Carol

Uma reflexão pós filme

por

31 de dezembro de 2016

A elegância. A sutileza. A sofisticação de filmar a vida como ela é. (sem spoiler)
Um filme de nuances, gestos, de luz e sombras da sociedade refletidos no fotografia noir. Desde a construção de câmera invasora de intimidades, gentil e incisiva, sempre de fora para dentro de alguma janela, vitrine ou porta, onde ainda são refletidas cenas do dia-a-dia de fora da história, fundindo os dois mundos: o mundano ordinário do cotidiano nos reflexos dos vidros, com carros e pessoas comuns passando; e o outro delicadíssimo, onde é possível crer num romance impossível entre dois seres humanos improváveis (não pela visão óbvia de gêneros homoafetivos, cuja leitura num estrito senso seria reducionista e injusta em meio a um romance universal, e sim por mil diferenças como sociais, de classes, de personalidade, de força, de época ou até conhecimento de si próprio).
Um filme que engrandece as atuações pela cumplicidade de câmera, pelos ensaios gestuais, muito protagonismo de mãos e penteados (tais elementos em Blanchett parecem vivos).
Praticamente sempre as personagens estão contrapostas, plano e contraplano, uma de frente pra outra que fica de costas para a câmera em 1ª pessoa, usando as duas extremidades da telona, como se quisesse botar em destaque não julgamentos de certo ou errado de quaisquer das partes, e sim os dois lados da balança da discussão.
Até o uso da iluminação (‘ou falta de’, sempre em cantos da tela, como uma vinheta esfumaçada de cinema clássico), onde as sombras de grades e cortinas são sempre geométricas/regradas enquanto a luz é livre. E da mesma forma a trilha sonora, cujos silêncios versus músicas a cada montagem de cena também se protagonizam ou antagonizam de acordo com as mesmas extremidades narrativas que conduzem a história sob a vitória do eu-atemporal ou do regramento social impositivo.
Há inclusive uma incrível discussão filosófica, expondo dois extremos. Um que poderia facilmente ser confundido com o hedonismo por olhos leigos, o de sorver a vida e não negar o si mesmo, mas que na verdade é a auto-afirmação do eu, de quem conhece a si próprio como a uma força da natureza, e nada poderá impedir ou ficar no caminho de “pensar, logo existir” por parte da personagem de Blanchett. Uma leoa.
E outra contraparte que poderia também ser confundida com niilismo por parte da personagem de Rooney Mara, mas que se usa da cultura de nunca dizer não para experimentar tudo da vida que não teria força por si própria, algo como um imperativo categórico que tivesse que seguir cegamente para ter vida, na negação do querer, para navegar na onda do outro, quando o que faz na verdade é quebrar os antigos selfs para construir enfim um novo, dos cacos quebrados do antigo. Uma camaleoa.
O romance de fato é muito mais uma sinergia tipo uma “amizade de festa do pijama”, curiosidade mútua….espiada no banheiro quando leva suéter……a curiosidade já estava ali, só que muito mais na cumplicidade e compreensão que só uma mulher às vezes frente a opressão da sociedade pode ter pela outra.
Era pra ser sutil em subtextos mesmo
E nao necessariamente duas “profissionais” em suas escolhas sexuais, ate porque era uma época super rígida, preconceituosa, e a homoafeição apesar de existir por séculos estava em meio à era do recato
Apesar de Blanchett ser claramente sofrida pela opressão social machista, e saber q a identificação feminina lhe dava prazer, ainda assim não tinha certeza de o que/quem era. Só sabia por certo o que lhe fazia bem
Enqt a outra era uma curiosa um pouco sanguessuga da admiração embasbacada pela outra.
Pura poesia.
(Baseado no romance “The price of salt”, da americana Patricia Highsmith)