Central

Documentário retrata as mazelas do maior presídio do Brasil

por

16 de outubro de 2016

O Presídio Central de Porto Alegre é um monumento à ineficiência do Estado brasileiro. Considerado o pior do país pela CPI do Sistema Carcerário em 2008, e um dos piores da América Latina, o estabelecimento prisional já foi objeto de denúncias perante a Organização dos Estados Americanos e segue até hoje a sua triste história de omissão estatal na ressocialização dos seus presos e no atendimento aos direitos humanos mais básicos. Além disso, o Central, como é conhecido o maior presídio do Brasil, simboliza a ausência de comando do Poder Público na política carcerária, função eminentemente estatal que é exercida conjuntamente com os criminosos que lá cumprem pena.

Central

Central

Baseado no livro “Falange gaúcha”, de Renato Dornelles, que dirige o documentário ao lado de Tatiana Sager, “Central” (2015) se junta a outras produções nacionais, como “Sem pena” (2014) e “A gente” (2013), na tentativa de entender a complexidade de eventos que conduziram a essa situação. Superlotado, o estabelecimento prisional apresenta problemas de esgoto, energia elétrica, água encanada, alimentação e saúde, descumprindo o objetivo de reconduzir os condenados ao convívio social e permitindo que o crime organizado assuma as rédeas da sua administração. Os presos são tantos que as celas não podem mais ser trancadas e eles transitam livremente entre as galerias. Da galeria para fora, quem manda é o Estado; mas da galeria para dentro, o controle é exercido por um poder paralelo, clichê midiático que resume um organismo regido por leis próprias e por um complexo quadro organizacional. Incapaz de exercer sua autoridade, a autoridade estatal é forçada a separar seus custodiados de acordo com as respectivas facções e, com isso, fortalece-as dentro da sua própria estrutura. Obrigada a reconhecer lideranças criminosas, a Administração Pública dá início a um processo de gestão compartilhada da segurança pública, colocando-se em posição de igualdade em relação a quem lhe deveria ser subordinado.

Central

Central

Alternando cenas captadas pela equipe de filmagem com várias outras, filmadas pelos próprios detentos, além de depoimentos de pesquisadores, promotores e juízes, “Central” traça um panorama sombrio da realidade carcerária porto-alegrense, a qual é um mero reflexo da política de execução penal nacional. O filme de Dornelles e Sager registra, também, como a corrupção permite a entrada de drogas e armas no presídio e, mais grave, o pouco empenho da Administração do Central na melhoria desse cenário, já que sua diretoria sequer admite os evidentes problemas que imperam no lugar: “não é o ideal, mas também não é aquele caos que a gente vê na TV”, argumenta em certo momento um dos responsáveis pela gestão do estabelecimento. O mesmo oficial, contudo, admite que “se houvesse uma rebelião, só um 2º Carandiru resolveria”.

Central

Central

Ao denunciar a má prestação de serviços públicos como uma das causas da violência urbana e chamar atenção para o fato de que todo o sistema carcerário brasileiro foi construído sobre a ideia de que a segregação é a única solução para esse problema, “Central” realiza uma reflexão crítica e presta um auxílio relevante na compreensão de uma das mazelas mais graves do país.

Festival do Rio 2016 – Fronteiras

Central (Central)

Brasil, 2015, 75 minutos

Direção: Tatiana Sager, Renato Dornelles

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4