Cannes 2018 anuncia primeiros filmes

Grandes nomes na competição principal

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12 de abril de 2018

Cannes 2018 anuncia sua lista preliminar de filmes competindo à Palma de Ouro, bem como alguns dos filmes em exibição especial fora de competição e outras seções do Festival. Vários grandes nomes consagrados regressam, inclusive previamente premiados com grandes prêmios, porém jamais a desejada Palma de Ouro, como Jean-Luc Godard, Jia Zhang-ke, Kore-eda, Spike Lee, Nadine Labaki e Alice Rohrwacher, bem como também há lugar para primeiro trabalho em longa-metragem (A. B. Shawky). Mas vale lembrar que a lista ainda não está completa e outros filmes ainda serão anunciados ao longo dos próximos dias.

Outra novidade é o brasileiro Cacá Diegues incluído na seleção oficial, fora de competição, com seu inédito “O Grande Circo Místico” terá uma exibição especial, fora da competição. No elenco: Vincent Cassel, Jesuíta Barbosa, Mariana Ximenes, Juliano Cazarré, Bruna Linzmeyer e Antônio Fagundes. O Grande Circo Místico é um projeto do cineasta, baseado no poema de 47 versos contido no livro A Túnica Inconsútil (1938), de Jorge de Lima. O roteiro foi escrito por George Moura com colaboração de Cacá Diegues e a produção fica por conta da mulher do cineasta, Renata Almeida Magalhães.

Curiosamente, nem um dos pais da Nouvelle Vague francesa Jean-Luc Godard, multipremiado em sua carreira, jamais conseguiu levar a Palma, nem com seu último trabalho “Adeus à Linguagem” (crítica) que revolucionou a tecnologia 3D (chamado de ‘ginástica para os olhos’, devido aos momentos em que se tinha de fechar um dos olhos para enxergar uma das duas narrativas possíveis em cada canto da tela, ou mesmo ficar vesgo para entrar no foco…), o qual saiu premiado com o prêmio do Júri, mas não a Palma.

Outros também já foram laureados, como o chinês Jia Zhangke, um querido da Croisette e autor revolucionário desde os primórdios do advento da câmera digital, que já recebeu prêmios por sua crônica da violência “Um Toque de Pecado” (crítica) e o lírico e emocionante “As Montanhas se Separam” (crítica), porém igualmente jamais recebeu a Palma. Bem como a mais rápida ascensão do milênio em Cannes que pertence ao iraniano Asghar Fahradi, que abrirá o Festival de Cannes este ano e já ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico em 2013 com o seu “O Passado” (crítica 1 e crítica 2) e prêmio de roteiro e ator por “O Apartamento” (crítica), além de 2 Oscar, o mais recente por este último, e o primeiro por “A Separação” (crítica).

As mulheres tiveram poucas inserções até agora, lembrando que ainda faltam nomes a serem anunciados, dentre eles algumas mulheres cotadas com trabalhos inéditos e bastante queridas por Cannes, como Mia Hansen-Løve. Das indicadas à Palma, vale citar a já premiada cineasta italiana Alice Rohrwacher com o Grande Prêmio do Júri por seu filme “As Maravilhas” (crítica); e Nadine Labaki, muito lembrada por seu sucesso de estreia “Caramelo”, porém também premiada com seu “E Agora, Aonde Vamos?” (crítica). Também na competição, a terceira e última dentre os 18 já anunciados é Eva Husson, de filmes como “Bang Gang – Uma História de Amor Moderna”, jamais antes tendo um filme seu competindo em Cannes, e sendo uma boa aposta nova deste ano.

Vale lembrar também as escolhas mais internacionais, como Spike Lee, após um enorme período sem ser contemplado pelo Festival, e ainda sendo o único diretor negro indicado na competição principal até agora, que já ganhou prêmios em Cannes com “Febre da Selva” e “Ela Quer Tudo”, mas pisou em Cannes competindo da última vez em 2002 por um projeto coletivo onde ele era apenas um dos diretores, em 2002, por “Ten Minutes Older: The Trumpet”, há 16 anos.

Dos outros favoritos, o japonês Kore-eda, que já levou o Prêmio do Júri e o do Júri Ecumênico com seu emocionante “Pais e Filhos” (crítica) em 2013; o italiano Matteo Garrone que já levou dois Grandes Prêmios do Júri com “Gomorra” (2008) e “Reality” (2012 – crítica 1 e crítica 2); o polonês Pawel Pawlokowski com seu multipremiado sucesso e oscarizado “Ida” (crítica), mas que jamais havia entrado em competição antes em Cannes; Stéphane Brizé que já ganhou em Cannes a menção honrosa do Júri Ecumênico com o seu “O Valor de Um Homem” (crítica) e dirigiu o querido filme do público brasileiro “Mademoiselle Chambon”; o coreano Lee Chang-Dong que já ganhou melhor roteiro e menção honrosa do Júri Ecumênico com seu “Chi”; além do multi indicado em Cannes Christophe Honoré com “Canções de Amor” e “Em Paris”, porém cuja melhor obra que foi esnobada aos olhos deste crítico foi “Metamorphoses”.

