Carmen de Cervantes

Interessante encontro como o de Carmen com Miguel de Cervantes merecia um olhar e encenação mais apurada

por

26 de agosto de 2015

Geralmente, enredos em que existe o confronto entre autores e suas emblemáticas personagens, seu criador e a sua criatura, acabam por suscitar bons embates cênicos, em nossos palcos teatrais. Discussões sobre trajetórias, ações, gestos e atitudes tomadas pela personagem – neste encontro fictício -, costumam enriquecer em muito a carpintaria textual, e ajudam a desmontar os mitos criados em torno delas. Entretanto, e apesar disso, partindo de um premissa semelhante a abordagem acima, o texto “Carmen de Cervantes” de Marcos Arzua e Fábio Espírito Santo envereda pelo caminho de idealizar um encontro entre o escritor castelhano, romancista, dramaturgo e poeta Miguel de Cervantes (1547-1616) com a personagem Carmen do escritor francês Prosper Mérimée (1803-1870). Ainda que este, seja um encontro rico e inusitado, ele não se concretiza como grandes questões a serem debatidas entre os dois. Fica-se apenas a impressão de que Carmen precisa mudar o seu rumo e as suas mazelas em ser uma mulher fria, analfabeta e que busca possibilidades diferentes para o seu destino aprisionado na literatura de Mérimée. Partindo de uma premissa simplista, a de que o soldado José lia para Carmen livros de Cervantes, este mote parece bastante ingênuo e facilitador de um encontro entre os dois. Necessitando de uma explicação cartesiana e lógica, para tentar explicar o ilógico encontro entre os dois, ainda que com diferença de quase dois séculos entre eles. Como se fosse preciso disto para se ter a liberdade artística de unir os dois.

Debora-70Carmen-de-Cervantes_MG_5075

Ana Paula Bouzas tira proveito de sua grande capacidade corporal e técnica de atriz, no papel de Carmen

1_ana-paula-bouzas_credito-debora-70-carmen-de-cervantes

Ana Paula Bouzas em belo gestual de dança flamenca, como Carmen

A encenação bastante esquemática de “Carmen de Cervantes” por Fabio Espirito Santo divide o palco em dois, onde ao lado direito da plateia temos a casa de Cervantes, e no outro lado o espaço aberto e livre de Carmen. Junto a diversos tecidos pendurados que dialogam com o universo nômade e cigano da famosa cigana andaluza. Uma cenografia pouco inventiva de Ronald Teixeira que recorre a livros espalhados pela casa de Cervantes, referência bastante óbvia a um escritor para encenação nada realista. Os figurinos de Bettine Silveira buscam uma similaridade com as roupas da época, e atendem regularmente ao proposto. A participação discreta da música ao vivo, colabora como de habitual ao clima e atmosfera de uma Espanha medieval e mítica. O maior problema do espetáculo é a iluminação de Fábio Espírito Santo, que deixa os atores à escura em cena, onde parece que grande parte dos refletores estão desafinados, com angulações equivocadas, ou a direção os marcou propositadamente fora da luz. Utilizando em sua maioria refletores de lâmpadas pares para fazer focos fechados de luz, e quase que a totalidade de luz geral. Refletores estes que servem para espalhar a luz e não para dar conta de definições mais precisas de focos de luz, como o sugerido pela concepção.

Carmen-de-Cervantes-foto-de-divulgação-890x395

O bom elenco formado também por Samir Murad (Miguel de Cervantes), Ciro Sales (José) e Andreza Bittencourt (Catalina)

A atriz Ana Paula Bouzas como Carmen tem o melhor desempenho da peça. Precisa, dona de dotes corporais preciosos, interpreta com verve e força a sua personagem. Samir Murad como Cervantes está um tom de interpretação acima, resvalando no teatrão, ainda que esteja inteiro em sua função e missão. Ciro Sales como José apresenta um bom trabalho, assim como Andreza Bittencourt como a Rival. Interessante encontro, como a de Carmen com Miguel de Cervantes, em “Carmen de Cervantes”,  merecia um olhar e uma encenação mais apurada.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52