Como é Cruel Viver Assim

Desperdício relâmpago

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23 de agosto de 2018

*Crítica originalmente publicada por Filippo Pitanga no Almanaque Virtual em 12 de outubro de 2017 durante o Festival do Rio 2017 e atualizada para a estreia no circuito.

Bem que era de se estranhar uma Première Brasil no Festival do Rio tão fantástica, onde até um filme mais “fraco” ou “problemático” ainda assim era de alto nível, com produções impecáveis, quando geralmente há um ou dois longas-metragens que sequer mereceriam ou deveriam estar ali. Ou por serem terríveis ou deslocados no perfil do Festival. Este “Como é Cruel Viver Assim” de Julia Rezende (diretora do soberbo “Ponte Aérea”, vale dizer) é tudo isso e mais um pouco.

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O filme não começa mal, e tem elenco de dar orgulho, passeando por Fabíula Nascimento e Milhem Cortaz (ambos do cult máximo “O Lobo Atrás da Porta”), Zezeh Barbosa, além da diva máxima da Cia. OmondÉ e mais lembrada pelo Cilada: Debora Lamm (que ao lado de Grace Passô evoluem o Teatro brasileiro hoje em dia).

Porém, os risos iniciais vão começando a perder espaço para falta de ritmo, subaproveitamento de personagens, mais de um anticlímax que pretendem ser reviravoltas inesperadas porém não são bem trabalhados o bastante para isso e… O pior mesmo é a péssima representação social na construção de personagens.

Em primeiro lugar porque você começa feliz quando vê a plaquinha do trem dizer que a história se passa em Nilópolis e pensa que enfim filmes do porte da Produção O2 estariam expandindo a geografia humana dos típicos filmes comerciais e que estaríamos vencendo a barreira das noções pré-concebidas. Mas não… Infelizmente a visão que o filme possui de seus cidadãos trabalhadores é de que se todos tivessem a oportunidade de cometer um crime para “se dar bem”, todos cometeriam. Esta é a sinopse: um grupo de pessoas decide sequestrar um ricaço (Aliás, a própria “elite” que representa esta “riqueza” contra a qual se fazer justiça social com as próprias mãos só é representada em uma cena, quando uma madame insuportável tenta contratar uma babá — mas esta cena por si só não consegue sustentar a identificação na plateia de que os protagonistas estariam fazendo algo justificável para embasar nossos risos culposos com os crimes que se sucederiam daí.

É como se uma vez levado ao pé da letra, então, mesmo que sem querer, o filme daria a impressão de que todo morador de Nilópolis aproveitaria uma chance de lucrar com a ilegalidade. Mesmo a personagem com um negócio legítimo e legalizado quase não hesita em ingressar no plano criminoso, até porque seu ex-namorado é também um criminoso, e seu atual está prestes a se tornar um…e nada disso é estranho para eles ou para suas consciências que não refletem sobre suas condições em nenhum momento. Pois isto é muito absurdo nos tempos atuais.

Isto não é nenhuma personalística individual a nenhum dos envolvidos, pois são todos profissionais incríveis per si. Julia Rezende com seu último longa-metragem “Ponte Aérea” elevou o status do romance no cinema brasileiro a uma nova potência. O problema está num sistema estruturado en cima dessas visões distorcidas de classe que são coniventes com construções tão nocivas. E o problema também não é ser um filme de gênero e se assumir uma comédia rasgada sobre nosso populismo interiorizado como crítica social disfarçada de risos, como seria de praxe na história da comédia, porque não há princípio do contraditório dentro deste humor. A acidez que faz rir e critica ao mesmo tempo precisa de ambivalências e oposição de forças para impulsionar algo novo destas tensões. E isto não ocorre, infelizmente.

Você fica esperando…, e quando chega o diálogo final, onde ao menos o público poderia esperar uma reinterpretação do que se passou, não apenas reitera como piora a visão estereotipada e até um pouco humilhante da figura usada como exemplo o filme todo: uma vendedora de brownie na rua que não possui um braço e é vitimizada pelo olhar dos protagonistas como coitadinha, como se vendendo o brownie dela na rua não pudesse ter a chance de possuir mais possibilidade de integridade do que todos os personagens do filme juntos (e que ainda se confortam na visão torpe de que são iguais a ela ou só um pouco melhores por possuir os dois braços). Sim, leitor. Você leu certo. Isso é expresso verbalmente no filme. Não é algo interpretado ou abstrato. É dito. De tão equivocado assim.

Ainda assim elogia-se o preparo de elenco, quase todos rendendo bem, mesmo quando com péssimas representações como a imputada ao personagem de Silvio Guindane, que rende para além das péssimas reviravoltas sem pé nem cabeça que indignificam o personagem. Mas vale ressaltar destaque para Fabiula e Debora, sendo que esta segunda rouba a cena em qualquer momento que apareça, mesmo com uma construção de personagem bastante retrógrada e unidimensional de “aproveitadora” (sem motivação). As duas provam que seus calibres cênicos deveriam estar capitaneando muitos dos filmes da novíssima onda triunfante do cinema brasileiro — mas que só não precisava ser logo este.