Cannes debate a exclusão econômica

Em meio a um debate sobre as crises financeiras do Velho Mundo, a Croisette se surpreende com 'La Loi du marché', drama sobre desemprego com atuação magistral do galã cinquentão Vincent Lindon

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18 de maio de 2015

La loi du marché 13

CANNES – Frente a um fervilhar de discussões politicas em diferentes latitudes do 68° Festival de Cannes, por conta da exibição de “Mia madre”, de Nanni Moretti, no sábado, a projeção de “La loi du marché”, de Sthéphane Brizé, esta manhã, na briga pela Palma de Ouro, foi uma oportuna demarcação de terreno para a França dentro da atual linhagem de filmes sobre a crise. O drama sobre um sujeito cinquentão que, depois de quatro meses de desemprego, é obrigado a se submeter a toda a sorte de humilhações e provações para ser contratado, escancarou a porta dos traumas sociais para Cannes entrar, puxar uma cadeira e discutir exclusões financeiras – hoje o maior câncer do continente. O desempenho de Vincent Lindon – uma espécie de Domingos Montagner francês, por ocupar o lugar dos galãs maduros – tomou a Croisette de assalto. No fundo da sala de exibições Grand Théâtre Lumière, um dos jurados mais afetuosos, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro, não escondia sua emoção, rindo de nervoso na sequência nas qual o protagonista Thierry (Lindon) passa por uma vexatória entrevista por Skype com um funcionário de RH.
O longa bateu aqui no mesmo momento em que Cannes anda com a cabeça imersa em discussões sobre as falências da economia do Velho Mundo, trazidas, por exemplo, por longas como “As 1001 noites”, do lisboeta Miguel Gomes. Com tamanho de mastodonte (são três volumes de duas horas cada), o longa de Gomes fala sobre os desastres administrativos de Portugal. Sua projeção ocorre na Quinzena dos Realizadores, onde ele aparece como um favorito a prêmios.

Falando de hecatombes sociais, a Semana da Critica trouxe um trem-bala da Argentina: “Paulina”, de Santiago Mitre, conhecido no Brasil por “O estudante” (2011). Numa direção de arrancar o fôlego, com um timing de thriller, o longa de Mitre acompanha os esforços de uma advogada que decide virar professora e lecionar numa região pobre de seu pais. Mas no local, uma gangue vai abalar seu altruísmo. Mitre contou com coprodução da Videofilmes de Walter Salles, que é esperado aqui para conferir a exibição do novo longa de seu amigo e biografado Jia Zhang-Ke: “Muntains may depart”, nesta terça. Salles fez um documentário primoroso sobre o diretor chinês, que também é um porta-voz de debates sobre os desgovernos do mundo contemporâneo.