Cannes: ‘Love story’ de Philippe Garrel é o primeiro grande ‘achado’ do festival

Fora da disputa pela Palma de Ouro, o drama romântico 'L'ombre des femmes' causa sensação na Croisette com seu visual preto & branco e seu lirismo ressaqueado

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14 de maio de 2015

Nesta quinta-feira na qual o 68º Festival de Cannes recebeu um fortíssimo candidato a prêmios na briga pela Palma de Ouro – o drama de guerra húngaro “Saul’s son” (“Saul Fia”), do estreante László Nemes -,  a Croisette rendeu-se a um poema de amor à moda francesa (antiga), esculpido no cinzel branco e preto de Philippe Garrel. De tudo o que já se exibiu por aqui em três dias – acreditem, já foi exibida uma penca de coisas – nada tem a elegância e o esmero autoral de “L’ombre des femmes”, seu melhor filme desde a obra-prima “Amantes constantes” (2005).

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Fruto tardio da Nouvelle Vague, surgido na esteira das experiências de Godard, Truffaut e cia., Garrel, nascido em Paris a 6 de abril de 1948, foi eleito para abrir a edição 2015 da Quinzena dos Realizadores, mostra de Cannes paralela à briga pela Palma dourada, com “L’ombre des femmes”. Como já é seu costume, ele chegou com os cabelos grisalhos descabelados, cheirando a suor azedo e com seu ar embatucado de “acordei no susto” para discursar para uma multidão acotovelada em 840 poltronas de conforto zero. Foi lá na frente, ao lado do elenco central – Clotilde Courau, Stanislas Merhar e a deusa Lena Paugam -, dedicou a sessão a uma atriz anciã falecida havia pouco e falou só: “Estou muito contente de inaugurar a Quinzena”. Passou um curta seu inédito, feito no calor das manifestações de 1968, “Actua 1”, e pôs seu longa-metragem a rodar, com 73 minutos enxutos minutos cravados na precisão de um roteiro com a prosódia cinéfila de Jean-Claude Carrière (“O discreto charme da burguesia”), coautor de script com Garrel, Arlette Langmann e Caroline Deruas.

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Embalado na trilha sonora de Jean-Louis Aubert e na narração de Louis Garrel (o filho e muso de Philippe), “L’ombre des femmes” é um triângulo amoroso que atomiza o machismo ao levantar uma bandeira de equalização na libido dos homens e das mulheres. Na visão do diretor, ambos os sexos têm fome (e direitos) para desejar com quantidade e qualidade, apesar de a moral ocidental propor que só o macho da espécie tem licença para o cogito anticartesiano “Cobiço, logo existo”.

 

Na trama, o documentarista Pierre (Stanislas, numa atuação impecável) leva uma vida de tropeços financeiros ao lado da mulher, Manon (Clotilde), a quem já amou loucamente, mas que, hoje, virou mais uma parceira profissional. Ela é assistente e roteirista de seus docs, em especial um sobre um velhinho que participou da Resistência Francesa durante a ocupação do país pelos nazistas na Segunda Guerra. Tudo caminha na mesmice para Manon e Pierre até que ele conhece uma estagiária de um arquivo de filmes, Elizabeth (o marrom glacê Lena Paugam, com feições modiglianescas). Ali, tudo muda, pois Pierre não resiste ao abrir de pernas de Elizabeth, que, de transa em transa, vira mais do que um objeto sexual.

Cega de afeto pelo amante, ciente do casamento dele, Elizabeth passa a segui-lo para saber quem é Manon e, numa de suas espionadas, descobre que esta também vive um romance extraconjugal. A tentação de revelar a verdade a Pierre conduz “L’ombre des femmes” por caminhos tortuosos de dramaturgia, promovendo um (psic)análise da fragilidade dos machos do Ocidente, como é de costume ao diretor. Aliás, Garrel é famoso por andar pelas ruas de Paris carregando um exemplar das obras completas de Freud nas mãos, quase sempre o que traz o texto “Totem e tabu”.

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Mesmo nos momentos mais intelectualizados, nos quais o diretor assume fades como parte da narrativa, para provocar distanciamento crítico na plateia, “L’ombre des femmes” não perde seu lado lírico nem abandona sua crença no amor romântico. Para Garrel, no auge de seus 67 anos, essa doçura parece algo atípico. É recente sua gravitação por terrenos menos políticos e mais existenciais, como se vê desde o subestimado “A fronteira da alvorada”, que saiu vaiado de Cannes em 2008. Mas há nessa mudança um frescor que sublinha seu estilo (marcado pela hegemonia do plano-sequência, por falação sem fim com a câmera á altura do ombro dos personagens e por diálogos sobre o supérfluo) mas mostra uma vontade de renovação pela imagem de uma França jovem, meio perdida, porém apaixonada e apaixonante.

 

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4