Clara Estrela

Clara Nunes merece a homenagem e muito mais

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09 de outubro de 2017

Mesmo que o presente documentário “Clara Nunes” de Susanna Lira siga mais as raias da linguagem tradicional, qualquer filme que se debruce e pesquise sobre a inesquecível artista Clara Nunes merece atenção, com duas horas de projeção contendo performances lindas e debates sobre as origens e estudos da arte com que ela mergulhou nas raízes brasileiras. Grande precursora da inserção de cultura baiana nas músicas populares brasileiras, momento de vida a partir do qual a cantora passou a estudar os orixás e musicalidades de herança africana, Clara Nunes fez de tudo um pouco. Até teatro fundou. E, hoje, muito pouca gente sequer se lembra os motivos do falecimento repentino senão as polêmicas que envolveram as verdadeiras razões, eclipsando a magnitude da obra dela em troca de sensacionalismos.

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E de fato o filme se debruça sobre algumas destas controvérsias, mesmo que não necessariamente seja o foco. Assim como “Cauby – Começaria tudo outra vez” de Nelson Hoineff, Suzanna aqui também prefere deixar as canções, letras e, principalmente as performances dizerem mais sobre quem era a artista do que outras pessoas que não ela mesma. A única exceção para esse olhar de fora são algumas entrevistas, como o revelador dossiê que Clara prestou a Maria Gabriela, e a escolha da atriz Dira Paes como narradora de trechos deixados pela própria Clara, ou ficcionalizados a partir de momentos que ela viveu. Apesar da narração de Dira, ainda há momentos em que gravações da própria cantora falando sobre sua vida se inserem no meio da narrativa, o que pode deixar os menos avisados um pouco confusos sobre qual voz estaria sendo ouvida agora, ainda que possa ter sido justamente a intenção da diretora com o treino vocal de Dira.

Personalidade fascinante, as performances escolhidas a dedo para figurar na projeção de fato nos lembram de quanta herança devemos à cantora, ao mesmo tempo que reassociam algumas letras à sua voz definitiva após tantas interpretações que viriam a ganhar posteriormente. Isso sem falar em sua importância para a história da Escola de Samba da Portela, visto que Clara Nunes era uma de suas mais fiéis intérpretes, e a própria escola a homenageou após sua morte com “Samba de Areia”, samba-enredo, aliás, com que foi premiada em 84. E isto trouxe uma vantagem muito grande de empatia e espiritualidade evocada pela diretora Susanna Lira para trabalhar este filme, uma vez que seu trabalho anterior tenha sido justamente o doc “Damas do Samba”, incluindo inúmeras personalidades famosas da Portela.

Sobre as polêmicas, de certa forma são apenas tangenciadas, como a dificuldade de ter filhos e os trágicos abortos naturais que ela sofreu, chegando a ter assumido que apelou para os orixás lhe ajudarem nesta barreira de vida. Acabou que seu falecimento transcorreu de uma complicação de uma cirurgia simples, por aparente alergia à anestesia, mas que foi confabulada na época por inúmeras teorias loucas, injustiça que afastava seu nome exclusivamente de sua arte que agora o presente documentário vem mais uma vez resgatar para as novas gerações.

  • acac2001 acac

    texto fantástico!!!