Cineastas do Fantástico: Relic de Natalie Erika James

Longa de estreia da promissora cineasta já demonstra futuro com destaque no cinema de gênero

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24 de agosto de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga

Quem é Natalie Erika James?

Hoje faremos algo pouco habitual nesta coluna onde catalogamos as diretoras de cinema que trabalham com o gênero fantástico em geral, com a fantasia, o sci-fi e o terror, e quebraremos mais uma vez a cronologia da linha do tempo que estávamos seguindo com certa razoabilidade. Tudo porque o lançamento de “Relic” (2020), primeiro longa-metragem da promissora cineasta Natalie Erika James tomou este que vos escreve completamente de assalto. Quebraremos a linearidade esta semana, mas na que vem retomaremos a cronologia histórica, não se preocupem.

A diretora Naralie Erika James nasceu nos EUA, mora atualmente na Austrália e possui descendência japonesa. Uma confluência cultural que parece bastante evocada em seu trabalho atual. Não à toa, para além de se filiar ao cinema de gênero e ao terror desde seus curtas-metragens, a corrente a que parece mais se debruçar de fato é a fantasmagoria da transcendência da carne — uma forma de ver a vida e a passagem para a morte de modo muito mais oriental do que ocidental, pois nossa visão no Ocidente ainda se liga por demais à materialidade sobre o espírito.

Neste trabalho recém-lançado em 2020, “Relic”, a diretora reúne um excelente roteiro e condução imagética a um elenco em estado de graça: o rosto bastante conhecido de Emily Mortimer (“A Livraria”, “Um Lugar Chamado Notting Hill”, “Match Point”), a jovem atriz australiana Bella Heathcote (“Demônio de Neon” e “Sombras da Noite”) e a veterana devoradora de cenas Robyn Nevin (de “Matrix Reloaded e Revolutions”). Com uma visão bastante intimista de uma família de mulheres, onde os homens já morreram ou não são nomeados, estas três vão ter de saber lidar com o próprio envelhecimento e superação geracional dos tempos, bem como lutos mal resolvidos.

A partir de um primor estético, a diretora consegue valorizar cada canto escuro da casa da matriarca, inicialmente desaparecida, com um jogo de poucas luzes em tons fechados que quase pintam a solidão da velhice e as sombras da memória. O que de início fazia parecer uma história de fantasmas, a partir do desaparecimento da personagem de Robyn Nevin, que atrai o retorno da filha (Mortimer) e a neta (Heathcote), ocupadas demais com suas próprias escolhas de vidas e trabalhos, vai cambiando para uma estética quase de possessão… Tudo para saber lidar com algo que a sociedade não gosta de admitir nem de encarar: todos iremos morrer um dia. E, se tivermos sorte, e vivermos uma vida feliz e plena, a velhice irá chegar, e aí é que surgem as questões das gerações por vir que não gostam de encarar sua própria finitude.

Esta é a hora de ser extremamente franco com vocês e me colocar em primeira pessoa: Eu mesmo tenho uma relação muito complexa com minha mãe. Minha mãe é minha filha já há algum tempo. Uma filha muito rebelde por sinal, que às vezes dá bastante trabalho. E é muito difícil ser colocado no papel de pai de sua mãe a partir de determinado momento da nossa vida… Vejo aquela mulher gloriosa às vezes aceitar o lugar de uma espécie de filha invertida, uma filha do avesso, e definhar…e qual filho iria querer ver isso?

É raríssimo ver algo tão sensível e delicado, sobre o cuidado e carinho destinados à decrepitude, quanto este filme “Relic” destina à sua família de mulheres — pois a decrepitude ainda é algo muito amaldiçoado na sociedade. A própria casa no filme é muito bem construída para exprimir isso, desde a mise-en-scène dramática à linguagem mais assumida de terror e do estado febril que a trama vai assumindo ao longo da projeção. A casa vai se desdobrando dentro de si mesma, e mostrando que as memórias do passado vão virando sombras a expandir a realidade, vão virando dobras e esquinas e becos sem saída por sob as camadas da realidade que construímos para nós conforme envelhecemos. Como se fosse um avesso da decrepitude e o avesso da casa, o avesso das memórias, ou melhor, a sombra das memórias. Algo que lembra a dimensão paralela do filme “Coraline e o mundo secreto” de 2009 (uma visão obscura de “Alice no país das maravilhas”).

Talvez possa parecer estranho enunciar algo tão melancólico e agridoce na crítica de um filme de terror, o qual reserva sua boa quota de sustos e de imersão macabra conforme a trama se desenvolve. Talvez não nomeemos o suficiente o lirismo que está contido na licença poética com que o terror enxerga nossos tabus e mazelas sociais por outro filtro. Todavia, isso pode justamente ser a parte mais assustadora, porque, por trás da estética de gênero, o substrato dessas histórias refletem que todos iremos morrer um dia. E, como no caso da metáfora de “Relic”, vemos isso espelhado na velhice diária de nossos pais. O que pode ser mal compreendido… Ou abraçado.

Conclusão com spoiler:

Existe determinada cena do filme, de uma poesia extrema, que alude à troca de pele da avó, e que leva as três personagens a deitar de conchinha. E esta é uma das coisas mais ternas que já vi neste sentido. Inclusive, a personagem de Emily Mortimer, enfim, passa a encarar o fato de que ela própria um dia será a avó da família, e necessitará de compreensão. Pois ela também irá precisar de cuidados no futuro. Aquela troca de pele e a aceitação daquela cópia em “carbono 14”, que conta no próprio corpo toda a história da avó, foi uma das mais impressionantes metáforas sobre a aceitação histórica de nossa morte diária que o cinema recente poderia ter gerado, ainda mais em meio a este ano de pandemia mundial.

A boa notícia é que a aclamação recente de “Relic” deu sinal verde para o próximo projeto da diretora revelação Natalie Erika James, que fez uma declaração sobre seu próximo filme: “É um horror folclórico japonês. Muito na vibe de ‘O Homem de Palha’ e ‘O Bebê Rosemary’. É sobre maternidade e sacrifício, literal e figurativamente.”

Aguardaremos ansiosos.

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.

Emily Mortimer and Robyn Nevin appear in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited

Emily Mortimer and Robyn Nevin appear in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter.
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