Cine PE 2017: balanço geral do evento

“Sem censura”, pede a diretora do festival, Sandra Bertini.

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05 de julho de 2017

A 21a edição do Cine PE chegou ao fim na noite da última segunda-feira, dia 03, tendo superação como sobrenome. Envolto em polêmicas desde o primeiro anúncio da seleção oficial por causa da presença de “Real – O Plano Por Trás da História” (2017) e “O Jardim das Aflições” (2017), que ocasionou a retirada de sete curtas-metragens por discordâncias ideológicas de seus respectivos realizadores, o evento enfrentou outros percalços, como a ausência os homenageados deste ano, Rodrigo Santoro e Cássia Kis.

Os vencedores da 21a edição do Cine PE (Foto: Divulgação / Crédito: Lana Pinho).

Os vencedores da 21a edição do Cine PE (Foto: Divulgação / Crédito: Lana Pinho).

Mas o real problema desta edição foi a seleção de títulos da Mostra Competitiva de Longas-Metragens, pois nenhum dos longas atinge um padrão mínimo de qualidade, o que causou as mais variadas reações da plateia do tradicional Cinema São Luiz, na região central de Recife, gerando questionamentos da imprensa à diretora do evento, Sandra Bertini. Tais questionamentos não se restringiram à seleção de longas que já passaram pelos cinemas e pela televisão, como “O Crime da Gávea” (2017) e “Toro” (2015) – “O Jardim das Aflições” não pode ser enquadrado neste quesito porque seria inédito, caso a data original do evento tivesse sido mantida –, mas, sobretudo, em relação ao média-metragem “O Caso de Dionísio Díaz” (2017), de Chico Amorim e Fabiana Karla.

Inédito no Brasil, o filme foi duramente criticado pela imprensa, que questionou Amorim durante a coletiva realizada na última segunda-feira, dia 03. Na defensiva, o diretor rebateu os jornalistas: “Por que só pode ser filme bom para passar? Por que não pode ter filme ruim? É uma pergunta que eu faço. Por que tem a obrigatoriedade de ser um filme maravilhoso para passar? Eu fiz cinema, eu fiz um filme e quero que as pessoas vejam”, disse Amorim, que logo depois assumiu não gostar do próprio filme.

“Quando houve o processo seletivo e os longas foram selecionados, ‘O Caso Dionísio Díaz’ estava na seleção de Hors Concours. Quando houve a retirada dos filmes, eu decidi e liguei para o Chico, ou para Fabiana, não me lembro, e os convidei para a Mostra Competitiva. Então, neste momento, eu resguardo a curadoria e assumo a responsabilidade. Não foi a curadoria de Bruno (Torres), nem de Amanda (Mansur) e nem de Matheus Andrade”, disse Sandra Bertini, explicando que era mais fácil utilizar o material pronto, já legendado, ao invés de selecionar outro título no período de reformatação do evento.

Ator, diretor e produtor de cinema, Bruno Torres também conversou com a imprensa sobre a seleção final de títulos da 21a edição do Cine PE. “O Brasil não tem uma safra de filmes inéditos todo ano com filmes espetaculares. Não é assim. Isso não acontece no nosso país”, disse Torres.

Se a seleção de longas pode ser considerada fraca, não se pode dizer o mesmo dos curtas, sobretudo da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Nacionais (Mostra Curta Brasil). Dentre os selecionados, os destaques são “Luiza” (2017), “Aqueles Anos em Dezembro” (2016), “Dia dos Namorados” (2017), “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”, “O Ex-Mágico” (2017) e “Diamante, o Bailarina” (2017) – ressaltando que “O Ex-Mágico” venceu o prêmio da crítica e “Diamante, o Bailarina” os da Mostra Competitiva e do Canal Brasil.

 

“Sem Censura”, pede Sandra Bertini

 

Durante a coletiva, Sandra Bertini voltou a comentar a polêmica do festival. “Todas as emoções que senti não foram nem tanto dos realizadores”, falou Bertini, ressaltando que o evento foi boicotado, especialmente pela imprensa.

“Mas a parte que me pegou mesmo, e aí vou ser bem transparente, foi a parte do jornalismo porque eu sei que o jornalista tem que estar onde a notícia está. O jornalista tem que cobrir. Se não por iniciativa própria, pelo menos em respeito ao veículo em que ele trabalha. Então o jornalista deixar de cobrir um evento que cobre há 21 anos, eu acho isso muito trágico, muito ruim porque a função do jornalista é essa, né, gente? É cobrir independente do que seja. Ele pode criticar porque ele tem o papel, a caneta, a internet… ele vai lá e critica, dá o ponto de vista dele. Acho que é isso que ele tem que fazer. Eu acho que é isso que o jornalismo nas universidades deve ensinar, não sei”, criticou a diretora.

