Cidadão Bogdanovich

Mítico diretor de 'Lua de papel' promete encantar o Festival de Veneza nesta quinta com .doc sobre Buster Keaton e com o resgate do filme inacabado de Orson Welles: 'The other side of the wind'

por

29 de agosto de 2018

O diretor Peter Bogdanovich tem dois filmes em Veneza

O diretor Peter Bogdanovich tem dois filmes em Veneza: cinefilia na veia

Rodrigo Fonseca
Amanhã vai ser dia de festa para quem estiver pelo Lido, no fervo do Festival de Veneza: vai ter Peter Bogdanovich em dose dupla, realizando um par de feitos cinéfilos de matar em inveja  quem é memorialista. O mítico diretor de “Lua de papel” (1973) e “A última sessão de cinema” (1971) assina a direção do documentário “The great Buster: A celebration” (sobre o legado do comediante Buster Keaton) e aparece como ator em “The other side of the wind”, filme inacabado de seu amigo Orson Welles (1915-1985), realizador de “Cidadão Kane” (1941). Welles começou a rodar nos anos 1970 um longa sobre um cineasta maldito (papel dado a John Huston) que regressa de um exílio na Europa a fim de devassar Hollywood com um trabalho inédito.
“A Netflix entrou no projeto e deve lança-lo até o fim do ano. Faltava dinheiro para termina-lo, mas conseguimos fechar as operações”, contou Bogdanovich ao Almanaque Virtual, há cerca de dois meses. “A Netflix foi essencial pra gente. Estou trabalhando com Frank Marshall (diretor de ‘Aracnofonia’ e produtor de vários filmes de Spielberg) nessa empreitada, pois nós dois atuamos sob o comando de Welles. É engraçado ver que eu estou bem em cena, pois ele é um grande diretor de atores. Surpresa vai ser quando as pessoas conferirem o desempenho de John Huston (um os maiores cineastas dos EUA, famoso por clássicos como ‘Relíquia macabra’ e ‘O Tesouro de Sierra Madre’) como protagonista. Welles teve brigas com os produtores dos anos 1970. Só montou 40% do filme. O assustador é que, um dia, durante um almoço em meio às filmagens, ele me fez prometer que eu terminaria o filme por ele, caso ele morresse. Chega a ser bonito remexer no que ele fez”.

Peter (de óculos) entre Huston e Welles

Peter (de óculos) entre Huston e Welles no set de “The other side of the wind”, nos anos 70

Sobre Buster Keaton (1895-1966), ele fala da falta de mais reconhecimento para a herança audiovisual que o ator de comédias como “A general” nos deixou. “Garanto que será um filme divertido, pois ele revê alguns dos melhores momentos de Keaton não apenas como comediante, mas como realizador. Keaton foi um grande diretor. Esse meu documentário é uma busca por esse diretor em ação”, conta Bogdanovich.

Em "The Great Buster - A Celebration", Bogdanovich resgata memorias de um dos maiores comediantes do cinema

Em “The Great Buster – A Celebration”, Bogdanovich resgata memorias de um dos maiores comediantes do cinema

Sob rugidos hollywoodianos, a briga pelos prêmios venezianos começou nesta quarta, com a projeção de “O primeiro homem”, novo exercício da virtuosidade técnica de Damien Chazelle (“La La Land – Cantando estações”, “Whiplash”), agora concentrado em fatos reais. O novo longa-metragem reconstitui a visita de Neil Armstrong (1930-2012) à Lua, em 1969. Numa varredura pelos sites e jornais, percebe-se que a imprensa de toda a Europa se rendeu ao roteiro do filme e ao desempenho de Ryan Gosling, como protagonista.

Ficou assim o pacote dos concorrentes da seleção principal de Veneza

"The Sisters Brothers": um bangue-bangue à francesa

“The Sisters Brothers”: um bangue-bangue à francesa

COMPETIÇÃO PELO LEÃO DE OURO
First Man (Damien Chazelle)
The Mountain (Rick Alverson)
Non-Fiction (Olivier Assayas)
The Sisters Brothers (Jacques Audiard)
The Ballad of Buster Scruggs (Ethan Coen, Joel Coen)
Vox Lux (Brady Corbet)
Roma (Alfonso Cuarón)
22 July (Paul Greengrass)
Suspiria (Luca Guadagnino)
Werk ohne autor (Florian Henckel von Donnersmarck)
The Nightingale (Jennifer Kent)
The Favourite (Yorgos Lanthimos)
Peterloo (Mike Leigh)
Capri-revolution (Mario Martone)
What You Gonna Do When the World’s On Fire? (Roberto Minervini)
Sunset (László Nemes)
Frères ennemis (David Oeloffen)
Where Life is Born (Carlos Reygadas)
At Eternity’s Gate (Julian Schnabel)
Acusada (Gonzalo Tobal)
Killing (Shinya Tsukamoto)

Dessa lista, fora “First man” (título original do longa de Chazelle), o Lido já conferiu o drama psiquiátrico “The mountain”, de Rick Alverson, diretor americano de Richmond, Virginia, conhecido pelo filme “Entertainment”, que saiu premiado de Locarno, em 2015. Jeff Goldblum (de “A mosca”) encarna um médico que, nos EUA dos anos 1950, fazia da lobotomia uma promessa de salvação para os doentes. Tye Sheridan, a quem Veneza premiou em 2013, com o Troféu Marcello Mastroianni, por seu desempenho em “Joe”, faz o ajudante involuntário do cirurgião.

Nesta quinta, a Netflix, cheia de si pelo resgate histórico de Welles, vai bombar também com o melodrama em preto & branco “Roma”, sobre as agruras sociais e afetivas de uma família de classe média no México dos anos 1970. Cercada de curiosidade em todos os cantos da web, por conta da potência visual de sua fotografia, a produção traz o oscarizado cineasta mexicano Alfonso Cuarón (“Gravidade”) de volta à ativa, após um hiato de cinco anos, falando sobre sua pátria natal. Seu conterrâneo Carlos Reygadas (“Post Tenebras Lux”) também está no páreo, em um experimento no qual também atua, chamado “Where life is born”.