Cinema Novo

Montagem estupenda que forma um corpo só dos filmes do Cinema Novo como um Leviatã sensorial contado pelos próprios realizadores do movimento

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08 de outubro de 2016

Parabéns a Eryk Rocha por este sensível e colossal estudo debruçado sobre infinitos registros históricos que consegue ressuscitar linguagens e cineastas para deixar suas próprias obras e entrevistas falarem por si.

Só a sensível montagem do filme, casando cenas e temáticas de incontáveis longas cinemanovistas lado a lado, já valeria todos os prêmios. Além de ter a audácia de arriscar uma colagem de frases dos lábios dos próprios cineastas que formaram o movimento, muitos deles já falecidos, e costurar a tudo em uma narrativa plausível e cronologicamente crível.

De Glauber a Leon, de Joaquim Pedro a Nelson Pereira……de Deus e o Diabo a Fuzís, de A Falecida a O Desafio…..As imagens vão sequenciando umas às outras como num balé em perfeita harmonia, deixando a famosa dialética daquele período levantar o debate sensorial para o espectador complementar. Palavras trocadas tanto por cartas quanto por entrevistas daqueles diretores que não apenas dialogavam uns com os outros dentro e fora de suas obras, como se analisavam criticamente e ajudavam uns na montagem/edição ou fotografia dos outros…

E isso se demonstra na tela e no tratamento não apenas dado à decupagem, como também à restauração das imagens e vídeos, além do som original em harmonização com o todo, pois tudo está tão bem integrado que parecem todos os filmes pertencer à fluidez de uma só filmografia, como se o movimento tivesse sido um só corpo de ditetores, uma figura Hobbesiana do Leviatã. Pena que nem todos os filmes que se pretendia exibir no Doc estavam no melhor estado de conservação pelos acervos da Cinemateca brasileira, o que aponta pra urgência de cuidarmos de nosso patrimônio histórico, como bem declarou em entrevistas o próprio diretor Eryk Rocha, que ainda tem um vínculo emocional com tudo isso por ser filho dos míticos Glauber Rocha e Helena Ignez, esta que além de ter contribuído imensamente por si só ao Cinema Novo, depois ainda casou de novo com outro vértice complementar ao movimento, Sganzerla.

Uma aula de História com cenas que isoladamente poderiam não querer dizer tanto de suas histórias individuais, mas que em conjunto, e sentimentos de crítica social, contam toda uma história coletiva de pano de fundo através de personagens reais ou fictícios sobre a Ditadura, a Censura, os grandes Festivais Internacionais, e influências dos grandes cineastas europeus da Nouvelle Vague e Neorrealismo…..

Em relação ao que esses cineastas pensavam do Brasil, da identidade nacional e da luta por seu povo, o documentário é riquíssimo. Mas talvez apenas sobre as dificuldades que eles mesmos sofreram e, mais adentro, as burlas criativas à Censura,  talvez tenha sido o que ficou um pouco em falta na dialética entre eles, com a única exceção das falas de Leon Hirszman, sempre muito consciente politicamente.

O que ficou de fora mesmo foi o lado da contracultura do Cinema Novo, mais notabilizado por Sganzerla e Bressane, pelo que parece que os próprios ainda em vida e as respectivas famílias teriam sempre deixado claro que não gostariam de inserí-los no movimento, já que sempre se consideraram à parte dele…..E também faltaram as diretoras mulheres brasileiras da época da Ditadura, como Teresa Trautman e Helena Solberg, pois o próprio movimento era mais capitaneado por homens que para o período histórico ainda não tinham a preocupação em integrar a paridade de gênero.

 

Festival do Rio 2016

Cinema Novo (idem)

Brasil. 2016. 92 min

De Eryk Rocha

Com depoimentos de arquivo dos diretores do Cinema Novo

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5