Certas Mulheres

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09 de outubro de 2016

Na direção de seu longa mais recente, espécie de filme-coral que retrata a rotina de três mulheres independentes no estado de Montana, nos Estados Unidos, a cineasta Kelly Reichardt tem uma proposta bem clara. No original, o título do filme é “Certain Women”, traduzido literalmente para “Certas Mulheres”, termo que remete a mulheres comuns, com vidas nada inesquecíveis, marcadas por batalhas diárias que transparecem nas olheiras, nos sorrisos escassos, nas decepções. A intenção da cineasta revela-se na forma de filmar e na estrutura da trama ― a filmagem é simplista, com formato mesmo de contemplação, enquanto a narrativa se desenrola sem surpresas, em tom monocórdio para reforçar a trivialidade das existências de Laura (Laura Dern), Gina (Michelle Williams) e Jamie (Lily Gladstone).

Quem estabelece o primeiro contato com o público é Laura, uma advogada que está por um bom tempo cuidando do caso de Fuller (Jared Harris), um homem que sofreu um acidente de trabalho e, por detalhes burocráticos, não pode recorrer a um processo de indenização. Sem ter como escapar da situação, Laura acaba envolvida nas consequências dos distúrbios do cliente, até tornar-se “vítima” de um sequestro mal orquestrado. Na segunda parte do filme, Michelle Williams interpreta Gina, o arrimo de uma família composta por uma filha adolescente problemática e um marido adúltero (James Le Gros). As poucas revelações sobre a convivência familiar, quase nada é mostrado a respeito da animosidade que paira sobre eles, fazem com que esse trecho do filme soe pouco atraente. O relacionamento dos três amargou, mas o recorte da vida de Gina escolhido para situá-la no filme não foi de ordem afetiva ― tudo parece girar em torno das pedras de arenito que ela quer utilizar em uma obra. A terceira mulher apresentada protagoniza a história com o maior potencial para instigar o espectador. Fora da cidade de Livingstone, Jamie é uma rancheira que passa grande parte dos seus dias cuidando de cavalos, sem nenhum contato humano. Um dia, ela conhece Elizabeth (Kristen Stewart), uma moça recém-formada em advocacia, que leciona aulas para poucos habitantes da cidade, incluindo Jamie. Entre as duas, os acontecimentos que as tornam mais próximas não são nada empolgantes, mas suficientes para estimular a obsessão da fazendeira pela professora. Entre um lanche e outro em um mesmo restaurante, Jamie quase não fala, prefere observar Elizabeth matando a fome e fazendo poucas, mas substanciosas revelações sobre ela, alguém que ambiciona por algo a mais.

No cotidiano de nenhuma das três mulheres, com sutis conexões entre elas, há picos de tensão. O que não configura um problema já que a diretora apostou na observação da trivialidade. No entanto, ao centralizar Laura, Gina e Jamie, as certas mulheres que poderiam ser qualquer uma daquelas do dia a dia, na disputa de um lugar no mundo, faltou feeling, um coração batendo mais forte em ocasiões tão corriqueiras, para fazer com que o filme sobreviva fora das salas de cinema.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Certain Women, Estados Unidos, 2015, 107’

Kelly Reichardt

Elenco: Laura Dern, Kristen Stewart, Michelle Williams, James Le Gros, Jared Harris, Lily Gladstone

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3