Canal Brasil revisita o ‘Edifício Master’

Eduardo Coutinho fez sua 'Comédia Humana' numa visita a um prédio em Copacabana

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20 de fevereiro de 2019

Edfício Master 2002 CB

Rodrigo Fonseca
Tem “Edifício Master” (2002) hoje no Canal Brasil, às 19h30, numa sessão ancorada no luto pelos cinco anos de morte de seu aclamado realizador. Chamar Eduardo Coutinho (1933-2014) de “o papa do documentário brasileiro” virou lugar-comum na crítica cinematográfica brasileira. Tal clichê requer uma reflexão. Cineasta algum, venha de onde vier, recebe “os votos” de sumo pontífice de um filão se não tiver desenvolvido uma gramática bastante personalista em sua seara narrativa. A força “gramatical” de um longa-metragem da grife Eduardo Coutinho vem da engenharia do encontro que ele poliu, filme a filme, desde que voltou a se expressar em tela grande, com o amparo da tecnologia digital. Consagrado com “Cabra marcado para morrer” (1964/1984), Coutinho desenvolveu, a partir do fim dos anos 1990, uma metodologia que tem na palavra o combustível para realizar uma decolagem rumo aos céus da invenção. A partir de frases arrancadas na espontaneidade de um processo que substitui a entrevista pela conversação, seus filmes permitem que o espectador construa uma relação de identificação com pessoas ligadas a universos que por vezes ele desconhece. Em um fluxo contínuo de busca por sentido, sem apelar para signos que possam fechar os ângulos potenciais de informação que uma imagem filmada é capaz de comunicar, ele faz do “deixa falar” seu processo de apreensão do outro. É no choque entre a lente do diretor e o verbo do outro que nasce sua linguagem. Nem sempre ela atinge toda a força que há em latência na proposta, como aconteceu com o desconjuntado “Peões” (2004). Mas, via de regra, o humanismo é a argamassa que erige sua obra. E “Edifício Master” é a construção onde o cinema humanista de Coutinho parece estar mais sólido. Não que houvesse uma tese prévia, orientando sua imersão em um prédio de Copacabana. Havia era um contingente rico e diversificado de homens e mulheres com muito a dizer em um espaço geográfico – um prédio residencial – em que muitos se esbarram, mas pouquíssimo interagem.

Lançado no Festival de Gramado de 2002, onde conquistou o Kikito de melhor .doc, a produção ainda ganhou menção honrosa no Festival de Havana. Nele, Coutinho conseguiu fazer da privacidade uma caixa preta de humanidades (assim mesmo, no plural que traduz diferenças sociais, religiosas, étnicas e sexuais) a ser aberta na relação pessoal. Em “Santo forte” (1999), filme que devolveu o diretor ao panteão dos cineastas mais referenciais do país, cristalizou um método que renderia projetos posteriores. Mas nesse marco zero de sua cinematografia na Retomada, havia um tema confluindo a pesquisa: religiosidade. Em “Edifício Máster”, não. Havia uma multiplicidade de abordagens possíveis à disposição do cineasta, que jamais se limitou ao rasteiro “Como é viver em Copacabana?” em sua conversa com os moradores do edifício escolhido.

Após um elaborado trabalho de pesquisa, Coutinho entrou, porta a porta, em 27 apartamentos buscando entender o que pudesse de cada uma das vidas ali residentes. Acabou com isso trançando um rosário de desilusões, expectativas, angústias, medos e alegrias que virou celebrizou um dispositivo cinematográfico único e, aparentemente simples: o deixar contar e o fazer ouvir. Essas duas locuções verbais têm inspirado gerações de realizadores no país a partir do lançamento do filme, em 2002.

Desde o fim dos anos 1980, o documentário ganhou tanta força no cinema brasileiro, desenvolveu-se tanto, que acabou tendo o luxo de conter um subgênero dentro de si, chamado “filme de Eduardo Coutinho” – uma vez que sua estética virou escola e teve zilhões de imitadores. Sempre que é exibido, “Edifício Master”, comprova que seu diretor inaugurou um filão que ultrapassa todos os limites, amarras e fraquezas de um segmento valorizado pela própria gravidade do real que aborda. Ver um filme de Coutinho não é pura e simplesmente raciocinar em cima de uma ou outra questão que apareça de forma gritante no tecido social brasileiro. Ver um filme de Coutinho significa presenciar um  espetáculo cinematográfico esteticamente ambicioso, em que forma e conteúdo se juntam e travam guerra contra a monotonia, contra o padrão. É por isso que tudo o que foi filmado pelo diretor de “O homem que comprou o mundo” (uma ficção injustamente esquecida na carreira do cineasta, lançada em 1968) acaba virando obra de arte quando ganha a tela. O respeito pelos entrevistados, o comprometimento ético com o objeto e as perguntas ferinas, duras, continuam a ser as características que guiam sua obra. Mas o charme maior está na periferia de sua realização: a investigação ampla, que não deixa nada passar em branco. É o gato que passeia pelos corredores. O menino que abre a porta. Os elevadores. Os cantos. Em tudo o que sua câmera capta existe uma mensagem. E, em tudo, há cinema. Dos bons.