Círculo da Transformação em Espelho

Peça tem o formato de um pré-processo "artístico", que é antes do ensaio, que nem chega a acontecer

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26 de outubro de 2017

Círculo da Transformação em Espelho” de Annie Baker, com idealização e tradução de Rafael Teixeira, e direção de Cesar Augusto; segue em temporada no Teatro de Arena do Sesc Copacabana até o dia 29 de novembro. A peça é uma das mais inusitadas em nossa temporada carioca. Uma peça que tem o formato de um pré-processo “artístico”, que é antes do ensaio, que nem chega a acontecer. Durante a apresentação passa um turbilhão de idéias em nossa cabeça. Para conhecedores de uma aula inicial, que se diz teatro, mas que se conecta mais como uma terapia ocupacional ou uma dramaterapia, do que com o teatro em si. Não pelos jogos propostos pela pseudo professora, que na verdade fazem -e muito- parte de uma iniciação básica ao jogo do teatro. Nesse caso a palavra em inglês “play” – que significa jogo no Brasil, e também, entre outros, atuar, fazer o papel, na língua inglesa-, se adequa bem a proposta da suposta professora. A dramaturgia frágil de Annie Baker- na tradução de Rafael Teixeira-, graças a direção esperta de Cesar Augusto, consegue nos manter atentos para onde aqueles encontros semanais poderão nos levar. Ainda que seja a um pequeno lugar, de modestas pretensões. Ficamos durante a peça nos perguntando, a todo o tempo “é só isso mesmo”? Um pretenso curso de teatro, que já é determinado o seu fracasso como aula, pela condução fraquíssima da professora, com o baixíssimo quórum de 3 alunos e seu marido. A dramaturgia deixa imensos clarões em nossa mente, pois levantamos,  sucessivamente, muitas perguntas: “Que curso de teatro é esse”? “Que gente é essa sem talento algum para as artes?” “Pode um texto ser tão banal, por ser tão comum, e não trazer nenhum jogo criativo, instigante, ou teatral”? “Será que não é muita redundância ser um texto tão banal e ao mesmo tempo tão desinteressante, e não dizer quase nada sobre nada”? Na peça, cinco pessoas, moradoras da pequena Shirley (cidade fictícia), frequentam um curso de artes dramáticas em um centro comunitário local. Marty, 55 anos, é a professora, James, 60, seu marido, está entre os alunos; Schultz, 48, é um carpinteiro recém-separado; Theresa, 35, foi atriz em Nova York; e Lauren, 16, sonha em ser uma grande atriz. Tudo isso ao longo de seis semanas.

Círculo 1

Os atores em cena, diante do cenário dos espelhos, que não produzem efeito ao espetáculo. Foto Rodrigo Castro.

Círculo 2

A ideia de associar tudo a círculos, promove a presença de bambolês, também desnecessários, e sem nenhuma função, a não ser, serem redondos, e “girarem” em círculos. Foto Rodrigo Castro.

