Cannes prova do biscoito da sorte chamado Jia Zhang-Ke

No filme 'Mountains may depart', o cineasta chinês vai além de sua predileção por crônicas sociais em um diálogo com um filão pouco explorado em seus filmes: o melodrama

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20 de maio de 2015

Jia Zhang-Ke 13

Nas mãos dos ocidentais desde sexta-feira, quando foi assolado por trabalhos irrepreensíveis de cineastas autorais como o americano Todd Haynes e o italiano Nanni Moretti, o 68º Festival de Cannes redescobriu o Oriente ao (re)visitar a China de Jia Zhang-Ke na noite desta terça-feira. Cannes voltou de lá com os olhos abertos para um cineasta sempre apto a surpreender pelo esgarçamento das fronteiras entre crônica, poesia e documentário. Em “Moutains may depart”, seu novo longa-metragem, saudado a uivos de satisfação após uma projeção para a imprensa, o realizador de “Plataforma” (2000) patina por um terreno inóspito para sua cinematografia: o melodrama. Mas, mesmo com uma derrapada de roteiro aqui e acolá – algo perfeitamente normal a um cineasta que esnoba a linearidade convencional do storytelling -, Jia galga degraus mais ambiciosos em sua evolução como artista, criando uma ponte com a tradição de um gênero com o qual não é íntimo e produzindo, a partir dela, algumas das sequências mais comoventes de Cannes em 2015.

Ao som de “Go West”, dos Pet Shop Boys, a China dos anos 1990 renasceu na telona do Palais des Festivals num triângulo amoroso entre Thao (Zhao Tao) e dois homens, um rico (Jinsheng) e um pobre (Liang). De 1999 a idos de 2025, as trajetórias dos três vão se emaranhar, até dar lugar aos conflitos internos do filho de Tao, Dollar (o ótimo Dong Zijang), que parte para a Austrália, falando inglês – a língua do “Oeste” cantado na canção dos PSB.

Como sempre, as incongruências sociais são o foco do diretor, que usa diferentes texturas de imagem para construir o visual do filme, incluindo granulações e efeitos de filtros coloridos que destorcem as cenas. Mas Jia vai além desse experimento formal, alcançando uma transcendência poética plena a evocação da cartilha do melodrama. A cena onde a mulher de Liang vai pedir ajuda financeira para Tao, ex-amada de seu marido, é de doer na alma pela observação que propicia da fraqueza humana frente à força do capital.

Jia ficou ainda mais conhecido no Brasil ao virar o tema de um documentário magistral de Walter Salles, que é esperado na Croisette amanhã, para ver a sessão de gala de “Mountains may depart”. Mas, apesar da boa acolhida ao filme de Jia, o favoritismo em torno da Palma de Ouro aqui na Croisette segue com o drama de Segunda Guerra húngaro “Saul’s son”, do estreante László Nemes.