‘Canção da Volta’

Cineasta e ex-VJ da MTV, Marina Person estreia como protagonista em drama dirigido pelo marido, Gustavo Rosa de Moura.

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02 de novembro de 2016

Nos últimos anos, a cinematografia brasileira tem apostado em gêneros variados, distanciando-se gradativamente dos favela-movies e comédias populares, que sempre lhe renderam bons resultados em bilheterias. No entanto, há um gênero riquíssimo que se bem conduzido gera bons frutos: o drama. O problema é que nem sempre uma incursão por ele dá certo, seja pelo excesso de situações que intencionam levar o espectador às lágrimas, muitas sem necessidade, seja pela tentativa frustrada de conceder profundidade a uma trama incapaz de sair da superfície, como “Canção da Volta” (2016), uma das estreias da próxima quinta-feira, dia 03.

João Miguel e Marina Person em cena.

João Miguel e Marina Person em cena.

Dirigido por Gustavo Rosa de Moura, o filme conta a história de uma família abalada pela depressão e tendências suicidas de sua matriarca, Julia (Marina Person). Com isso, o ciumento Eduardo (João Miguel) passa a controlar a esposa, observando-a a todo instante para tentar descobrir o porquê de tanta dor, enquanto começa a mudar seu comportamento, agravando ainda mais a situação da família, inclusive de seus dois filhos.

Desperdiçando uma premissa interessante que renderia muito bem na tela, “Canção da Volta” perde a essência de sua trama ao não desenvolvê-la com esmero, evidenciando as pontas soltas de seu roteiro, assinado por Moura e Leonardo Levis. Com uma narrativa não-linear, o longa também se perde ao utilizar sua trilha sonora como artifício para potencializar o drama, pois ela é mal inserida pela montagem, o que influencia diretamente o seu resultado final.

Personagem de Person apresenta diversos problemas emocionais.

Personagem de Person apresenta diversos problemas emocionais.

Desta forma, o elenco assume a função de bote salva-vidas desta produção. Em seu primeiro trabalho como protagonista, Marina Person, ex-VJ da MTV, nos tempos áureos da emissora, faz o que pode por uma personagem complexa, mas sem muito êxito, pois o olhar perdido, adotado por ela em sequências mais dramáticas acaba transmitindo certa artificialidade. O mesmo acontece com João Miguel, um dos melhores atores da atualidade, que parece estar no modo automático.

“Canção da Volta” aposta em imagens escuras para transmitir ao espectador a atmosfera sombria da dinâmica familiar e a desorientação emocional de cada um deles, aumentando a sensação de sufocamento de Júlia, porém destacando a irregularidade de sua fotografia.

Considerando todos os pontos citados acima e a fala de um entrevistado do programa apresentado pelo protagonista, “Letra Viva”, “o roteiro é trama, o filme que é o jogo”, pode-se dizer que “Canção da Volta” perdeu a partida cinematográfica ao não explorar a trama em sua plenitude.

Avaliação Ana Carolina Garcia

Nota 2