Cineasta Gabriela Amaral Almeida analisa “Roma” da Netflix

"Roma" de Alfonso Cuarón, lançado simultaneamente na Netflix e em circuito restrito nos cinemas, ganha considerações da cineasta Gabriela Amaral Almeida, com foco especial na protagonista Cleo e sua conjuntura narrativa

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17 de dezembro de 2018

Essa imagem logo abaixo à la “Estátua!” dentro do filme “Roma” de Alfonso Cuarón não foi escolhida à toa. A cineasta Gabriela Amaral Almeida, diretora de “Estátua!” e muitos outros filmes de sucesso, tem muito a falar sobre o novo destaque da #Netflix “Roma”, que também estreou em circuito restrito nos cinemas desde o dia 14 de dezembro.

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E Gabriela tem muito a dizer não apenas através de seus filmes, como o já citado curta-metragem “Estátua” de Gabriela Amaral Almeida, que também é uma incursão 100% crítica e com um pezinho no fantástico sobre a relação hieráquica entre a empregada/babá (vivida pela genial Maeve Jinkings) e a criança filha da patroa…inclusive em detrimento de sua própria prole (vide imagem abaixo do filme “Estátua!” contraposta com “Roma”). A diretora também possui muito a dizer sobre o filme “Roma” numa análise textual após assistir a esta obra arrebatadora, que já levanta questões e reflexões bastante simbólicas para a realidade e o cinema contemporâneo.

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Confira, agora, algumas considerações da cineasta Gabriela Amaral Almeida sobre “Roma” de Alfonso Cuarón, disponível na #Netflix, numa perspectiva ao mesmo tempo intimista e atravessada por sua ótica profissional e experiência na criação narrativa de grandes protagonistas mulheres em sua filmografia que metaforiza os horrores sociais com o cinema de gênero (*Vide minibio e links para entrevista com a diretora logo abaixo do texto).

Gabriela Amaral Almeida. Fonte: Divulgação

Gabriela Amaral Almeida. Fonte: Divulgação

Aviso: Fujam se não assistiram ao filme ainda!

Onde queres revólver sou coqueiro
(impressões ligeiras sobre Roma):

– a empregada doméstica Cleo me remeteu imediatamente à Macabéa (A Hora da Estrela/ Clarice Lispector): produto da crueza social/política/econômica, Macabéa jamais nos pede identificação emocional direta. Pelo contrário: vê-la em situações degradantes, sabendo-a destituída de grandes sonhos e ambições, é insuportável. Cleo é também Macabéa.

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– não é possível amar Cleo na chave clássica da dramaturgia por identificação (com o personagem). Só é possível amar Cleo por horror à estrutura (trágica) que a engolfa. Há distanciamento, portanto. Cuarón nos dá a ver antes a engrenagem – sólida como a arquitetura da casa que é cenário principal -, essa engrenagem que tritura o humano e reduz indivíduos a funções (a mãe; a empregada; os filho; o patrão). Nessa lógica, o dinheiro é algo recorrente nas cenas: o pai que não manda mais dinheiro; Cleo pagando a torta; a mãe anunciando que vai buscar um novo emprego; a perda dos móveis; a compra de um carro – são marcadores determinantes na estrutura dramática. O oráculo está morto; aqui, prevalece O Capital.

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– assistir à Roma foi como ver uma neo-tragédia onde os Deuses são essa super-estrutura econômico-social bizarra; os heróis são destituídos de grandes paixões (Macabéa, Cleo); e o destino está sacramentado pelo dinheiro. Enquanto houver dinheiro (e haverá) todos se sentam no sofá a espera de seus batidos de chocolate. Só é possível mover qualquer estrutura com dinheiro – os deuses, lembremos, estão todos mortos. E isso é de uma crueza sufocante.

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– onde foi parar o amor? essas mulheres não amam. não há sexo. não há carnalidade. não há desejo. uma é traída pelo marido (a patroa); a outra, pelo namorado, que vai de gracioso a violento com o mesmo instrumento (uma vara – a sua virilidade – manipulada primeiro para fazer graça, ele treina lutas marciais; depois, para fazer ameaça – a Cleo).

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– onde está a pulsão de vida de Cleo? seus sonhos? o que ela deseja (segundo Syd Field). No hay desejo. No hay sueños. O Capital esmagou tudo. Como Macabéa e sua dieta de cachorro-quente, talvez sobrem a Cleo os tamales (de que fala). O filme não restitui a ordem para o público culpado-e-burguês: antes a cimenta, impedindo qualquer escapatória. A crueldade está na desdramatização de tudo. Cleo seguirá presa à ratoeira. A patroa, à mercê dos cuidados de um próximo marido. As crianças, a espera de serem servidas. É uma ratoeira e ninguém escapa.

Por: Gabriela Amaral Almeida

Editoria: Filippo Pitanga

*A cineasta Gabriela Amaral Almeida tem longa filmografia e experimentações com o cinema de terror e de horror psicológico como os recentes longas-metragens multipremiados: “A Sombra do Pai” (ainda inédito no circuito comercial) e “O Animal Cordial”; além de curtas-metragens como “A Mão que Afaga” e “Estátua!”, e parcerias com outros cineastas como os roteiros de “Quando Eu Era Vivo” dirigido por Marco Dutra e “Vaca Profana” de René Guerra.

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Link de entrevista exclusiva do Almanaquista Filippo Pitanga com Gabriela Amaral Almeida:

http://almanaquevirtual.com.br/entrevista-com-gabriela-amaral-almeida-sobre-a-sombra-do-pai/

Entrevista exclusiva com o ator Julio Machado sobre “A Sombra do Pai” de Gabriela Amaral Almeida:

http://almanaquevirtual.com.br/entrevista-com-julio-machado-sobre-a-sombra-do-pai/

Crítica de “O Animal Cordial” de Gabriela Amaral Almeida:

http://almanaquevirtual.com.br/o-animal-cordial/

Debate com Gabriela Amaral Almeida, elenco e equipe sobre “O Animal Cordial” durante o Festival do Rio 2017:

http://almanaquevirtual.com.br/festival-do-rio-2017-debate-sobre-o-animal-cordial/