Cine PE 2017: “É uma atitude hostil e de censura, mas agora que acho que isso tudo faz parte da história do filme”, diz Josias Teófilo

A 21a edição do Cine PE acontece até o dia 03 de julho.

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29 de junho de 2017

Na manhã desta quinta-feira, dia 29, Josias Teófilo conversou com alguns jornalistas no Hotel Transamérica, em Boa Viagem, Recife, sobre seu longa-metragem, “O Jardim das Aflições” (2017). Um dos concorrentes ao Troféu Calunga na 21a edição do Cine PE, o documentário proporcionou ao seu idealizador momentos de glória e ovação durante sua projeção no Cinema São Luiz na noite chuvosa da última quarta-feira, dia 28, com casa lotada.

Josias Teófilo e parte da equipe do longa no palco do Cinema São Luiz.

Josias Teófilo e parte da equipe do longa no palco do Cinema São Luiz.

Num clima mais informal, o cineasta contou como surgiu a ideia de levar para a tela grande a trajetória de um homem polêmico e sem papas na língua, como o filósofo. “A ideia surgiu numa conversa que tive com Wagner Carelli, que foi o jornalista que revelou ele (Olavo) na mídia, que fez a Revista Bravo, e o convidou para colaborar na Revista Bravo. Então, inicialmente eu tive só a ideia e falei para Wagner. Ainda era um curta, a ideia de um curta, e ele falou: ‘não, essa ideia é genial e tem que ser um longa’. E aí nós fizemos”, contou o cineasta.

“O Jardim das Aflições” é um documentário sobre um ex-comunista e atual conservador que chega às telas num momento delicado em que o país vive uma polarização política e ideológica. Questionado se havia sentido um “frio na barriga” ao desenvolver este projeto, Teófilo afirmou que sim e que isto foi “fundamental”.

“De fato, estou vivendo com muitas hostilidades de várias partes, inclusive de gente da direita. Tem críticos, gente muito hostil a esse filme. Você sabe que Olavo é odiado em parte também pela direita, né? Inclusive, o pessoal da direita foi até mais agressivo, sabe? Na internet, ao menos. Teve muita incompreensão”, complementou o cineasta, afirmando que o público tem adorado o filme e que, por isso, não vê o público polarizado: “Vejo uma minoria de gente muito apegada ideologicamente, inclusive da direita. Gente do MBL (Movimento Brasil Livre) que fica fingindo que já não existe. Então, não sei se a palavra é bem polarização”.

Durante o bate-papo, Josias Teófilo também explicou a utilização de cenas de “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won – 1962), que tem John Wayne em seu elenco, às quais índios são assassinados no velho-oeste americano. Tais cenas são inseridas no momento em que Olavo de Carvalho fala sobre a lealdade como um dos alicerces deste gênero cinematográfico bastante popular no período clássico de Hollywood, o que gera questionamentos, uma vez que a escolha por esta cena específica não ilustra o conceito de lealdade.

“A lealdade realmente não está nessa parte. A relação não é da cena com a lealdade. É uma cena de western”, disse Teófilo, explicando que as cenas estão ali para ilustrar o faroeste em si. “Eu achei aquela cena visualmente muito boa, mas não tem relação com a lealdade”, complementou o diretor.

No olho do furacão ideológico, sobretudo após a retirada de sete curtas da programação do Cine PE por questões ideológicas de seus realizadores, que não concordaram com a seleção de “O Jardim das Aflições” nem de “Real – O Plano Por Trás da História” (2017), de Rodrigo Bittencourt, Josias Teófilo encara o episódio como parte da história de seu filme e se diz disposto ao diálogo.

“Eu encarei como uma brutalidade tremenda. É uma atitude hostil e de censura, mas agora que acho que isso tudo faz parte da história do filme. Isso tudo foi importante para o filme. E estou disposto ao diálogo com essas pessoas. Quero que elas vejam o meu filme, quero ver os filmes delas, quero debater a partir do que são os filmes, não a partir de supostas posições políticas. Até porque não existe cinema de direita, não existe obra de arte de direita. Se é de direita ou de esquerda, é uma peça retórica. Não é uma peça poética”, afirmou o cineasta que acredita no aumento de público nas salas de exibição, principalmente devido à repercussão do Cine PE.