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05 de outubro de 2014

DE NÁUFRAGO A REFÉM, TOM HANKS ENFRENTA AS TORMENTAS DO MAR

Ator encara arrisca uma reinvenção em sua premiada carreira em “Capitão Phillips”, thriller baseado em fatos reais que surpreendeu críticos, exibidores e espectadores com a estética semidocumental de Paul Greengrass

 930353 - Captain Phillips

Midas na década de 1990, quando seu carisma fomentou uma série de fenômenos de bilheteria, Thomas Jeffrey Hanks atravessou os anos 2000 assombrado pelos fantasmas da estagnação profissional e da indiferença popular. Filmes como “Terminal” (2004) e “O código Da Vinci” (2006), talhados para se transformarem em blockbusters imbatíveis, ficaram aquém das expectativas do mercado e muitos longas-metragens mais autorais que ele protagonizou, como “Estrada para Perdição” (2002) e “Jogos do Poder” (2007) amargaram muita rejeição. Motivado pelo sentimento de derrota em torno desses produtos, Hanks achou que estava velho demais para dar bobeira (ele hoje tem 58 anos) e preferiu apostar em um trabalho radicalmente diferente. Eis que a história real dooficial de Marinha Mercante Richard Phillips – mantido refém por piratas da Somália em 2009, em alto-mar – caiu em suas mãos. E o encanto do ator por ela rendeu um longa orçado em US$ 55 milhões, cuja arrecadação mundial na venda de ingressos chegou a US$ 218,8 milhões, contabilizando ainda indicações ao Oscar nas categorias filme, ator coadjuvante (para o estreante somali Barkhad Abdi), roteiro adaptado, edição, edição de som e mixagem.

Embora seja vendida como um thriller biográfico, a produção, filmada na costa de Malta, tem uma estética nervosa, de fotografia lavada, que evoca mais uma reportagem (ao vivo) de telejornal sobre um fato violento do que cartilhas ficcionais. É a depuração máxima do “faz-de-conta-que-é-verdade” do diretor Paul Greengrass, apesar da onipresença de uma trilha sonora tensa. É o exercício mais bem lapidado de uma busca autoral formal do diretor de “Voo United 93” (2006) e “O ultimato Bourne” (2007). Para entendê-la, é preciso rever suas raízes históricas. Elas vêm de uma tragédia. Há 13 anos, quando as imagens de aviões se chocando contra as torres do World Trade Center ganharam as TVs do mundo, em transmissão ao vivo, elas estetizaram a espetacularização da violência na realidade. Dali, o documentário, antes coadjuvante na linhagem comercial do cinema, esnobado pelos exibidores, sofreu um boom de produção, emplacou blockbusters, virou febre. Era um indício de que a realidade poderia se tornar “a maior diversão” para a indústria do audiovisual. O formato documental, alcunhado de “natural” em sua gênese, foi durante décadas visto como uma ferramenta didática – ou como peça de discurso revolucionário para realizadores à esquerda do Poder. Agora, com o 11 de Setembro, documentário passou a ser (mais) uma fonte de divisas para o circuito exibidor. Não por acaso, o número de títulos no formato cresceu (em quase 70% de 2002 até hoje). E, mais do que isso, a estética do (dito) real contagiou a ficção: cada vez mais, aquelas que almejam prestígio autoral passam a se maquiar de narrativa documental, de ultrarrealismo, de câmera na mão. Quanto mais realista, melhor. Foi aí que Greengrass despontou domo cineasta de prestígio.

Embora tenha 24 anos de cinema, em uma trajetória de dramas (como “Livre para voar”, de 1998) rodados para o Reino Unido, Greengrass só se fez notar ao brincar de documentário em “Domingo sangrento” (2002), pelo qual ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Ali, o cineasta simulava um estilo de telejornalismo padrão CNN ao reconstituir um massacre irlandês. Seu visual documental foi a principal referência de José Padilha em “Tropa de elite” (2007). O cineasta carioca assistiu ao longa premiado de Greengrass no Festival do Rio de 2002, a convite do Caderno B do “Jornal do Brasil”, para o qual escreveria um artigo na seção Filme em Questão. O impacto da narrativa de Greengrass modificou seu modo de olhar.

Ao assumir a franquia Bourne em 2004, Greengrass provou ser capaz de investir no heroísmo em tramas sintonizadas com a denúncia de contradições políticas concretas (tiradas de manchetes). Suas perseguições são expressas por movimentos de câmera similares aos de cinegrafistas de telejornais (rápidas, de cortes bruscos, sem coreografias decupadas), transmitindo a sensação de perigo com realismo pleno. A curiosidade de seus fãs era ver esse estilo aplicado a uma trama pinçada da vida real. E “Capitão Phillips” serviu como resposta à tal demanda.

