Cheio de som, de fúria e de brilhantismo, ‘Macbeth’ mancha de adrenalina as telas da Croisette

Dirigida pelo australiano Justin Kurzel, nova versão da peça de Shakespeare encerra a disputa pela Palma de Ouro com uma atuação magistral de Michael Fassbender, regando Cannes a litros de sangue em cenas de ação de uma beleza plástica de matar 'Game of Thrones' de inveja

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23 de maio de 2015

Macbethy fino

CANNES – Ciente de que a vida é cheia de som e de fúria, o 68° Festival de Cannes não estranhou o vento trágico soprado da Escócia para a Côte d’Azur para impulsionar “Macbeth”, do diretor Justin Kurzel, à vitória nestes momentos finais da briga pela Palma de Ouro de 2015. Como último dos 19 longas-metragens em concurso a ser projetado, o filme baseado nas palavras poéticas de Billy Shakespeare afogou a Croisette em adrenalina, graças a sequências de batalha de uma beleza estética jamais alcançável por qualquer “Game of Thrones” do momento. Sua vitalidade visual, numa fotografia puxada para tons em vermelho sangue, é imensa, mas não à altura do que Michael Fassbender oferece a cada tomada, na pele de um Macbeth assoberbado pela insanidade. Até Marion Cotillard, atriz número 1 na França, o eterno Magneto de “X-Men” é capaz de ofuscar, sem muita dificuldade. Nesta releitura, a direção de Kurzel põe Lady Macbeth num segundo plano, salvando o texto do bardo do feminismo que acaba sufocando-o (para botar ela, a milady vilã, em primeiro plano) e protegendo-o também de um recorrente olhar metafísico, no qual os mistérios místicos da existência atenuam os crimes do protagonista. Aqui, não. Aqui, toda a culpa, de crimes e pecados, repousam sobre a pesada cabeça que toma a coroa escocesa para si, à força.

– Tentei fazer uma espécie de western, aproveitando a imensidão das paisagens escocesas para retratar o que sempre foi visto como uma reflexão sobre cobiça como um conto sobre o luto e a perda aos olhos de um casal – disse Kurzel em Cannes ao fim da projeção, muito aplaudida, mas também criticada com gritos de “é uma vergonha”, berrado por um purista de Shakespeare.

Depois de uma sequência de guerra, na qual Macbeth se livra dos inimigos, o filme invade corte adentro, fiel a cada sílaba escrita por Shakespeare na peça, mas buscando ler cada palavra dele a partir de uma perspectiva mais relativista, capaz de expor lados ocultos de outros personagens. O melhor exemplo é a figura do Rei Duncan, retratado como um fraco pelo sempre eficiente David Thewlis (“Assédio”). Lady Macbeth continua sendo a agente do crime do marido: ela o convence a matar Duncan, inventando uma conspiração, de modo a seu consorte galgar posições mais nobres na hierarquia real. Porém, na atuação delicada de Marion, a Lady é menos vilã, menos mordaz, assolando-se na culpa pela chuveirada de coágulos derramados no solo de seu reino.

-As pessoas muitas vezes esquecem que, no texto da peça, Lady Macbeth perdeu um filho e é essa perda que muda seu comportamento, revelando uma natureza que impele o marido a contestar a impotência de seu governante e almejar a coroa para si. Foi essa dimensão que eu tentei dar _ diz Kurzel, bem escudado por Fassbender.

Seria uma injustiça deixar a interpretação dele sem prêmios, mesmo diante de um séauito de concorrentes tão fortes, a destacar Michael Caine, em “Youth”, que, no entanto, deve abocanhar láureas maiores, talvez a própria Palma de Ouro. Mas, de qualquer forma, o “Macbeth” de Kurzel lança aqui – muito bem lançada – sua campanha para o Oscar 2016.

Os resultados da peleja oficial de Cannes serão conhecidos neste domingo. Embora o favoritismo siga com “Saul’s son”, da Hungria, e “Mia madre”, da Itália, vem crescendo entre as vielas do balneário o boato de que o time de jurados presididos pelos irmãos Joel e Ethan Coen amaram o épico “The assassin”, do sino-taiwanês Hou Hsiao-Hsien, e pretendem dar a Palma para eles. Foi um filme recebido com muita divisão e muita decepção, cujo sucesso repousa muito mais no respeito pela obra pregressa de seu realizador do que por suas qualidades individuais. Vejamos…