Chico – Artista Brasileiro

Desconstruindo e remontando Chico, um brasileiro por excelência

por

26 de novembro de 2015

547057.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

Chico Buarque de Holanda é mito vivo da cultura nacional. ‘Roda Viva’, ‘Cálice’, ‘A Banda’, ‘Geni e o Zepelim’ e infinitas outras músicas inesquecíveis… Quem nunca se encantou por uma de suas letras, mesmo que na voz de outros artistas? Ele mesmo se considera muito mais um letrista do que necessariamente um cantor, e talvez por amar tanto escrever que até para a literatura enveredou. Suas palavras transpiram versos do dia a dia no imaginário de cada cidadão. O diretor Miguel Faria Jr., que já havia antes em sua filmografia contemplado o filme sobre outro ícone brasileiro, Vinícius de Moraes, decidiu então versar sobre um dos mais nomes mais complexos, mas ao mesmo tempo pé no chão, extremamente ligado ao povo, engajado e participativo, o que talvez fizesse de Chico Buarque um biografado indomável ou arredio. Como resolver esta questão? Deixando Chico falar por si. E como ele fala bem.

Poderia até ser considerado tendencioso deixar o biografado falar praticamente durante toda a projeção de si mesmo, com raras exceções de um ou outro comentário de nomes afetuosos a ele como Maria Bethânia, ou mesmo dedicatórias em vídeo dos saudosos Tom Jobim e Vinícius. Todavia, o homem antes mesmo do artista tem um surpreendente senso de auto-crítica, além de uma lucidez bastante sistemática de sua relevância histórica, até porque, como ele mesmo diz, seu pai era um historiador/sociólogo de renome, e Chico aprendeu desde cedo a amar ler e aprender. Percebe-se. Precede à qualquer coisa que fale uma reflexão profunda do significado das coisas. Alguns poderiam achar que aumentaria o grau de adulação do documentário, porém isto apenas se nunca ouviu Chico criticar a si mesmo com finíssimo humor irônico. Ele ri bastante, até de si mesmo. E nós com ele (as tiradas sobre “O Irmão Alemão” ou sobre sua paixão por futebol. Poderia se dizer que se o filme não funcionasse como documentário, seria uma das melhores comédias do ano, pois o artista também sabe fazer performance de si para as câmeras, e dá um show à parte. Ele mesmo diz que já tentou ser ator inúmeras vezes, mas sempre teve dificuldade de interpretar alguém que não fosse ele mesmo. Até nos palcos nunca soube separar a persona íntima, aquele que anda, come e se veste como se estivesse em casa, daquele que se apresenta ao vivo. Tímido? Timidez era um mito que notoriamente lhe foi associado na história e neste documentário é enfim desmistificado, pois Chico não possui nem um fio de cabelo tímido em seu corpo. Confessa que adquiriu fobia de palco por outras razões, na época da Ditadura que amargurou um exílio fora do Brasil e teve muita dificuldade de manter sua carreira e sustentar sua família, com a esposa de trinta anos Marieta Severo, em países de língua não-portuguesa, mesmo sendo ele poliglota, já que a conexão com a plateia não dependia disso. Vem daí seu problema com conexão. Uma leitura mais profunda traduz que vem aí seu problema com qualquer figura de autoridade abusiva, e como a Ditadura marcou sua vida e arte, como um guerreiro que nunca deixou de se expressar. E o documentário é isso, antes de tudo uma expressão, por ele mesmo. E Miguel Faria Jr. ligou a câmera e deixou ele falar por si.

images (2)

A narrativa é fluida e passeia bem pela história do contemplado. Apesar da linearidade, dispensa formalismos, às vezes se adiantando um pouco ou voltando ligeiramente, como se Chico contasse sua vida a alguém muito íntimo, como seus netos, que também fazem participação. E as opiniões políticas também foram um pouco atenuadas, com exceção de uma ou outra assertiva mais polêmica, especialmente sobre a época que foi muito censurado pelo governo, a concessão parece ter sido feita para não chocar tanto as plateias hoje em dia tão politicamente corretas, ou de extrema direita ou de esquerda, que não sabem ouvir argumentos contrários aos seus. Mas talvez a única real escolha do diretor que acabe ficando um pouco de fora de sincronia mesmo são os interlúdios musicais. Algumas canções recebem performances tanto de nomes mais conhecidos quanto outros um pouco mais alternativos, desde Ney Matogrosso a Milton Nascimento, uma inusitada parceria entre Adriana Calcanhoto e Mart’nália, e até Péricles adapta uma de suas canções. Não só a amplitude dos artistas, mas também as músicas mais lado B escolhidas podem afastar um pouco o público da conexão direta ou de quem esperasse ouvir um pouco mais do próprio artista se apresentando. Mas nada que atrapalhe este confessionário praticamente de um amigo que cada espectador fará com esta sessão, um amigo em primeiríssimo lugar do próprio Brasil brasileiro.

Festival do Rio 2015 – Noite de Abertura

Chico – Artista Brasileiro (idem)

Brasil, 2015. 110 min

De Miguel Faria Jr.

Com Chico Buarque

 


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52