Chorinho

Ótimo texto do saudoso Fauzi Arap e bela atuação de Denise Fraga fazem deste espetáculo uma pedida obrigatória

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03 de dezembro de 2014

O saudoso ator, autor e diretor Fauzi Arap, que nos deixou há pouco menos de um ano, fazia parte de uma cepa de artistas que não existem mais, ou se existem, são tão dispersos que tornaram-se invisíveis ao teatro contemporâneo. Oriundo do Teatro Oficina, e com uma carreira de sucesso em todas as áreas em que atuou, representava a figura do artista visceral e apaixonado, que carregava consigo um grande universo de indagações que transformaram-se em muitos textos fortes e contundentes. E nos últimos anos de sua vida resolveu se aproximar mais da origem do teatro amador, aquele em que se faz por amor e não por dinheiro.

Claudia Mello e Denise Fraga em cena de Chorinho no Teatro dos Quatro no Rio de Janeiro

“Chorinho”, texto de Fauzi Arap, e direção dele em conjunto com Marcos Loureiro, integra um projeto que pretende dar visibilidade à novas montagens dos textos e edição da obra completa de Fauzi. A encenação, que está em cartaz no Teatro dos Quatro, no Rio de Janeiro, é bastante despojada, com pouquíssimos objetos de cena (um banco de praça, um caixote de madeira, um papelão, um cobertor, um saco), além de apresentar um jogo de luz clássico, marcando tradicionalmente as fases em que o drama é dividido, entre o amanhecer, o entardecer e o anoitecer, e os dias que vão e vem, sistematicamente. Dito isto, parece que estamos falando de um simples espetáculo, entretanto, por detrás de toda esta simplicidade, o que vemos é um espetáculo delicado, poético, potente e totalmente arrebatador.

Denise Fraga tem atuação arrebatadora como a mendiga

Denise Fraga tem atuação arrebatadora como a mendiga

“Chorinho” conta a história de uma aposentada de casa de classe média e uma mendiga que se encontram todos os dias em uma praça cercada de grades, em uma grande metrópole. A partir daí vemos um duelo de interpretação de Denise Fraga (em ótima composição como a mendiga) e Claudia Mello (divertida como a aposentada) em um texto extremamente revelador das posições que cada uma delas têm diante da sociedade, da vida, do poder, da liberdade, da solidão, da invisibilidade, da solidariedade, da amizade e da escuta. Dotado de grande inteligência dramatúrgica em um jogo surpreendentemente curioso em relação ao papel de quem é de fato o louco e o são neste mundo, o espetáculo mexe profundamente conosco- com situações beirando o absurdo -, ao mesmo tempo em que nos faz rir de algumas situações patéticas e das tiradas certeiras vividas por elas. “Chorinho” é um espetáculo obrigatório à todos os públicos e necessário ao ser humano.

O espetáculo nos faz pensar profudamente qual é o nosso verdadeiro papel na sociedade

O espetáculo nos faz pensar profudamente em qual é o nosso verdadeiro papel na sociedade


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