Assistindo ao espetáculo ficamos com a impressão de que deve ter mais camadas escondidas por detrás disso; ao mesmo tempo em que a dramaturgia pareça não dizer muito, ou as escolhas da autora são muito simplistas, ou seria das personagens? Nos incomodando em saber se existe alguma genialidade, por produzir, textos tão banis. Desde os exercícios propostos nos encontros – que ficam a séculos de distância de Stanislawski, Viola Spolin, wiewpoints -, até os textos produzidos pelos atores enquanto personagens, são todos muito rasos, absolutamente desinteressantes, sem cor. Ainda que possa ser assim na vida, para a carpintaria textual, fica mais do que inverossímil colocar tanta palidez em todos, todos em um mesmo bloco monocórdico, sem textura. Seria possível a reunião de tantos personagens tão apagados, tão pouco criativos, que não apresentam interesse nem como pessoas e nem como intérpretes de exercícios? Ficando outra grande dúvida: onde estaria o poder transformador da arte naquelas pessoas tão comuns? Onde estaria o contraponto entre uma vida real inútil e vazia, e uma vida cênica vigorosa, ou sequer de outras tonalidades? Tudo nos leva a essa sensação, ainda que fique clara pelas personagens, que a gente possa perceber pequenos e tímidos rascunhos de mudança. A concepção simples do projeto, focada no trabalho dos atores, parece esbarrar também em algumas questões, como a escolha do espaço circular do Teatro de Arena, que parece muito maior do que a encenação correta de Cesar Augusto. O trabalho me parece que encontraria uma maior reverberação, justamente, no Mezanino ou na Sala Multiuso, do mesmo espaço, para que a proposta realista – quase naturalista -, estivesse mais bem ancorada. Assim, como o cenário de Mina Quintal, com espelhos, que são pequenos e tímidos para tamanha arena, e não provocam nenhum efeito expressivo, caso fosse essa a intenção. A única composição que nos provoca é quando ele é alinhado em paralelo, no formato de um bloco compacto. Neste momento ele se faz presente e parece dialogar, de alguma maneira, com o espaço e a platéia. Os figurinos de Ticiana Passos, a luz de Adriana Ortiz,  completam naturalmente a encenação. Já, o efeito de projeção, anunciando as semanas do curso, é também um bom exemplo do uso desnecessário de mídias digitais, em que nada contribuem para a narrativa cênica, visto que a mudança de semanas é amplamente comunicada pela troca do figurino, pelas trocas de cenário e pelas dicas óbvias do texto. Os atores Alexandre Dantas como James, Carol Garcia como Lauren, Fabianna de Mello e Souza como Marty, Júlia Marini como Theresa e Sávio Moll como Schultz, se dispõem também de forma bem natural na cena e em alguns momentos parecem fazer certa força para demonstrarem a monotonia da vida das personagens e a falta “quase absoluta” de nenhum talento para uma experiência rica e verdadeira no campo do teatro comunitário ou de bairro. Pouco crescimento pode se ver nos arcos dramáticos de cada um e sendo perceptível que eles só extraem alguma força ou verdade, quando misturam as suas pobres vidas pessoais com as das personagens de dentro da peça. Único momento em que se quebra de leve, a total monotonia, que impera no espetáculo.

círculo 3

Os atores, em formação circular constante, para mais uma rodada de exercícios. Foto Rodrigo Castro.

O papel do teatro, fica sempre mais instigante, quando ele nos leva a lugares de desconforto para nós; e isso foi provocado, de certa maneira, por esta montagem híbrida. Essa provocação valorizou a minha ida ao teatro. Mexeu com sentimentos e reflexões sobre o que é uma boa dramaturgia teatral, quem deve, ou não, conduzir uma prática teatral, sem transformá-la em uma experiência traumática aos seus comandados, ou em uma terapia de grupo; que me intrigaram a pensar se a dramaturga criou uma obra pensando em dar um nó em nossa cabeça, ou simplesmente rir de nós – ao buscarmos qualquer coisa a se aproveitar na mesma -, ou se é um dos argumentos mais rasos, estapafúrdios, insossos  e inóspitos que eu já vi, em  teatro, em muitos anos de minha vida.

Ficha técnica

Texto: Annie Baker

Idealização e tradução: Rafael Teixeira

Direção: Cesar Augusto

Elenco / Personagem:

Alexandre Dantas / James

Carol Garcia / Lauren

Fabianna de Mello e Souza / Marty

Júlia Marini / Theresa

Sávio Moll / Schultz

Direção de movimento: Dani Cavanellas

Assistente de direção: Pedro Uchoa

Cenário: Mina Quental

Iluminação: Adriana Ortiz

Figurinos: Ticiana Passos

Programação visual: Daniel de Jesus

Fotos: Rodrigo Castro

Vídeos: tocavideos – Fernando Neumayer e Luís Martino

Direção de produção: Luísa Barros

Produção executiva: Ana Studart

Administração financeira: Amanda Cezarina

Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Realização: Sesc Rio

 

Serviço

Estreia: dia 05 de outubro (5ªf), às 20h30

Local: Teatro de Arena do Sesc Copacabana. Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana/ RJ – Tel: (21) 2547-0156.

Horário: 5ª a sábado, às 20h30; domingo, às 19h.

Ingressos: R$ 30,00, R$ 15,00 (meia), R$ 7,50 (associado do Sesc)/Funcionamento Bilheteria: 2ªf de 9h às 16h; 3ª a 6ª de 9h às 21h; sábado de 13h às 21h; domingo de 13h às 20h.

Classificação indicativa: 12 anos.

Gênero: comédia dramática.

Capacidade: 242 espectadores.

Temporada: até 29 de outubro.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 3