Além de valer mencionar também os cineastas mais novos, com grande carreira meteórica como o badalado diretor americano David Robert Mitchell com seu sucesso internacional de terror “It Follows” (no Brasil “Corrente do Mal” – crítica), que já foi indicado em Cannes por este mesmo filme e também por “The Myth of The American Sleepover”; o russo Kirill Serebrennikov que já ganhou prêmio na Mostra Um Certo Olhar em 2016 por seu “(M)uchenik” e da subestimada revelação “O Estudante”; além de Ryûsuke Hamaguchi de “Happy Hour”, jamais tendo competido em Cannes.

Mas talvez a maior justiça com certeza seja a primeira vez competindo à Palma em Cannes para o consagrado cineasta iraniano Jafar Panahi, ex parceiro de trabalho do saudoso Abbas Kiarostami, e que renovou sua carreira, que já era notável como com “O Balão Branco”, a partir do momento que foi preso no Irã simplesmente por fazer seus filmes. Foi neste ponto que a comunidade cinematográfica internacional anunciou uma campanha em seu favor, inclusive com o próprio Kiarostami em Cannes junto de sua atriz-assinatura à época, Juliette Binoche, pelo filme “Cópia Fiel” (crítica), em que anunciaram ao mundo a injustiça velada contra o amigo Panahi. Desde então, o cineasta ganhou inúmeros dos principais prêmios nos outros Festivais europeus, tendo de praticamente “traficar” em segredo seus filmes para fora de seu próprio país que o impedia de trabalhar. Filmes como “Isto Não é um Filme” (crítica) e “Taxi Teerã” (crítica).

Nas outras Mostras, não apenas há maior paridade de gênero, com mais filmes dirigidos por mulheres, como figuram nomes também consagrados como Wang Bing, Apichatpong Weerasethakul (em trabalho coletivo ao lado de outros nomes), Wim Wenders, Ron Howard, e os artistas ora diretores: Gilles Lellouche e Valeria Golino.

Confira a lista completa, até então:

Competição principal à Palma de Ouro:

– Le Livre D’Image – Jean-Luc Godard
– Under The Silver Lake – David Robert Mitchell
– Blackkklansman – Spike Lee 
– Three Faces – Jafar Panahi
– Capharnaum – Nadine Labaki
– Todos Lo Saben – Asgahar Farhadi
– En Guerre – Stéphane Brizé
– Dogman – Matteo Garrone
– Netemo Sametemo – Ryusuke Hamaguchi
– Plaire Aimer Et Courir Vite – Christophe Honoré
– Les Filles Du Soleil – Eva Husson
– Ash os Purest White – Jia Zhang-Ke
– Shoplifters – Kore-Eda
– Buh-Ning – Lee Chang-Dong
– Zimna Wojna – Pawel Pawlikowski
– Lazzaro Felice – Alice Rohrwacher
– Yomeddine – A.B Shawsy
– Leto – Kirill Serebrennikov

Un Certain Regard:
 
– “The Gentle Indifference of the World,” Adilkhan Yerzhanov
– “Border,” Ali Abbasi
– “Little Tickles,” Andréa Bescond & Eric Métayer
– “Sextape,” Antoine Desrosières
– “Long Day’s Journey Into Night,” Bi Gan
– “The Harvesters,” Etienne Kallos
– “My Favorite Fabric,” Gaya Jiji
– “The Angel,” Luis Ortega
– “Girl,” Lukas Dhont
– “Sofia,” Meyem Benm’Barek
– “Manto,” Nandita Das
– “In My Room,” Ulrich Köhler
– “Angel Face,” Vanessa Filho
– “Euphoria,” Valeria Golino
– “Friend,” Wanuri Kahiu
 
Fora de competição:
 
– “Le Grand Bain,” Gilles Lellouche
– “Solo: A Star Wars Story,” Ron Howard
Especiais:
 
“O Grande Circo Místico,” Carlo Diegues
 
– “10 Years in Thailand,” Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol & Apichatpong Weerasethakul
– “The State Against Mandela and Others,” Gilles Porte e Nicolas Champeaux
– “To the Four Winds,” Michel Toesca
– “La Traversee,” Romain Goupil
– “Dead Souls,” by Wang Bing
– “Pope Frances – A Man of His Word,” Wim Wenders
 
Sessões de Meia-Noite:
 
– “Arctic,” Joe Penna
– “The Spy Gone North,” Yoon Jong-Bing

 

Esta matéria agradece dados compartilhados de Camila Borca, colaboradora espiritual e responsável pelo parágrafo de Cacá Diegues