Como Nossos Pais

Os Espaços que deixamos para trás

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15 de setembro de 2017

O espaço inventivo do cinema costuma ser traçado através de dois opostos complementares que coexistem em um filme: o do campo/plano e do extracampo (fora do plano). Ou seja, o que aparece na tela e o que está fora da tela mas pode ser referenciado de outras formas, como o som ou a luz, elementos que ancorem a memória afetiva que, ao despertar um gatilho, pode ganhar forma através de como nos lembramos daquilo que já esteve em cena e agora não está mais. Ao mesmo tempo,  há um protagonismo muito focado nos corpos presentes para a tela, e que só costuma pensar nos corpos ausentes em um cinema mais autoral e experimental, cujo olhar possa descansar mais e se permitir refletir a imagem sem precisar ser guiado pela ação. Eis que o novo “Como Nossos Pais” de Laís Bodanzky se utiliza e muito dos espaços dentro do campo tradicionais do cinema, mas experimenta ousar em retirar o protagonismo dos corpos que guiam a ação e continuar a história nestes espaços que deixamos para trás.

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Isto vem muito a calhar com a proposta de brincar com o famoso título homônimo ao da música “Como Nossos Pais” do Belchior e notabilizado na interpretação de Elis Regina, abordando um conflito de gerações quando a protagonista (Maria Ribeiro) em pleno almoço de família típico de finais de semana recebe de sua mãe (Clarisse Abujamra) a revelação bombástica de que pode ser filha biológica de outro pai… Daí em diante aprendemos que todos os galhos da árvore genealógica mostrada no filme giram em torno da personagem principal, como se ela própria fosse mãe de todos os seus familiares, até dos próprios pais e seus respectivos.

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Isto até que ela colapsa com a catarse recente e a crise de identidade de suas raízes, de modo a não conseguir mais sustentar os pilares apoiados em suas costas. Esta alta exigência sobre a mulher moderna reflete bem as novas ondas de reconhecimento dos direitos feministas, sem deixar de problematizar o meio retrógrado onde estes avanços ainda sofrem altas resistências. E, para tanto, a própria personagem não parece aquiescer sua própria força ou mesmo onde talvez ainda esteja atada a noções pré-concebidas arcaicas, permitindo uma projeção da plateia em se deixar desconstruir junto com a protagonista, ao mesmo tempo que aflora o elenco coadjuvante cheio de outras mulheres fortes que ajudarão a compor este feminismo cada vez mais plural.

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Estes espaços que deixamos para trás e que Laís Bodanzky analisa nos enquadramentos e ângulos, quase como um desenvolvimento do seu olhar espacial que vem muito desde seu precursor cult “Bicho de Sete Cabeças”, permitem maior subjetivismo não apenas da câmera como dos cenários filmados, deixando a tela descansar no vazio mesmo quando os personagens já abandonaram o plano e nós ficamos a pensar sobre o efeito daquela quebra da inércia da materialidade.

Estes pequenos quadros do vazio, com o leite transbordando sem ninguém para tirá-lo do fogo, a bicicleta não utilizada largada no meio da sala, ou o diário desatualizado descansando numa cabeceira são a continuidade do plano que dão importância e respiro ao que vem depois do que é anunciado com a palavra, mas precisa ser ouvido, assim como as dicas de nossos pais que só costumamos dar atenção anos depois quando enfim sentimos na pele o que é estar no lugar deles.

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É assim que cresce a personagem da mãe, brilhantemente interpretada por Clarisse Abujamra, ganhadora do prêmio de melhor atriz coadjuvante em Gramado e forte concorrente ano que vem ao Prêmio máximo do Cinema Brasileiro na mesma categoria, e que encarna um arquétipo a princípio duro e que não pede desculpas pela casca grossa que a vida lhe deu, mas que vai se revelando pelo carisma da atriz com uma franqueza agridoce muito mais reveladora do que se tentasse se comunicar com simpatia ou condescendência. Não. Ela ensina pelos erros. Pelas experiências pregressas. Vai fazendo crescer o papel da filha, com rendimento solar e confiante de Maria Ribeiro, também ganhadora em Gramado com o prêmio de melhor atriz, como um espelhamento futuro do que as perdas e dissabores naturais da vida podem ser interpretados como vitórias de experiências vividas se aceitos como eles são, de olhos bem abertos. A cena do piano além de enfim integrar a música homônima ao título do filme com a história, é de uma poesia cortante de atingir até o corações mais enregelados. E o elenco ainda tem uma força coral muito forte calcada na sororidade, com mulheres fortes seja em participações maiores ou menores, como a hilária personagem de Gilda Nomacce em ponta indispensável, ou da melhor tirada pela personagem da meia-irmã por parte de pai, que bota em perspectiva todo o modernismo que a protagonista achava que tinha…

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E a questão do pai biológico? Bem…basta dizer que, independente do resultado desta parte da trama, pai é quem cuida, e há uma boa dobradinha de arquétipos de duas gerações diferentes de representantes paternos inteligentemente escalados na figura de Jorge Mautner e Paulo Vilhena, que possuem personas artísticas na vida real que por estarem na tela já transbordam de significados quaisquer personagens que lhe sejam designados, mas seguram bem o rojão de serem meros coadjuvantes catalisadores das potências das mulheres das famílias. Além de algumas participações também extremamente carismáticas como de Felipe Rocha como um bom contraponto de pai moderno com características caseiras e de dona-de-casa que antigamente seriam apregoadas mais à mãe. Mas é da metáfora dos pais com o país que o filme mais cresce em sutilezas paralelas, pois, sem dominar a trama, de forma eficientemente complementar, a crise política atual do país entra de soslaio como uma crise de identidade do patriarcalismo arcaico com o qual o Brasil possa ter sido governado até então, e que claramente não deu certo – o que é lindamente alfinetado no magnífico plano da silhueta de Maria Ribeiro ao acordar dominando a frente da janela indevassada para a imagem do Palácio da Alvorada bem ao longe à sua sombra.

E esses são exatamente os espaços que deixamos para trás, a serem preenchidos por afetos para a construção de um futuro.

O filme ganhou 6 kikitos no Festival de Gramado 2017, dentre eles melhor filme, direção, atriz, ator e atriz coadjuvante e melhor montagem, além do prêmio de público no Festival Brasileiro de Paris.