Cineastas cancelados ou censurados?

Como analisar uma obra de autoria que tenha sido cancelada?

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16 de fevereiro de 2021

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J. K. Rowling, Woody, Bertolucci, Polanski… O que eles têm em comum? Todos já foram cancelados. E não estou falando aqui sobre mérito ou causa, e sim consequência. Queira você concorde ou não com as razões que os cancelaram, ou questionem os fundamentos, o efeito é o mesmo. Muita gente passou a boicotar (questão de foro íntimo) ou até mesmo censurar suas obras (coibir terceiros de seu direito de escolha)…

Aí algumas pessoas me dizem: “Tem que separar o autor da obra, não é?”…

Mas eu também não acredito que dê pra separar o autor da obra não. Na verdade, a minha resposta é um pouco mais complexa do que isso…

Nao acredito em separar autor da obra não.

Porém, acredito que autores, com quem eu não concordaria em nada, já conseguiram fazer auto-crítica e transpor isso para novas estéticas. É um lugar ímpar: O de conseguir criar linguagem de um olhar opositivo a realidades com que não estamos acostumados a lidar… justamente por discordar.

E, uma vez feita a obra, ela pertence ao mundo e passamos a agregar significados. Exemplos mis… Um que se encaixa nisso recentemente é J. K. Rowling e seus comentários transfóbicos. Isso não faz de Harry Potter uma saga transfóbica. Muito pelo contrário, ao longo dos anos foi uma das sagas mais abraçadas pela sigla LGBTQIA+, que vê na saga uma emancipação com que se identificaram em auto-aceitação. Agora, a Rowling não pode simplesmente voltar atrás em relação às formas como sua obra foi reapropriada pelos fãs, entende? A obra pertence ao mundo.

Não necessariamente se trata de separar o autor da obra, mas saber analisar com crítica e poder reparador da arte o que pertence à autoria e o que passa a pertencer ao mundo. Quais ferramentas são oferecidas pra reocupar a obra e nos reapropriarmos dela.

Uma vez reapropriada, ela pode servir ao mundo, tanto quanto melhor. Às vezes serve até pra combater aquilo pelo que seu criador é acusado (justa ou injustamente)…

A gente lê Heidegger até hoje e ele apoiou o Nazismo. Mas seus livros falavam sobre emancipação da mente e do espírito.
Ele salvou livros de Nietzsche da interpretação equivocada pelo próprio Nazismo que tentou se apropriar do conceito se super-homem equivocadamente pro conceito de raça ariana.

A mesma coisa Sócrates e Platão, eles defendiam a liberdade da mente, mas apoiaram e se utilizaram de escravos no sistema grego. Eles não entendiam melhor do que isso porque a forma como viveram suas vidas eram frutos do meioIsso deve ser julgado e reparado, sim. Mas as obras possuem critérios próprios de análise. Alguns se confundem com os critérios que julgam o autor, sim, aumentam nosso nível de exigência pela obra, mas não resume a análise como um todo.

Justamente por tudo isso que não estamos separando o autor da obra. Estamos debatendo até os dias de hoje o quanto eles erraram até agora, então, isso demonstra o quanto levamos sim em conta, e não devemos deixar de levar. Ninguém fala da obra sem falar dos erros de seus autores. Fica uma grande marca. E por isso exigimos ainda mais da obra, pois vaza sim. E justamente por isso elas podem ser reapropriadas.

O ato de a sigla LGBTQ ter abraçado Harry Potter ainda mais depois das declarações de Rowling foram uma reação à transfobia. A análise ferrenha e ressignificação só foram possíveis devido à força com que foram reanalisadas justamente por causa da transfobia. Nós inventamos novos critérios de análise pra entender melhor a obra depois que ela é maculada pelos atos de seus autores. E às vezes a reapropriação dá certo, noutras não. Vou te dar um exemplo com uma expressão que era negativa e persecutória e virou filosofia. A palavra “Queer” era uma ofensa. Aí Judith Butler nomeou estudos de gênero e sexualidade como teoria queer. Ela ressignificou uma expressão de perseguição pra uma bandeira identitária. Similar ao que aconteceu com as mulheres que se reapropriaram de palavras como vadia, bandida etc em movimentos feministas. Tipo Pabllo e Pocah: “Ai como eu tô bandida”.

A palavra foi ressignificada justamente pelo mal que ela gerava para purgar e reparar seus danos. Outras pessoas agregaram olhar. Essa é a questão! O olhar de terceiros provocados pelo malefício original que agregaram novos valores. Outro exemplo é Hitchcock na década de 50 quando era tido como diretor escapista e comercial por todo o meio e Truffaut se debruçou e analisou a obra dele sob o enfoque da teoria do autor. Isso não quer dizer que a intenção do autor não continuasse contendo uma pegada comercial, mas Truffaut agregou olhares extras que deram mais camadas, inclusive com olhar opositivo à intenção comercial que CONTINUOU a existir ali dentro das obras. (E não estamos falando sobre um olhar moderno sobre Hitchcock, que traz até muitas mais atualizações e problematizações).