Canastra Suja

Domínio cênico de uma cartada de mestre

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24 de outubro de 2016

Filmes são feitos para enganar. Afinal, cinema é mentira. Resta saber se a intenção do realizador é que os personagens enganem o espectador, ou que o filme engane os personagens junto com o público, de modo tão natural que ninguém perceba que foi ludibriado… Ao menos esta é a naturalidade que quase todo realizador almeja, tocando uma emoção verdadeira na plateia, independente de quais artifícios farsescos sejam necessários para tanto. Eis que o diretor Caio Sóh, agora com uma trilha de três longas premiados na carreira, aporta com seu quarto inédito e exclusivo “Canastra Suja”, que, como o nome já diz, acarreta que seus personagens façam parte de um jogo como cartas onde nem eles mesmos nem o espectador sabem qual será a próxima jogada.

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Numa história tão intrincada, dizer qualquer coisa a mais sobre a trama poderia prejudicar a experiência da projeção, então bastando adiantar que se trata de uma família disfuncional cercada de enganos, cada membro em autonegação ou escondendo um segredo. A partir daí, o psicológico de cada um será testado, pois não necessariamente o segredo que pensam estar descobrindo uns dos outros pode ser o que de fato está acontecendo em cena. Por isso a própria estrutura do filme é dividida em capítulos como movimentos de um jogo de cartas, e nisto Caio pega uma leve inspiração nos textos de Tenesse Williams para falar dos personagens com psicológicos marginais, que fazem jogos de cena no palco, invertendo quem domina e quem subjuga, como “Gata Em Teto de Zinco Quente” e “Um Bonde Chamado Desejo”, só que aqui Marco Ricca seria a mistura entre Stella e Blanche, e Adriana Esteves é que seria Stanley.

Tudo começa num primeira sequência arrasadora, com uma câmera subjetiva mostrando um personagem incógnito ser recebido de volta num casa partida, com muitas cabeças baixas, não se sabe exatamente o porquê, se de indiferença, arrependimento ou despeito. A trama volta no tempo para mostrar como o patriarca da família evoluiu na superação do alcoolismo, sendo buscado pela esposa e filhos se esforçando para lhe dar suporte emocional numa reunião no AAA. Vale mencionar que os membros da reunião são alcóolatras de verdade em recuperação, com depoimentos reais emocionados e emocionantes, que claramente afetam tanto o personagem quanto seu ator, Marco Ricca, numa cena espontânea e visceral. E este sentimento de identificação do ator com este quase laboratório de interpretação verídico, filmado em cheio, por incrível que pareça não contrasta com o resto da trama ficcional, e sim vem muito a calhar com o processo de projeção do espectador espelhado em seus personagens. O maior trunfo do cineasta é que todos ali na tela poderiam ser como eu e você, falhos e humanos na medida.  Ainda mais para Marco que terá em seu papel um traço Shakespeariano de “Rei Lear”, onde pode começar a enlouquecer pela possibilidade de ser traído por seus filhos, clara metáfora do crescimento quando os jovens desejam declarar uma independência que renega as gerações anteriores…

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Com um elenco só de feras, como Adriana Esteves, Marco Ricca, Emilio Orciollo Netto e Milhem Cortaz, é no roteiro que Caio costuma primar seu talento como realizador autoral, porém eis que aqui ele reinventa seu uso de câmera. Se suas raízes são muito fincadas no teatro, o que o fez experimentar com opostos em seus últimos dois filmes pantomímicos, o brilhante “Minutos Atrás” e o lúdico “Por Trás do Céu”, respectivamente com panorâmicas e planos fixos no primeiro e closes e câmera na mão no segundo, desta vez preferiu puxar para uma linguagem mais documental, veraz, para que as reviravoltas fossem ainda mais fluidas e naturais. Esta troca de câmera é crucial para entender a troca de personas em seu elenco. É proposital enganar com quem e como se dá o antagonismo de cada cena, pois a narrativa coral de vários protagonistas espargidos deixa momentos para cada um brilhar. Não só o personagem colossal criado por Marco Ricca, de vários enganos e injustiças que um alcóolatra pode cometer à sua família ou a si mesmo, ou que a sociedade possa cometer com ele, mas também na personagem da matriarca criada por Adriana Esteves. A atriz não só está mudando a face da interpretação na TV com personagens como a da novela “Avenida Brasil” e a minissérie “Justiça”, como no cinema com “Real Beleza” e agora coroando a cereja do bolo em “Canastra Suja”. São tantas camadas quebrando o atual arquétipo de ‘bela, recatada e do lar’ que o talento de Adriana por si só é a epítome da evolução da mulher brasileira no mundo.

Outra característica na carreira do diretor que traz um olhar apurado para a linguagem cinematográfica é a pintura, pois inúmeros enquadramentos possuem movimentos quase como de pinceladas, há de exemplo o travelling em torno da quadra na pracinha onde a garotada vai jogar, numa cena tensa entre o pai, o filho e o espírito santo…quer dizer, o melhor amigo negro do filho, onipresente na trama de várias formas a quebrar estereótipos e colocá-lo na pirâmide social acima do amigo branco desempregado e sem ideais – uma dura crítica à elite branca-masculina-heteronormativa que predomina até os dias de hoje. Ou também advém da pintura as molduras de takes que Caio prioriza para enquadrar as cenas, sempre brincando com a ordem de prioridade entre primeiro e o segundo plano, bem como o extracampo, exemplificado na incrível cena em que se descobre um dos segredos da personagem de Adriana Esteves, onde esta fica bastante vulnerável aos barulhos que vem de fora da casa. Mas é de dentro do lar, com suas portas e janelas, que pode ocorrer o maior dano conforme a câmera se afasta e revela apenas aos poucos o quanto mais havia riscos a correr por um vício…

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Enfim, afastando-se da mise-en-scène de tom mais lúdico e teatral dos dois filmes anteriores, acertados na seara circense que resgatava a magia no cinema brasileiro de “Matar ou Correr” ou “Saltimbancos Trapalhões”, Caio retoma a sobriedade das reviravoltas de roteiro e de alma dos personagens urbanos como de sua laureada obra de estreia, “Teus Olhos Meus”. Com a diferença de agora possuir mais credibilidade no meio e, mesmo mantendo uma produção totalmente independente e sem estúdios, apesar dos atores globais que embarcam na amizade da ousadia artística, claramente o diretor alcançar uma maturidade e recursos muito maiores para fazer de “Canastra Suja” um elegante clímax em sua carreira. Melhor do que isso, mantém a tradição de revelar novos talentos ou de ressignificá-los cenicamente como com os jovens Bianca Bin e a revelação Pedro Nercessian. Tanto quanto aproxima os espectadores tão reticentes em ver cinema brasileiro nas telonas com atores conhecidos do grande público, e tramas ágeis e inteligentes, para casar o cinema autoral com o circuito comercial em potencial, que só foi abocanhado pela primeira vez após tanto tempo com o sucesso híbrido do ano passado, “Que Horas Ela Volta?”. Pois agora é a hora e a vez de “Canastra Suja” ser o Coringa que quebrará a banca.

Mostra de São Paulo 2016

Canastra Suja (idem)

Brasil, 2016. 120 min

De Caio Sóh

Com Adriana Esteves, Marco Ricca, Bianca Bin, Pedro Nercessian, Milhem Cortaz, Emilio Orciollo Netto

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5