Chico

Distopia 100% brasileira

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01 de outubro de 2017

O cinema brasileiro realmente anda de vento em popa. Inclusive flertando e se reapropriando de gêneros que até pouco tempo nosso circuito poderia pensar não nos caber reivindicar. O grande público pode ter dificuldades em lembrar de grandes filmes de ficção-científica brasileira, ou de realidade distópica, mas estes exemplares existiram, mesmo em longas-metragens lançados comercialmente através da história. Há de exemplo os excelentes “O Quinto Poder” de Alberto Pieralisi e produção de Carlos Pedregal e Herbert Richers, “Brasil Ano 2000” de Walter Lima Júnior, “Quem é Beta?” de Nelson Pereira dos Santos ou mesmo “Parada 88: O Limite de Alerta” de Jose de Anchieta. Mas é nos curtas que a criatividade mais se libertou no novo século, como agora com o paradigmático “Chico” dos irmãos cariocas Eduardo e Marcos Carvalho e Tiago Coelho.

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Partindo de uma premissa distópica, ou seja, subgênero da ficção-científica que distorce uma utopia futurista, projetando com maior liberdade críticas sociais de assustadoras possibilidades reais, “Chico” transpõe o espectador para 2029: um período em que as pessoas são controladas por tornozeleiras e a lei acaba de autorizar que esses indivíduos catalogados e segregados poderiam ser presas “preventivamente”. Ou seja, é como se o sistema pudesse prever correções comportamentais para uma porcentagem periférica da população já desprivilegiada de direitos, como se ao invés de corrigir as injustiças e disparidades, apenas pré-julgasse como essas injustiças reduziriam as chances e aumentariam a discriminação, cujos discriminados devem ficar murados em um cercado para não se “misturar”. Lembra um pouco de inspiração na obra “Minority Report” do grande autor de ficção-científica Philip K. Dick, já transposto para o cinema no filme homônimo de Steven Spielberg com Tom Cruise, onde este era um policial que prendia pessoas preventivamente até que ele próprio provasse do gostinho de seu remédio quando fosse preso por um crime que “ainda” não cometeu e pelo qual se julga inocente…

Mas é aí que “Chico” se destaca e deixa sua marca. Em primeiro lugar, enquanto o personagem de Tom Cruise cruzava a fronteira de seu próprio julgamento para entender o outro lado, aqui o espectador é arremessado em um espelho de si mesmo. Vemos um retrato de pessoas trabalhadoras com família e medo da opressão do Estado autoritário, medo este que cada vez mais une a todos em um mesmo potencial danoso desde as recentes turbulências político-conservadoristas. O opressor nessa história só aparece no extracampo, fora da tela, como nos sons da TV estilo Jornal Nacional, que condiciona o espectador a refém em suas poltronas de condições castrativas que deixam a todos impotentes.

Tudo começa com uma mãe tendo de dar a luz numa solitária insalubre, sofrendo a mesma injustiça que depois, anos mais tarde, quer tentar evitar para seu filho: Chico. Após um salto no tempo, somos levados para um futuro distópico onde as primeiras impressões advém da TV, aproximando bastante esse futuro do nosso presente. Diante da TV, uma mulher forte e trabalhadora, incansável, que parece preocupada, já que hoje é o aniversário de seu filho e ele alcançou a idade de ser recolhido pelo Estado para uma espécie de instituição “corretiva” obrigatória. Seria uma espécie de serviço militar forçado, se não fosse a contragosto e apenas para a parte da população murada em regiões periféricas, ou seja, uma prisão demográfica.

Diante desta falta de perspectiva, é impressionante o contraste que os irmãos cineastas utilizam entre o impacto da violência, tanto pelo som como pela desordem rítmica, correria e gritos, num meio embrutecido e calejado por forças externas que ainda não perdeu a esperança, e o lirismo salvador. A protagonista que divide o papel de Mãe do Chico do título juntamente com sua própria mãe, a avó do garoto, compartilham as agruras geracionais de ver o tempo passar e inventar novas armas contra a impotência. A direção de arte criativa e rica em detalhes também tem muito a dizer quanto a isso, dos grafites nas paredes às escadarias verticalizadas entre corredores sem portas nem janelas, como se todos morassem juntos num mesmo fluxo emparedado para se protegerem e defenderem. Tanto que as escadas que atravessam o filme inteiro, dos enquadramentos nas externas conforme o menino Chico sobe os degraus com seu tênis novo que a mãe duvida que ele não tenha roubado, aos planos fechados e claustrofóbicos já dentro do prédio que parecem ascender os patamares das filmagens até chegar num topo intransponível, de onde só pode sair transcendendo a realidade.

Ferreira que lida com forja e fogo, essa mãe, interpretada com tanta força pela revelação Jeckie Brown, é a metáfora de uma construtora, de alguém com o físico atlético e a obstinação sofrida de quem chegou até ali para cumprir um destino para seu filho. Para que ele possa ter a leveza que lhe faltou devido às injustiças governentais, mesmo que a avó, na doce figura de Lucia Talabi, até hoje tente remendar as cicatrizes do passado com um carinho que talvez já não tenha mais lugar no tempo presente, mas que só vai poder libertar quando puder dar asas para a imaginação do futuro voar. Mais um filme inovador e com uma linguagem antes não experimentada, transformando matéria-prima do dia-a-dia em reciclagem futurista high-tech meio Joaozinho Trinta meio Adirley Queirós de ser, que se junta ao grande panteão de experimentações curta-metragistas de ficção-científica que norteiam de tal forma a bússula cinematográfica que transbordam a influenciar produções futuras, como oo precursores “Barbosa” de Jorge Furtado ou “Loop” de Carlos Gregório, ou mesmo os novos cults “Quintal” de André Novais e “Personal Vivator” de Sabrina Fidalgo.