Cine PE 2017: “A gente conseguiu a proeza de desagradar a todo mundo”, fala o produtor de ‘Real’

O 21º Cine PE acontece até o dia 03 de julho.

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28 de junho de 2017

Na manhã desta quarta-feira, dia 28, o produtor Ricardo Fadel Rihan de “Real – O Plano por Trás da História” (2017) recebeu a imprensa para entrevista coletiva no Hotel Transamérica, em Boa Viagem, Recife. Rihan está na cidade representando o longa que é um dos selecionados da Mostra Hors Concours da 21a edição do Cine PE.

Ricardo Fadel Rihan e Sandra Bertini, diretora do Cine PE (Foto: Divulgação / Crédito: Lana Pinho).

Ricardo Fadel Rihan e Sandra Bertini, diretora do Cine PE (Foto: Divulgação / Crédito: Lana Pinho).

Durante a coletiva, o produtor falou do processo de produção do longa, iniciado em 2012, bem antes do cenário de polarização política e ideológica do país. “Já produzi outros filmes, mas o ‘Real’, em particular, foi uma saga porque não teve uma etapa do processo que fosse tranquila”, afirmou Rihan.

O produtor contou ainda que um dos desafios enfrentados foi a censura prévia a biografias, pois, à época nenhuma personalidade pública podia ser retratada sem autorização, o que, segundo ele, o obrigou a procurar Gustavo Franco para que ele assinasse um contrato de cessão de imagens. “Ocorreram coisas que não vou falar para a imprensa, mas tive dificuldades enormes relacionadas a essa questão. Felizmente, Carmem Lúcia (atual presidente do STF) julgou o caso João Gilberto e, a partir daí, acabou a censura prévia a biografias e não precisei mais da autorização de ninguém”, disse Ricardo Rihan, que comentou também os diversos questionamentos da ANCINE, inclusive artísticos.

“Naquele momento (2012), muitas vezes achava que a gente vivia numa ditadura consentida porque qualquer coisa que desagradasse aos donos do poder enfrentava barreiras intransponíveis. Então, em 2012, em outubro, Dilma era tida como reeleita em segundo turno de forma inquestionável. O PT tinha o poder absoluto do país, não havia oposição. Começava aquele momento de remar contra a maré. Algumas pessoas chegavam e falavam para mim: ‘Ah, esse filme é chapa branca’. Mas como um filme que contraria os interesses de quem está no poder pode ser chamado de chapa branca? O cenário era tão absurdo que os conceitos estão todos invertidos. Então, se fizer um filme sobre ‘Dilma, a Mãe do Brasil’, esse não vai ser chapa branca. Fizeram um filme sobre o Lula enquanto ele estava sentado na cadeira de presidente, o que me parecia uma coisa assim meio cubana, chavista, aquela coisa da Coreia do Norte, onde você fica louvando o cara que tá no poder ao invés de questioná-lo e exigir que ele cumpra as suas obrigações com a população”, completou o produtor.

No olho do furacão ideológico, o longa desagradou a algumas pessoas, inclusive aos retratados, como disse Ricardo Rihan. “A gente conseguiu a proeza de desagradar a todo mundo”, contou arrancando risos dos jornalistas. “O Fernando Henrique (Cardoso) me apoiou. Sempre que pedi para entrevista-lo, me atendeu. Por outro lado, nunca me pediu para ler, nunca me perguntou sobre o filme. Quando assistiu, não gostou”, disse Rihan.

Se o ex-presidente Fernando Henrique não gostou, o ex-ministro José Serra, teve uma reação ainda mais forte. “O Serra odiou”, afirmou o produtor, contando que o convidou para assistir ao filme no período em que ele era Ministro das Relações Exteriores. “A primeira reação dele foi assim: ‘esse ator é muito feio!’. A segunda foi, ‘eu nunca usei terno listrado!’. E ele não poderia gostar! Porque ele é retratado como um desenvolvimentista, e foram esses caras quem destruíram o país”, afirmou o produtor, destacando, ainda, o antagonismo de ideais na equipe do Plano Real.

Afirmando não ter produzido um filme para agradar aos retratados, ressaltando que Gustavo Franco encarou o longa como uma fábula, mesmo não sendo o que ele esperava assistir na tela grande, Ricardo Fadel Rahin disse que “Real – O Plano por Trás da História” é um thriller político de debate que bebe na fonte do cinema americano. Dentre suas principais referências, está o telefilme da HBO “Grande Demais Para Quebrar” (Too Big to Fail – 2011), de Curtis Hanson, sobre a crise econômica de 2008. No entanto, ressaltou que o diretor Rodrigo Bittencourt afirma não ter seguido nenhuma referência, pois se trata de uma história brasileira.

O 21º Cine PE acontece até o dia 03 de julho e tem curadoria do ator, diretor e produtor de cinema Bruno Torres, da escritora e professora de cinema Amanda Mansur e do documentarista e professor do curso de Cinema e Audiovisual da UFPB Matheus Andrade.