Cannes: Novo Gus Van Sant é acolhido a vaias

Apesar do requinte visual, 'The Sea of Tress', longa inédito do diretor de 'Elefante' desaponta a Croisette com seu tom de melodrama cheio de misticismo

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15 de maio de 2015

Sea of trees Gus van sant

CANNES – Gus Van Sant desapontou a Croisette, onde sempre foi tratado como um artista maior. Vaias acolheram a exibição de seu novo longa-metragem “The Sea of Trees”, um melodrama cheio de misticismo que, apesar das inúmeras qualidades na concepção visual e no arranjo do elenco, tem um indisfarçável aspecto de “filme feito para ganhar Oscars”. De cara, a onipresente (e xaroposa) de Mason Bates deixa no ar o tom de produto feito para melar o coração dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematograficas de Hollywood. E o Festival de Cannes é uma “instituição” bem distinta da Academia, com mais e melhores ambições. E a figura de Matthew McConaughey a agonizar na floresta na pele de um cientista suicida é bem diferente do que se esperava do realizador de “Elefante” – pelo qual ele Van Sant ganhou a Palma dourada em 2003. Este drama metafisico muda a rota do cineasta, levando-o de volta ao passado de “O gênio indomável” (1997) e “Encontrando Forrester” (2000). Trata-se de um exercício mais narrativo e palavroso, menos experimental na linguagem do que longas aclamados aqui como “Paranoid Park” (2007) e “Inquietos” (2012). Seria mais próximo do conceito de “filme de ator”, ou seja, longas nos quais o virtuosismo da direção existe para fazer um astro solar. E, goste-se ou não, McConaughey sola cada vez melhor.

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Com roteiro de Chris Sparling, um ator e diretor de curtas-metragens, “The Sea of Trees” tira seu nome de uma floresta no Japão aonde o físico Arthur (McConaughey) vai disposto a se matar. O local é famoso por ser um local de suicídios. Nas primeiras imagens, Arthur chega a um aeroporto e negocia sua viagem para terras japonesas sem levar bagagens e sem exigir qualquer conforto, recusando até refeições. Aos poucos, vai sendo apresentado ao espectador em flashbacks – nem sempre editados de forma orgânica à narrativa do presente – que seu desejo de morte é motivado pela relação tumultuada com uma mulher, Joan (Naomi Watts). O périplo de finitude de Arthur vai indo em frente até ele esbarrar com um japonês misterioso, Takumi (o ótimo Ken Watanabe), que parece ter o mesmo anseio de dar cabo da existência.

Arthur quer ficar sozinho e morrer na solidão. Mas Takumi não arreda o pé do americano, conduzindo-o a locais rochosos de extremo perigo, que vai amortecendo com tiradas filosóficas. Tiradas estas que mais parecem parágrafos de autoajuda. Mesmo com esse tom, o filme se equilibra no poder (singular) dos enquadramentos de Van Sant, aqui vitaminados pela direção de fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen. A beleza é soberana nos planos de “The Sea of Trees”, com evocações a clássicos do cinema do Japão como “Contos da Lua Vaga” (1953), de Kenji Mizoguchi, e mesmo o cult mais recente “A floresta dos lamentos” (2007), de Naomi Kawase. Soma-se ao esplendor visual o talento de McConaughey e seu esmero para se firmar em papéis mais densos. No entanto, Cannes queria outra coisa de Van Sant. Alias, era mais do que uma questão de querer: Cannes e o cinema precisavam (e ainda precisam) de um filme com a fome de invenção de “Elefante”. Isto ainda não chegou…

 

Saul's son

Saul’s son

O mais perto qua a disputa pela Palma de Ouro de 2015 recebeu até aqui, na noite de ontem, foi o húngaro “Saul’s son” (“Saul fia”), de Lazlo Nemes.  Sua reconstituição para a Segunda Guerra Mundial mais parece um filme de horror, pela maneira sufocante como, nos momentos iniciais, narra a execução de judeus nas câmaras de gas do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Ao longo da trama, com 1h47m de duração, esse tom exasperante e aterrador permanece, conforme a narrativa – de uma engenhosidade rara – permanece colada no corpo do protagonista, Saul, interpretado por Geza Röhrig, numa atuação que deixou Cannes prostrada. A câmera não se desgruda dele. Parece que há uma GoPro colada à sua carne, seguindo seus passos, projetados numa imagem quadrada, de 4×3.

Na trama, Saul é um Sonderkommando, judeu escalado pelos nazistas a participar das execuções de seu próprio povo. Mas o destino dele muda depois que ele resolve proteger o corpo de um garotinho morto, submetendo-o a um ritual judaico. Essa decisão leva Saul a caminhos perigosos, que dão ao diretor – um estreante – chance de expor toda a sua técnica, com o apoio de um grande ator a seu lado. Sendo o júri presidido pelos irmãos Joel e Ethan Coen – assumidamente interessados em enredos sobre as mazelas judaicas -, “Saul fia” dificilmente sai da Croisette de mão vazias. E, de fato, merece uma distinção digna na premiação.

Nesta sexta de Gus Van Sant, Cannes viu ainda o sci-fi cômico “The lobster”, do grego Yorgos Lanthimos, que começa delicioso – com um ar de “Her”, de Spike Jonze -, mas se perde por completo. Colin Firth, com carisma zero, é um arquiteto que, num futuro exótico, submete-se a um projeto para encontrar o amor de sua vida em 45 dias. Caso falhe, ele vai ser transformado num animal. Os 50 primeiros minutos fizeram Cannes rachar de rir. Depois, o tédio reinou.

Neste sábado teremos Nanni Moretti (“Mia madre”) e Todd Haynes (“Carol”). Vejamos o que sai…