Cão Sem Plumas

Maracatu Atômico renascido do barro brasileiro

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15 de abril de 2018

Eu sempre fui fascinado por voar. O simples ato de saltar no vazio e não cair, mas ficar suspenso pelo próprio ar me encanta desde priscas eras. Hoje em dia me contento com mágicas menos abstratas que me dão a impressão de estar voando, mesmo quando meus pés estão firmes no chão: quando escrevo meus textos ou dou aula, sinto como se estivesse levitando. Ou quando solto minha voz em compassos ritmados contra o paredão de silêncio e canto, sustentando uma nota como plainando no vento, como um banshee (o pássaro, a lenda ou a banda Siouxsie). Também sinto como se voasse especialmente quando assisto amigos dançarem profissionalmente como eu jamais o alcançaria, tipo João Corrêa (da CBCN – Cia de Ballet da Cidadede Niteroi) e Sol Miranda (do Grupo Emú), onde me realizo através deles.

Como é incrível acompanhar os gestos e movimentos bailantes de um corpo no ritmo da música como se enganasse a vista de quanto tempo se pode flutuar…tanto o corpo dançante quanto nossa vista a sonhar. E é com a especialidade maturada da dança que a notável coreógrafa e dançarina Deborah Colker levanta questões sociais mais necessárias do que nunca, repolitizando a dança no momento certo. Questões do tipo: como voar se nossas asas estão cobertas de lama? Como respirar se o ar é pesado e rarefeito e o rio secou? Como sonhar se a vida fenece tudo ao redor? Como transpor o ambiente hostil e inóspito que se apresenta contra todas as aspirações?

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Estes questionamentos estão metaforizados todos de forma bastante orgânica e pungente em cada coreografia do novo espetáculo de Deborah, “Cão Sem Plumas”, baseado num poema de João Cabral de Melo Neto de 1950. Curiosamente, como tour de force para os integrantes do corpo de dança, e em meio ao momento político conturbado que vivemos, é muito simbólico que este e o outro projeto tão ambicioso quanto, a ter sido igualmente exibido no Rio este ano, “Grande Sertão: Veredas” de Bia Lessa, se escorem na corporalidade e no barro para reconectar o primitivo que há em nós de volta com a terra.
O humano é bicho e bicho é humano, é fauna e flora e é responsável pelo seu entorno. É semente que se rega com o sangue nas veias, e que semeia gente nascendo de terra e voltando a adubá-la num ciclo sem fim. Nos dois espetáculos, os corpos dançam se misturando com a natureza e se tornando vida selvagem, no sertão, na pobreza e abandono, sob condições impossíveis. Intérpretes encarnam mais de um ser, criador e criatura, feitos de lama da terra que os sustenta e impele para fora, a voar. E voam… Como voam!

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O título “Cão sem Plumas” da obra de João Cabral de Melo Neto, ora vertida pro palco por Deborah Colker, pode soar estranho ou excessivamente abstrato, porém, num misto de narração em off do texto original, bem como trilha orquestrada entre o clássico e a remixagem eletrônica, a tessitura narrativa cria camadas de interpretação cheias de significados, em abundância para imaginação nenhuma botar defeito. Várias metáforas cênicas para representar mangues, pântanos ou sertões cercados pela seca no nordeste Pernambucano. Há um quê do famoso videoclipe de Chico Science e Nação Zumbi, “Maracatu Atômico”,  como zumbis que levantam de volta à vida a partir do barro para reivindicar mais uma vez seu berço esplêndido. E a própria apresentação às vezes bebe da fonte do audiovisual como uma espécie de videoclipe 3D: O texto, a música, a dança e…e o telão!

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O espetáculo se utiliza de uma projeção de imagens durante a apresentação, como um filme de dança e performance visual dentro do espetáculo, fazendo interagir os corpos bailantes em frente a eles mesmos registrados na tela. Ora na penumbra, como silhuetas e contornos, emprestando os próprios corpos como tabula rasa entre a tela e a projeção; ora na luz, que às vezes ajuda o lirismo e os momentos acentuados da música para que nossos olhos acompanhem para onde devemos mirar, para em qual dos vários núcleos de dança teremos os ápices de clímax antes de cada transição de ritmo ou cenário.

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Por falar nisto e na mise-en-scène, os fãs acostumados a montagens explicitamente mirabolantes, onde os dançarinos interagem de formas inusitadas com cenários grandiloquentes ou versáteis, talvez se surpreendam em encontrar nesta obra as ideias mais sutis e implícitas da carreira de Colker. Porém jamais representando por isso menos complexidade. Há um aprofundamento de significações nas escolhas aparentemente minimalistas que mais agregam do que segregam. Como supracitado, a combinação única da declamação do texto, da música, dos dançarinos e da telona com projeções intermitantes lança uma miríade de possibilidades visuais que, se Deborah tivesse acrescentado mais elementos, poderia se perder na mistura. A verdade é que o espectador será prazerosamente desafiado, pois há inúmeros momentos em que múltiplas ações ocorrem no palco, de modo a ou requerer atenção compartimentada ou difusa, para acompanhar o todo. Decerto exige atenção e renderá exitosamente um bom retorno do espectador para rever sob outra ótica ou mesmo por outro assento, visto que onde se assiste influencia em nova recepção do jogo de luzes e sombras.

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Este é um espetáculo que ousa lançar sombras sobre seus componentes, já que normalmente a dança exige se estar sob a luz de holofotes. Não apenas Deborah realça a silhueta na privação da luz, diante da poderosa projeção no telão, como muitas vezes transforma a potência dos solos em privações coletivas, pois é uma metáfora bastante atual de o quanto necessitamos resgatar o cooperativismo na sociedade. Independente de cada membro aludir a animais diferentes, típicos das regiões retratadas, como canaviais, manguezais e pântanos, contendo desde caranguejos a garças, répteis a anfíbios, é através da lama que cobre seus corpos que todos se unem e dançam muitas vezes em conjunto. Inclusive, reaproveitando propriedades do cenário como fitas que caem do teto como cortinas de canas de açúcar, a grades que parecem as casas ribeirinhas da população humilde e trabalhadora. Ambos elementos que geram duas das sequências mais líricas do espetáculo inteiro.

Screenshot_20180415-001347Uma obra de muitas reflexões sob aparentes sutilezas, que mostra que mesmo em condições extremas, quando o rio não tem água, ou o céu não tem ar, um cão sem plumas não pode voar… Porém, juntos, podemos tentar.