Cannes: ‘Game of thrones’ encontra Pasolini no filme de Matteo Garrone, ‘Il racconto dei racconti’

Diretor dos premiados 'Gomorra' e 'Reality' revisita tradição europeia de filmes sobre reis e monstros com esmero visual mas sem apara seu roteiro

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13 de maio de 2015

Il racconto dei racconti sgsg

Laureado duas vezes com o Grande Prêmio do Júri de Cannes, por “Gomorra”, em 2008, e por “Reality”, em 2012, o cineasta italiano Matteo Garrone prometeu causar barulho em sua passagem pela Croisette com “Il racconto dei racconti”, na briga pela Palma de Ouro, e cumpriu com sua palavra. Exibido para a imprensa na quarta, que babou de sono com o insosso “Umimachi Diary”, de Hirokazu Kore-Eda, o novo longa do cineasta é uma releitura plasticamente farta de criatividade da tradição dos filmes europeus (da Itália, sobretudo) sobre reis, princesas e monstros. Na tela, o efeito era uma espécie (improvável) de encontro entre a mitologia de um “Game of Thrones” e a estética do Pasolini na fase de “As Mil e Uma noites” (1974), ou seja, junta estilo com sensualidade, mas sem disfarçar uma certa cafonice e um descuido com o roteiro. É confusa a trinca de histórias que se trançam no filme, seguindo uma rainha louca para engravidar (Salma Hayek), um aristocrata com fome de sexo (Vincent Cassel, cujas aparições são a força motriz do projeto) e um monarca (Toby Jones) às voltas com um genro indesejado (no caso, um ogro). Embalada na música de Alexandre Desplat, a produção esbanja requinte, sobretudo na cena da morte de um lagarto marinho. Todos os monstros são criados, pela direção de arte, com requinte hollywoodiano. A maquiagem e a cenografia se candidatam, desde já, a uma vaga no Oscar. Porém, falta um discernimento crítico na maneira como Garrone reflete sobre o desejo como um possível sintoma das falências morais universais do Homem. O glacê é mais doce que o bolo.

Espera-se que o mesmo não ocorra com a produção portuguesa em três partes “As 1001 noites”, de Miguel Gomes, selecionada para a Quinzena dos Realizadores. Nela, o diretor de “Tabu” (2012) parte do mito de Xerazade para propor uma discussão sobre crises econômicas e falta de solidariedade. Gomes exibe sua criação por aqui no sábado, na segunda e na quarta.

E, enquanto isso, a ala brasileira em Cannes se pergunta: por que Diabos toca Michel Teló em cada barzinho desta cidade?


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