Cineasta britânico elogia Wagner Moura e Selton Mello

Diretor de Trash – A Esperança vem do Lixo fala da experiência de rodar o filme no Brasil e elenco também conta como foi.

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10 de outubro de 2014

Para divulgação do filme “Trash – A Esperança Vem do Lixo”, recém saído do forno para encerrar o Festival do Rio deste ano, a equipe do longa se reuniu, na manhã do último dia 7, em uma coletiva de imprensa na Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma co-produção da brasileira O2 Filmes, de Fernando Meirelles, com as britânicas Working Title e PeaPie Films, o filme dirigido por Stephen Daldry acompanha a aventura de meninos carentes que encontram uma carteira no lixão. Indagados pela polícia sobre o paradeiro do objeto, os garotos, que não confiam nas autoridades, são motivados pelo desejo de fazer o certo através das verdades que estão dispostos a descobrir. Para a adaptação cinematográfica do livro homônimo de Andy Mulligan, a escolha do Rio de Janeiro como cenário, deixando de lado opções como Índia e Filipinas, foi resultado da boa estrutura da indústria de cinema do país, além de qualidades mais humanas, como a bravura e bom humor dos brasileiros.

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Richard Curtis, roteirista do filme, foi desafiado a trabalhar de uma forma com a qual não estava habituado. “Como roteirista eu fui muito minucioso quanto a cada palavra que usei. Eu mudei meu método de trabalho. Quando o Stephen filmou, nós tentamos coisas novas, observando como os rapazes e os atores reagiam.” O renomado diretor Stephen Daldry, nome por trás de filmes como “As Horas” e “O Leitor”, revelou as particularidades que mais o atraíram para o projeto. “Eu quis trabalhar com jovens e também tinha interesse em filmar em língua estrangeira. Mas o mais importante para mim foi o otimismo, a esperança, o próprio senso de retidão das crianças.”

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Os atores da chamada realeza brasileira, Wagner Moura e Selton Mello, também estiveram presentes e compartilharam suas experiências de atuação no filme de abrangência internacional. Stephen Daldry fez questão de elogiar o desempenho da dupla. “São atores fantásticos, mas também muito colaboradores. No trabalho com os meninos, demonstraram paciência e encorajamento. Eles me ajudaram a contar a história.” Apesar de interpretar um personagem com menos tempo em cena do que seu colega brasileiro, Wagner Moura salientou a importância de José Angelo, o dono da carteira que foi parar no lixão. “Meu personagem é muito importante, porque de alguma maneira é o espírito desse cara que guia os meninos.” Quanto ao trabalho sob a direção do britânico Daldry, o ator não escondeu sua admiração. “Esse encontro com o Stephen foi muito importante para mim, ele é um artista. Acho muito bacana ter um diretor olhando assim para o Brasil, criando uma história aqui do jeito dele, diferente da maneira que nós estamos acostumados a fazer.” Selton Mello, ultimamente mais envolvido com as funções por trás da câmera, disse que o convite para “Trash” foi como um renascimento para seu papel na dramaturgia. “Nos últimos tempos eu ando mais dirigindo que atuando porque eu não estava me sentindo muito estimulado como ator. Esse filme para mim é fundamental porque o Stephen com a sensibilidade dele, com a maneira como ele trabalha, me deu novamente um tesão enorme pela função de ator. Há um bom tempo eu não tinha esse brilho nos olhos.” Outra oportunidade bastante apreciada por Selton Mello foi a possibilidade de agir espontaneamente para corresponder ao desempenho não doutrinado dos meninos Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein, os não-atores que interpretaram o trio que guia o filme.

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A escolha desses garotos inexperientes se explica pela ideia de imprimir veracidade ao filme. Christian Duurvoort, creditado como co-diretor, explicou como funcionou o processo de seleção entre os diversos meninos observados. “Inicialmente a gente buscou em comunidades, projetos sociais, grupos de teatro. Não se encontrava aquilo que despertava desejo de trabalhar junto. Eu não acredito somente no talento inato, eu acredito muito no trabalho.” Afirmou o co-diretor sobre a disposição dos jovens para fazer parte daquela árdua realidade artística. José Dumont, outro nome do elenco que compareceu ao evento, também falou sobre as estrelas mirins. “Se a gente não olhar para a nossa juventude com essa perspectiva de melhora, fica meio estranho o mundo. Eu acho que esse é um filme que recupera a esperança, nós temos três crianças maravilhosas, três diamantes.” O ator veterano também ressaltou, de forma bem humorada, o talento do cineasta no comando, cuja especialidade é também reforçada pela eliminação de obviedades. “Stephen é louco, mas muito criativo.” André Ramiro, que em “Trash” interpreta um carcereiro, admitiu que a maneira como os jovens ingressaram na produção foi muito parecida com o seu aparecimento no cinema. Ele disse ainda que conseguiu uma profissão graças a profissionais dispostos a conceder oportunidades.

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Como “Trash” toca na ferida da corrupção, Wagner Moura foi um dos escolhidos para falar sobre o assunto, um ator que, além de ter em um sua filmografia uma relação com o tema tão patente no Brasil, discorre sem embaraço sobre sua posição política. “Nossa realidade é afetada pela corrupção, pela violência, pelos maus tratos aos menores e à população pobre.” Para ele, a grande obrigação do cinema é mesmo falar da vida, daquilo que nos faz sermos uma única coisa, seres humanos. Christian Duurvoort também teve sua oportunidade de falar sobre essa mazela que, certamente, está longe de ser uma exclusividade brasileira. “Nós vivemos uma época de muito cinismo em relação à corrupção. A maneira pessimista como lidamos com essa temática social, que nada vai dar certo, é desesperançosa. Esse filme dá vontade de agir.” Para ilustrar o caráter definitivamente otimista do longa, uma declaração de Richard Curtis é especialmente efetiva. “Esse filme é a maior demonstração de esperança de que essa geração será melhor que a nossa. Mais determinada para lutar contras as conhecidas injustiças.” Com distribuição da Universal Studios, “Trash – A Esperança Vem do Lixo” chega aos cinemas no dia 9 de outubro.