Cólicas da desmesura

Darren Aronofsky afirma seu rigor autoral em 'mãe!', uma alegoria religiosa disfarçada de filme de horror sobre o descontrole nosso de cada dia

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20 de setembro de 2017

DA 7 mãe Aronofsky

Rodrigo Fonseca
Em tempos de Amityville, Annabelle 2 e do monumental It: A Coisa, uma aeróbica metafísica como mãe! vem coroar com os louros da autoralidade um momento de apogeu do terror como catarse dos esgotamentos e das falências morais do mundo contemporâneo. Em épocas de conflito armado ou ameaça de guerra, a comédia é o que mais desponta. Mas quando o esfacelamento das potências – e das harmonias globais – vem pela economia, o resultado estético são as trevas. A crise da bolsa de Nova York em 1929, por exemplo, gerou, como saldo de seu crack, uma nova forma de grand guignol (de teatro de horrores), agora audiovisual, chamada “filme noir”, na qual a escuridão dos becos e submundos se refletia no tenebrismo das almas, entre heróis ambíguos e femme fatales. Agora, com o crack financeiro nas Américas, piorado pelo “bolsonarismo” de Donald Trump, o grand guignol é das lugar a fantasmagorias, a assombrações nas quais o virtual institucionaliza a loucura e rasga as cartas de direitos das virtudes. É o que vemos no delirante regresso de Darren Aronofsky (de O Lutador) à direção, com o amparo do Velho Testamento como seu calço num espetáculo de quiprocós vestidos de paranoia.

Um escritor taciturno (Javier Bardem) joga sua jovem esposa (Jennifer Lawrence) num show de horrores em "mãe!'

Um escritor taciturno (Javier Bardem) joga sua jovem esposa (Jennifer Lawrence) num show de horrores em “mãe!”: excelência narrativa

Cronista do excesso, especializado em figuras exuberantes cujo viço é comprometido pela desmesura – seja de drogas, como em Réquiem Por Um Sonho; seja de esperança no amor, em A Fonte da Vida; seja na perfeição, como em Cisne Negro; seja na Fé, o que era o caso de Noé –, Aronofsky faz da Sagrada Escritura e dos escritos do Talmude seus prismas de entendimento do mundo. Poucos realizadores de hoje – talvez só Terrence Malick – gravitam tanto pela esfera messiânica do Absoluto quanto ele. Há filmes mais da ordem da carne, como o já citado The Wrestler, pelo qual ele ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 2008. E há filmes de um simbolismo transbordante, caso de mãe!, em que a sempre superestimada Jennifer Lawrence enfim faz jus ao prestígio de que goza, por encarnar uma versão humana da Tradição. Entenda Tradição como a soma das virtudes que balizam positivamente as ações humanas, como a maternidade.

Na trama, em forma de oroboro (a serpente que devora o próprio rabo), ela é só uma menina, sem nome, casada com um escritor de alto quilate (Javier Bardem, sublime, como sempre), que estranha o descaso dele para com suas opiniões e seu desejo. Há uma aura de aparente machismo e desdém, que se incrementa com a chegada de um casal de potenciais vizinhos, vividos por um vetusto Ed Harris e por uma mefistofélica Michelle Pfeiffer. Eles se instalam na casa de Jeniffer e Javier e, aos poucos, levam a moça a devorar a maçã da curiosidade, levando-a a penetrar por espaços interditados do Éden de concreto que assumiu como lar. Aos poucos, mais pessoas aparecem, o que deflagra uma série de rituais soturnos, da brutalidade ao canibalismo, que só se exponenciam, incontroláveis, nos 40 minutos finais.

Uma espécie de micareta macabra sintetiza naquele lar a Babel das nossas tolerâncias, todas de pavio curto, que, acesos frente ao desamparo de uma força maior, ateiam fogo num paiol de egos, de incongruências, de paganismos afetivos. A fotografia de Matthew Libatique lê aquele pandemônio por filtros ocres e amarronzados, sem a clareza da iluminação. Como Pi (1998), filme pilar do diretor, mãe! é um berro histérico de alerta sobre o nosso descontrole. Um grito dionisíaco: imperfeito, mas obrigatório. Ou seja… é Aronofsky no estado bruto.

No Brasil, Luiz Carlos Persy, um dos maiores dubladores do Brasil, empresta a voz a Bardem. A ótima Mariana Torres é a dubladora de Jennifer no país.

Cotação: Excelente

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5