Clarisse ou Alguma Coisa Sobre nós Dois

De Vagalumes à Louvadeusa: Imagens que falam tão alto quanto o roteiro brilhante

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18 de março de 2016

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“A Vagalume-fêmea produz um som e luz específicos para acasalar com os machos. Depois, produz outros para atraí-los e devorá-los. Fecundada e alimentada ela poderá dar luz a uma nova vida. Criação e Destruição numa simbiose. A mesma coisa com o homem. Só que a luz que ilumina a consciência às vezes pode ser uma ilusão, e a única certeza só poderá vir, então, da escuridão.” Com estas frases de efeito advindas do novo filme de Petrus Cariry, “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois”, dá para se entender muito do conteúdo e da forma com que a história será contada. Forma e conteúdo andando de mãos dadas. Final de uma trilogia sobre a morte, precedida pelo filmes “O Grão” e “Mãe e Filha” (este liberado pelo próprio diretor no youtube em altíssima qualidade por um curto período), Petrus evolui a cada filme seu olhar pela câmera, contando cada linha do roteiro em muito pela imagem em primeiro lugar, antes mesmo da palavra. Cada ângulo revela sobre o estado de espírito dos personagens, cada efeito de luz e sombra e cor pode desmascarar uma mentira que cada um conta para si mesmo na tela. Caso o espectador assistisse o filme sem som algum, ainda assim entenderia toda a história e teria uma experiência completamente nova. Aliás, para quem ainda não houvesse escutado o nome do diretor, que guarde, pois é grande promessa brasileira para se imortalizar pelos anos à frente.

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Se tivéssemos que encaixar seus filmes em algum gênero, por mais reducionista que isso possa parecer, seria dentro de um horror psicológico cheio de fantasmas, no entanto, não na forma esperada. As piores assombrações de seus filmes são os fantasmas de si mesmos. Os vivos como os mais assustadores, e os mortos, geralmente, as figuras mais santas que balizam o contraste. E esta inversão do ângulo de visão talvez seja a maior inovação que o diretor venha trazer para a filmografia nacional que tão pouco explora o gênero horror. Favor não confundir com o gênero-primo ‘terror’, que é mais explícito e provoca sustos e medo, enquanto que o horror é muito mais psicológico, gerando sensações de tensão constante e desconforto. Em “Clarisse Ou Alguma Coisa sobre Nós Dois”, a protagonista submissa, esposa de empresário estrangeiro que trabalha para seu pai dono de uma mineradora, vê-se em conflito quando precisa passar um fim de semana de despedida com o patriarca moribundo, uma pesada sombra que não consegue morrer nas entranhas das lembranças de família, confinados numa casa amadeirada em meio às forças naturais de um bosque cerrado no alto da montanha.

Mas se estamos falando do conteúdo, o que torna o filme uma grande obra e faz mover a narrativa é a ambientação sufocante  num incrível senso de artes plásticas, que praticamente pinta o que seria um simples drama de despedida num quadro agonizante, já direcionado para os ângulos certos de câmera de um diretor criativo e seguro. Tudo emoldurado pela trilha sonora claustrofóbica e efeitos sonoros inteligentes aplicados no momento certo para, muito melhor do que simplesmente dar sustos levianos, gerar uma sensação de soco no estômago bem dado. Talvez seu filme anterior “Mãe e Filha” com a brilhante atriz Zezita Matos de “A História da Eternidade” tenha conseguido ligar melhor a conexão interna do filme com o espectador externo pela identificação mais facilitada pelo uso de regionalismos folclóricos, como a adaptação dos quatro cavaleiros do Apocalipse em quatro cangaceiros fantasmagóricos que assombram mãe e filha. Mas aqui, como dito, a transgressão é muito maior, fazendo os vivos serem mais ameaçadores. O patriarca opressor muito bem defendido na pele de Everaldo Pontes; a empregada cujos hábitos místicos parecem uma feitiçaria que não se sabe estar sendo utilizada para exorcizar ou proteger a casa; e especialmente a filha ‘louvadeusa’ que aprenderá como uma Titã que para sobreviver deverá engolir tudo a seu redor e cuspir antropofagicamente a seu bel prazer, numa edificante entrega cênica da atriz Sabrina Greve.

Já são antológicas as formas complexas de filmar a cena dos vagalumes com as luzes da cidade ao fundo, e a cena final, com uma das sequências de sexo mais aterrorizadoras da história do cinema.

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Mostra Tiradentes – Mostra Tiradentes em São Paulo

Festival do Rio 2015 – Première Brasil

Clarisse Ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois (idem)

Brasil, 2015. 84 min

De Petrus Cariry

Com: Sabrina Greve, Everaldo Pontes, Veronica Cavalcanti, David Wendefilm

 


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