Comboio de Sal e Açúcar

Adaptação de romance de 2000, que acompanha uma viagem de trem durante a guerra civil, quando costumavam ocorrer ataques rebeldes aos comboios

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18 de outubro de 2016

Licínio Rodrigues nasceu no Rio Grande do Sul, mas vive em Moçambique desde a independência em 1975. Trabalhou no Instituto Nacional de Cinema, primeiro órgão cultural criado pelo governo independente de Samora Machel. Em seus primórdios colaborou com cineastas como Jean Rouch e Jean-Luc Godard na elaboração de um cinema que pudesse atender aos processos de construção simbólica da nova nação independente. Ele se destacou inicialmente como documentarista, fiel à experiência colaborativa do Cinema-Verdade de Jean Rouch, em que se destacam filmes como A árvore dos antepassados (1994) e O acampamento de desminagem (2004). Em 2003 começa a se aventurar pela ficção com Desobediência, realizando mais duas ficções até sua última produção Comboio de sal e açucar (2016).

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Sua experiência inicial como documentarista de uma nova nação independente ajuda a entender o acento temático e narrativo de suas ficções, privilegiando abordagens históricas em que os personagens são geralmente pobres dos meios rurais resistindo à experiência do bem comum em meio à guerra civil fratricida. É o caso deste filme, uma adaptação de seu próprio romance de 2000, que acompanha uma viagem de trem durante a guerra civil, quando costumavam ocorrer ataques rebeldes aos comboios. O trem é uma metáfora do país que se quer unido. Os personagens representam didaticamente forças sociais e desejos de uma utopia nacional: a paixão entre um militar e uma enfermeira simbolizam a necessidade de se (re)construir o país pelo amor. Por outro lado, a desagregação social não está só nos ataques rebeldes externos, mas também naqueles perpetuados pelos próprios militares, que se aproveitam de seu pequeno poder para estuprar mulheres casadas e roubar cargas. O cenário de violência corre em paralelo ao da religiosidade e sua diversidade: dois maquinistas, um católico e outro muçulmano, e o comandante que ordena suas estratégias de guerra de acordo com sua sensibilidade religiosa tradicional.

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A longa jornada entre Nampula e Cuamba nos faz ver as belas paisagens do país, que funcionam como personagem de fundo da travessia. Apesar das boas atuações, com destaque para o brasileiro Thiago Justino que assina a preparação de atores, o acento exagerado numa caracterização clássica e tipológica dos personagens não contribui para que a narrativa flua junto ao ritmo do trem, de suas paisagens e de seus conflitos.

Festival do Rio 2016: Mostra Panorama do Cinema Mundial

Comboio de sal e açúcar (Comboio de sal e açúcar)

Brasil, Portugal, França, 2016. 100 minutos

Direção: Licínio Azevedo

Com: Matamba Joaquim, Melanie de Vales Rafael, Thiago Justino, Antonio Nipita, Sabina Fonseca.

 

 


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