‘Mia Madre’: Cannes se delicia com filme-fofura de Nanni Moretti

Maior revelação surpresa até agora, filme inova por seu diretor pela primeira vez usar uma atriz, Marguerite Buy, como seu alter ego, desde já forte candidata ao prêmio de melhor atriz junto com Blanchett por "Carol"

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16 de maio de 2015

Turturro Mia madre

CANNES – Ainda sob a indigestão causada pelo novo filme de Gus Van Sant (“The Sea of Trees”), a briga pela Palma de Ouro no 68° Festival de Cannes tomou um antiácido à italiana capaz de livrar a Croisette de todos os seus azedumes: “Mia madre”, que periga ser o filme mais próximo do conceito de obra-prima revelado pelo evento até agora. Nanni Moretti é o responsável pelo longa-metragem, que até agora foi o único apto a arrancar quilos de risos e litros de lagrimas, com igual percentagem, da plateia. O diretor já foi premiado aqui outras vezes, tendo inclusive recebido a Palma por “O quarto do filho”, há 14 anos.  E periga de ele levar de novo, apesar da torcida até agora estar compactuada com o candidato da Hungria: “Saul’s son” (“Saul Fia”). Se o húngaro agarrou Cannes pelo cérebro, com sua estrutura narrativa de engenharia de câmera, num corpo a corpo com seu protagonista, em meio a um Campo de Concentração fedendo a mortos, o concorrente da Itália arrebatou o balneário pelo coração. Aplauso algum até aqui foi mais inflamado, com direito a muita rasgação de seda para John Turturro, numa atuação impagável no papel de um canastrão importado dos EUA.

– Este é um filme com muito de mim em suas várias camadas, que tentam representar a vida entre a dor e a diversão – disse o cineasta, em resposta ao ALMANAQUE VIRTUAL. – A vida é um casamento desses dois extremos: momentos dolorosos e momentos de alegria.

Com uma maestria de montagem incomum mesmo para o mais sofisticado momento do cinema italiano, “Mia madre” é daqueles trabalhos com fôlego para se tornar “o filme da vida” de muita gente, em sua habilidade de costurar vazios existenciais, inquietude politica, metalinguagem e (sobretudo) fofura. Em função dupla, como ator e realizador, Moretti faz da atriz Margherita Buy uma espécie de alter ego seu, no papel de uma cineasta às voltas com morte anunciada de sua mãe (Giulia Lazzarini, mito do teatro europeu). A diretora, também chamada Margherita, está no processo de filmagem de um longa politizado sobre conflitos entre operários e donos de fábrica. Para complicar sua vida, o tal projeto tem como astro um ator hollywoodiano de vaidade GG e talento tamanho PP: Barry Huggings, vivido por Turturro, que fez a Croisette rir a cada aparição. Um lembrete: Turturro protagonizou o longa pelo qual os irmãos Joel e Ethan Coen – presidentes do corpo de jurados de Cannes deste ano – ganharam a Palma dourada lá atrás, em 1991, por “Barton Fink – Delirios de Hollywood”.

Mia madrea John

O que mais surpreende em “Mia madre” é a excelência de Moretti para usar a situação de uma mãe convalescente como metáfora para a situação de anemia social, econômica e politica em que a Europa se encontra. A palavra “Amanhã” frisada num diálogo do climax ilustra a (psico)análise social proposta pelo longa. Ao mesmo tempo, o diretor faz uma discussão sobre a própria feitura de um filme, numa dimensão metalinguística a partir dos esforços de Margherita para domar a canastrice de Barry.

– Esta metáfora não foi proposital. Não sou o melhor intérprete de mim mesmo para justificar minhas intuições. Mas sei que o filme mostra o pouco que sobrou da gente como um grande continente – disse Moretti, que atua no longa como Giovanni, o irmão da diretora. – Por mais que o filme traga muitos elementos da minha personalidade, eu sempre pensei que o papel principal deveria ser de uma mulher.

Depois de três dias de filmes em concurso, “Mia madre” e “Saul’s  son” são os únicos concorrentes com força para papar prêmios, em especial o de melhor ator. De um lado, pesa o charme de Turturro e seu histórico de colaborações com os Coen (quatro longas). Do outro, pesa a entrega Geva Röhrig ao drama de guerra da Hungria. Nesta noite de sábado, no entanto, a projeção de “Carol”, de Todd Haynes, pode mudar tudo de carona no vigor dramático de suas protagonistas: Cate Blanchett e Rooney Mara, juntas numa love story lésbica decalcada da literatura de Patricia Highsmith.