Canto dos Ossos

Difusão de Experimentações

por

31 de janeiro de 2020

Apesar de a Mostra Aurora estar sendo bem morna aqui na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes este ano, com exceção do questionador e intenso doc “Cadê Edson?” de Dácia Ibiapina (por enquanto, o único vencedor possível), ainda assim vale ressaltar destaques também como o intrigante terror de “Canto dos Ossos” de Jorge Polos e Petrus de Bairros. Uma obra de muitas propostas provocantes e bem filmadas esteticamente, que às vezes dispersa algumas de suas maiores qualidades numa difusão de experimentações nem sempre tão bem sucedidas, porém ainda assim valiosas.

Começando num determinado momento do passado, somos apresentados a um casal imortal de entidades que se assemelham bastante a vampiros (mas podem ser variantes, já que resistem ao sol e mantém uma vida cotidiana completamente normal), e depois somos projetados muitos anos pra frente de modo a conhecer novos personagens concentrados em Búzios no Rio de Janeiro. Com isso, a trama começa a se subdividir em núcleos que se alternam de maneira mais próxima ou mais distante do mote sobrenatural com que se principiou. A questão é que a proposta sobrenatural irá se subdividir e desdobrar em outras atividades paranormais que não apenas o vampirismo, e aí sim o filme começará a dispersar as forças mais carismáticas que vão sendo deixadas um pouco de lado — como o protagonismo da aluna interessada em literatura gótica, que exercia uma presença magnética central e vai sendo largada pela trama; bem como a interessante personagem trans que narra o filme em terceira pessoa, mas que só aparece de fato em duas míseras sequências que não contextualizam melhor sua motivação para estar narrando a história de forma onisciente.

Verdade seja dita, o filme não peca por falta de coisas interessantes, às vezes apresentando até coisa demais, como a subtrama dos estudantes ou de turistas, ou mais uma subtrama sobre a cadeia de hotéis de luxo que está sendo construída e pode ter influência político-financeira para tal, pois existe uma logomarca que une a construção dos hotéis com uma doutrinação lobotomizante que se quer inserir nas escolas locais… E, neste ponto de virada, é o vampirismo que vai se tornando em protagonista anti-hegemônico e libertário contra esses mesmos interesses escusos do governo, ao invés de serem os responsáveis pelos estranhos crimes cuja autoria antes parecia ser deles… Os personagens não necessariamente representam o bem e o mal de forma maniqueísta, até porque a força oculta que une os personagens mais fantasiosos na trama pode estar interligada. Algo tipo a eterna referência de Nietzsche: “Quando se olha adentro demais do abismo, o abismo olha de volta para você.”

Em parte, o mérito do filme fica para a sua fotografia assinada de maneira coletiva por Helena Lessa, Catu Gabriela Rizo, Irene Bandeira, Lívia de Paiva, Pedro Lessa, Juliana Di Lello, bem como pela direção de arte, figurino e maquiagem, assinadas de forma coletiva como por Ana Luiza Santos, Luiza Victorio, Lua Rodrigues e Patrícia Cavalheiro, bem como respectivamente por Felipe Arara, Paulo Victor Soares, Maricota, Luiza Victorio e Patricia Cavalheiro. Isto porque a forma de feitura baseada na guerrilha e na inventividade coletiva de fato compensa por quaisquer erros naturais de processos em grupos extensos… Só através da tentativa e dos acidentes de percurso que se pode chegar a algo novo. E a fotografia acertadamente soturna em um balneário de veraneio como as praias de Búzios deve ter dado um bom trabalho para descaracterizar o típico imaginário popular que se tem de lá, até que obtivesse o resultado em tela. Palmas também para a trilha sonora e para os filtros de câmera, mesmo que às vezes as experimentações sejam um pouco excessivas demais.

Por fim, como prenunciado um pouco mais acima no presente texto, o filme acaba dispersando o que propusera antes de forma tão interessante, desenvolvendo demais as mil subtramas paralelas e retomando a espinha dorsal numas elipses meio soltas de montagem, que providenciam com que tudo convirja para cenas conclusivas que não foram trabalhadas o bastante pra isso, e nem se encerram com a potência que tinham a capacidade de alcançar… PORÉM….é necessário atestar que “Canto dos Ossos” possui A MELHOR CENA DE ORGIA DE VAMPIROS DA HISTÓRIA, reinventando as formas de prazer e de sentir os corpos de parceiros/as, com novos orifícios que só os famosos dentes pontiagudos ou as afiadas garras poderiam perscrutar no corpo humano…

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