Produzido por Scott Rudin, Dana Brunetti e Michael De Luca, o longa segue o mesmo trilho dos filmes anteriores do cineasta, só que com melhor acabamento formal. A cada virada, o destino de Tom Hanks é incerto. No “artesanato” semidocumental de Greengrass, nada parece previsível, causas e efeitos não se completam. Mesmo em cenas de calmaria — como a de Phillips (Hanks) olhando seus e-mails para entender sua missão e saber melhor por que águas navega — a câmera balança convulsiva. A câmera se debate como se fosse um espectador indesejado, testemunhando uma rotina prestes a ser assolada por uma tragédia. A simulação da verdade amplia o zelo do cineasta na direção dos não atores africanos, em especial Barkhad Abdi, que vive Muse, o líder do bando. É um filme de maturidade, crítico aos EUA (“Vocês roubaram nossos peixes, tomaram nossos mares, por isso, de pescadores, viramos piratas”, diz Muse), com Hanks na plenitude. A aposta do ator deu certo.

CAPITÃO PHILLIPS – HBO 2, 11h00

 Jorge Mautner O Filho da Utopia

JORGE MAUTNER, O FILHO DO HOLOCAUSTO

De Pedro Bial e Heitor D’Alincourt (Brasil, 2012)

Filme de abertura do É Tudo Verdade em 2012, esta cinebiografia documental do menestrel carioca (adotado por Sampa ainda menino e depois devolvido ao Rio no auge do Pasquim e das bossas tropicalistas dos anos 1960) marcou a volta do jornalista Pedro Bial ao posto de cineasta. Antes, ele filmou “Outras histórias” (1999). Aqui, ele parte do livro de memórias de Mautner para passar em revista, na telona, os fatos mais significativos da vida do cantor, compositor e violonista. Sua viagem pela História é tecida por Bial e seu codiretor, Heitor D’Alincourt, como uma reportagem lúdica sobre a reflexão filosófica que seu biografado faz sobre a diversidade cultural do Brasil. Em paralelo, os realizadores discotecam os maiores hits de Mautner, repaginados pelos músicos  Pedro Sá, Kassin, Domenico Lancelotti e Berna Ceppas. Bial saiu do Festival de Gramado com o Kikito de melhor roteiro pelo filme, laureado lá também com os prêmios de melhor montagem (para Leyda Nápoles) e fotografia (de Gustavo Hadba).

CANAL BRASIL – 0h15

 La Colombiana

COLOMBIANA – EM BUSCA DE VINGANÇA

De Olivier Megaton (França, 2011)

Na esteira de sua participação nos sucessos do “Star Trek” de J. J. Abrams  e de “Avatar”, de James Cameron, Zoe Saldana ensaiou uma carreira como estrela de primeira grandeza – que ainda não emplacou. Ao conferir o carisma da atriz, o francês Luc Besson levantou US$ 40 milhões a partir de sua EuropaCorp para investir um thriller de ação protagonizado pela atriz. O investimento resultou numa bilheteria mundial de US$ 60 milhões, que ficou bem aquém dos interesses de Besson. Apesar disso, é inegável a qualidade visual desta produção, cujo mérito maior é da fotografia de Romain Lacourbas. Dublada em português por Márcia Regina, Zoe vive Cataleya, uma jovem de Bogotá que testemunha o assassinato de seus pais, encomendado por um capo da droga. Adotada por seu tio Emilio (Cliff Curtis), ela é treinada por este para se tornar uma mercenária. Só que ela cresce disposta a usar os dotes para matar que adquiriu em prol de uma vingança.

REDE GLOBO – 22h20

 07_the_searchers__Blu-ray

RASTROS DE ÓDIO

De John Ford (EUA, 1956)

Com base no romance “The searchers”, de Alan Le May, John Ford aproveitou a imensidão do Monument Valley, no Arizona, para construir uma de suas muitas obras-primas. Aqui, na dublagem de Marcos Miranda (algumas fontes falam em Márcio Seixas e outras em Roberto Macedo), Marion Robert Morrison, ou melhor, John Ford, vive o veterano da Guerra de Secessão Ethan Edwards. Ao voltar para casa, derrotado do conflito, ele vê o lar de seus parentes ser assolado por um ataque de índios que raptam sua sobrinha (Natalie Wood). Caberá a ele varrer o Oeste atrás do paradeiro da menina. E o tempo passa. Mas o ódio de Ethan, não. O filme traz uma das montagens mais sufocantes da história do faroeste, assinada por Jack Murray, parceiro habitual de Ford. Max Steiner compôs a música do filme, que custou US$ 3,7 milhões.

TCM, 4h00