Comeback

Western regional marca a estreia de Erico Rassi na direção

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11 de outubro de 2016

O interior do Estado de Goiás foi o cenário escolhido pelo diretor e roteirista Erico Rassi para “Comeback”, western que conta a história de Amador, um ex-matador que, idoso, ganha a vida como capataz do “coronel” da região, enquanto alimenta a saudade de um passado glorioso e aparentemente impossível de ser resgatado. A chegada de dois homens interessados pelas histórias de Amador, porém, faz com que ele volte a sonhar com os seus dias de sucesso e decida fazer o comeback que dá nome ao filme.

Comeback

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Em termos visuais e narrativos, o filme de Rassi bebe na fonte de “Os imperdoáveis” (1992), mas segue um caminho diferente daquele traçado por Clint Eastwood. No filme do cineasta norte-americano, o protagonista pretendia esquecer sua vida pregressa como pistoleiro e somente volta à ativa quando a necessidade de ganhar dinheiro se une a um motivo nobre. Aqui, o personagem de Nelson Xavier, igualmente velho e decadente, orgulha-se de tudo o que fez e, movido pela vaidade, deseja superar o ostracismo a que foi relegado pela passagem do tempo.

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Esse desejo de retornar é alimentado pela solidão. Em certa passagem do longa, o reflexo do protagonista na tela de uma TV desligada revela aquilo que ele se tornou: um fantasma, uma vaga lembrança. E o modo como Rassi constrói essa atmosfera volta a lembrar a técnica de Clint Eastwood: o desenvolvimento da narrativa é lento, quase um fardo a evidenciar a falta de perspectiva que rodeia os personagens. Essa falta de perspectiva é ressaltada, também, pela decadência do cenário, que traduz a desolação de uma localidade parada no tempo, como se fizesse parte do ideário de Sergio Leone, responsável por adicionar sujeira ao faroeste clean que Hollywood costumava fazer. Os vários closes e as diversas tomadas com profundidade de campo reduzida, por outro lado, revelam Amador aprisionado a uma realidade que ele não deseja e que logo o impulsionará a mudar. Já pelo viés subjetivo, “Comeback” suscita o debate sobre a velhice e o isolamento que o correr dos anos provoca. E, dessa forma, humanizando o seu protagonista (interpretado brilhantemente por Nelson Xavier), o longa de Rassi permite que o público se identifique com Amador, capaz dos atos mais hediondos,  e revele alguma empatia pelo personagem.

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Flertando abertamente com o cinema de gênero, mas ainda fiel a uma linguagem regional própria das produções brasileiras, Rassi debuta na direção de forma competente, fazendo de seu “Comeback” um ponto de partida bastante promissor.

Festival do Rio 2016 – Première Brasil: Competição longa ficção

Comeback (Comeback)

Brasil, 2016, 89 minutos

Direção: Erico Rassi

Com: Nelson Xavier, Marcos de Andrade, Gê Martú, Everaldo Pontes

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4