Ainda durante a conversa, Bertini agradeceu aos jornalistas que aceitaram o convite para cobrir o evento e comentou a existência de um documento assinado por alguns jornalistas, e pessoas que atuam na área, em apoio aos cineastas que retiraram seus filmes.

“Tentaram até fazer um documento da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), mas outras pessoas também livre e espontaneamente, porque a democracia permite isso, fizeram um documento extra Abraccine. E essas pessoas que realmente assinaram, que todos os anos estavam aqui, não puderam estar esse ano não porque a direção do evento não os quer. É simplesmente porque ao assinar este documento, eles demonstraram que estavam insatisfeitos e não queriam cobrir. Então, por essa razão, não foram convidados. Mas eu gostaria, através dos que estão aqui comigo nessa edição de resistência, no festival de resistência, dizer que cheguem aos ouvidos destes que eles serão convidados no ano que vem porque é esse o meu trabalho. Eu não vou censurar ninguém. Todos que sempre estiveram no nosso festival serão convidados e terão direito de dizer sim ou de negar mais uma vez”, afirmou Bertini, que encerrou a entrevista com uma folha de papel em mãos com “# sem censura”.

 

Confira os vencedores do Cine PE 2017:

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS:

Melhor Filme: “O Jardim das Aflições”.

Melhor Direção: Edu Felistoque, “Toro”.

Melhor Roteiro: Edu Felistoque e Julio Meloni, “Toro”.

Melhor Fotografia: Alex Lopes, João Atala, Raul Salas, Natalia Sahlit, Inti Briones, “O Crime da Gávea”.

Melhor Montagem: Daniel Aragão e Matheus Bazzo, “O Jardim das Aflições”.

Melhor edição de som: Guilherme Picolo e Lucas Costabilre, “Toro”.

Melhor Trilha Sonora: Nancys Rubias , She Devils , Kumbia Queers, “Los Leones”.

Melhor Direção de Arte: Lucia Quental, “O Crime da Gávea”.

Melhor Ator Coadjuvante: Rodrigo Lampi, “Toro”.

Melhor Atriz Coadjuvante: Aline Fanju, “O Crime da Gávea”.

Melhor Ator: Mário Bortolotto, “Borrasca”.

Melhor Atriz: Simone Spoladore, “O Crime da Gávea”.

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS NACIONAIS:

Melhor Filme: “Diamante, o Bailarina”.

Menção Honrosa: “Luíza”.

Melhor Direção: Day Rodrigues e Lucas Ogasawara,”Mulheres Negras: Projetos de Mundo”.

Melhor Roteiro: Olímpio Costa e Mauricio Nunes, “O Ex-Mágico”.

Melhor Fotografia: Pedro Maffei, “Retratos da Alma”.

Melhor Montagem: Márcio Miranda Peres, “Quando os Dias Eram Assim”.

Melhor Edição de Som: Jefferson Mandu, “O Ex-Mágico”.

Melhor Trilha Sonora: Cláudio Nascimento, “O Ex-Mágico”

Melhor Direção de Arte: Daniela Aldrovandi , “Diamante, o Bailarina”.

Melhor Ator: Eucir de Souza, “Sal”.

Melhor Atriz: Helena Albergaria, “O Tronco”.

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS PERNAMBUCANOS:

Melhor Filme: “Los Tomates de Carmelo”.

Melhor Direção: Danilo Baracho, “Los Tomates de Carmelo”.

Melhor Roteiro: Marcelo Cavalcante, “Marina e o Passarinho Perdido”.

Melhor Fotografia: Danilo Baracho, “Los Tomates de Carmelo”.

Melhor Montagem: Marcus Paiva, “Soberanos da Resistência”.

Melhor Edição de Som: Sérgio Kyrilos, “Marina e o Passarinho Perdido”.

Melhor Trilha Sonora: Carlos Ferrera, “Soberanos da Resistência”.

Melhor Direção de Arte: Felipe Soares, “Autofagia”.

Melhor Ator: Emanuel David D’Lucard, Autofagia”.

Melhor Atriz: Brenda Lígia, “Aqui Jaz”.

JÚRI POPULAR:

Melhor Longa-Metragem: “O Jardim das Aflições”.

Melhor Curta-Metragem Nacional: “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”.

Melhor Curta-Metragem Pernambucano: “Autofagia”.

PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS:

“Diamante, o Bailarina”.

PRÊMIO DA CRÍTICA:

Melhor Longa-Metragem: “Los Leones”.

Melhor Curta-Metragem Nacional: “O Ex-Mágico”.

Melhor Curta-Metragem Pernambucano: “Entre Andares”.