “Esqueceram de Mim” brasileiríssimo, sem vilões, onde o antagonismo fica a cargo da desigualdade geográfica entre as zonas urbanas, indo do extremo de Ipanema para o lado oposto da Zona Oeste no bairro de Campo Grande que dá nome ao filme. Pode-se passar por várias realidades, dependendo do status social, mas que não previnem os mais abastados de enfrentarem os mesmos medos e angústias da vida. Afinal, se primeiro as crianças ficam perdidas no meio das obras de metrô e BRT da Zona Sul, cenário de mudanças constantes que o espectador se identificará facilmente, depois é a vez da protagonista, Regina, na pele da segura e versátil Carla Ribas, sair da segurança de seu bairro para conhecer de onde vieram as crianças, achar sua casa e talvez decifrar a pergunta que não cala: por que  foram deixá-las logo com ela? Perguntas estas que não precisam de resposta imediata, deixadas em reflexão sugestiva no roteiro para o espectador continuar o filme em sua própria cabeça após sair da projeção.

O não-ator mirim Ygor Manoel descoberto por Sandra rende muito bem, até por ser o anfitrião da narrativa, ora sendo visto pela câmera de cima para baixo quando sob o escrutínio dos adultos, e ora conduzindo com que a trama olhe de baixo para cima, privilegiando o seu ponto de vista, como na lírica cena em que os irmãozinhos pequenos se libertam da ditadura adulta e brincam com As coisas da casa, como se cada peça dos adultos pudesse se tornar num brinquedo em potencial, assim como problemas e preocupações também podem se tornar sonhos e sorrisos.  A exemplo disso, a cena em que a ótima Júlia Bernart (da peça magistral “E Se Elas Fossem para Moscou”), na pele da filha da madame, toca Beatles para o personagem de Ygor, no piano que já pertenceu ao ausente, porém onipresente pai dela. Como se a falta paterna fosse a obrigação de prover infraestrutura do Estado e governo na vida daquelas pessoas perdidas, a despeito de classes, tendo em comum a falta de perspectiva a menos que enxerguem um novo mundo juntas. Uma terceira via que as possa curar com as respostas mútuas encontradas nos ricos para os desfavorecidos e nos desfavorecidos para os ricos. Questão que não poderia ser mais cara e atual com a recente crise política brasileira multipolarizada de questionamentos trazidos pelo filme.

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Campo Grande (idem)

Brasil, 2015. 109 min.

De Sandra Kogut

Com Carla Ribas, Júlia Bernart, Mary Sheila, Ygor Manoel, Rayane do Amaral


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