Christine

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10 de outubro de 2016

A imprensa marrom, jornalismo que recorre ao sensacionalismo em busca de audiência ou vendagem de notícias, é uma realidade indigesta nos veículos de comunicação mais populares. Para o profissional, principalmente aqueles recém-saídos da faculdade, movidos pelo desejo de “mudar o mundo” por meio da informação idônea, está cada vez mais difícil não sucumbir às exigências de instituições jornalísticas que, bem antes do compromisso de informar, priorizam o lucro. Nada mais é do que um comércio que se alimenta da tendência sádica do ser humano ― uma manchete de um acidente, com vítimas desfiguradas, é muito mais consumida do que uma notícia de um ato altruísta, algo que também segue os critérios de noticiabilidade já que bondade, sem interesses, é raridade nos dias de hoje. O filme “Christine”, de Antonio Campos, filho do jornalista Lucas Mendes, lança luz sobre os efeitos prejudiciais da pressão sensacionalista. Ambientado na década de 1970, o longa revive a trajetória de Christine Chubbuck, repórter de uma emissora de TV norte-americana que, no auge da paranoia, suicidou-se ao vivo durante o telejornal.

Fazer jornalismo não é fácil e o filme faz questão de mostrar as tribulações do meio. Christine (Rebecca Hall), aos 29 anos, profissional de comunicação em uma época de turbulências políticas nos EUA, como o escândalo Watergate, é uma repórter perfeccionista que tem como objetivo a produção de notícias construtivas, baseadas em investigações que geram um contexto de interesse público. No entanto, esse modo de atuação colidirá com prioridades da emissora na qual ela trabalha, em Sarasota, na Flórida. Diante da queda da audiência, o diretor Michael (Tracy Letts) ordena que a pauta seja composta por conteúdo sensacionalista, de acordo com a máxima if it bleeds, it leads;  ou seja, quanto mais sangue na matéria, mais rentável ela é.

O filme de Campos, também exibido no Festival de Sundance, analisa o caso, baseado em fatos reais, e chega à conclusão de que o método sensacionalista, grande responsável pela “cultura do pânico”, pode ter consequências desastrosas, potencializadas em mentes vulneráveis. Christine, molestada não apenas pela obsessão por um jornalismo sério, tem visíveis distúrbios psicológicos, problemas que a impedem, por exemplo, de engrenar um relacionamento afetivo. Ainda que seja um filme de época, com um aparato técnico datado diante dos avanços e da pluralidade da tecnologia, “Christine” seria uma boa atividade extracurricular para estudantes de Comunicação, já que expõe ocasiões que ressonam na atualidade. Boa parte das peculiaridades dos bastidores jornalísticos tem lugar garantido no filme, como a concorrência entre os colegas, a apuração de notícias e o descaso para com a qualidade da informação por parte dos verdadeiros detentores do poder; no caso, Bob Andersen (John Cullum), o milionário dono da emissora. O maior valor de “Christine” está em seu potencial de gerar debate sobre o noticiário chocante e suas ramificações.

Festival do Rio 2016

Panorama do Cinema Mundial

Christine, Estados Unidos, 2016, 123’

Antonio Campos

Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Maria Dizzia, Tracy Letts, J. Smith-Cameron.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4