Como Treinar o Seu Dragão 3

Como treinar a sua criança

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15 de janeiro de 2019

Sim, 2 filmes me fizeram chorar no mesmo dia!
Não coincidentemente, duas animações.

Sim, amo animações, sempre amei, mas há algum tempinho nenhuma me fazia chorar. Aliás, quase nenhum filme também. E olha que costumo chorar fácil com cinema. Gosto desta característica em mim. Como crítico, inclusive, é uma das formas que meu corpo externa fisicamente suas emoções e atravessamentos com a obra. Posso amar uma obra que não me fez chorar, e posso não gostar de outra que ainda assim tenha conseguido me fazer derramar uma lágrima. Não é que seja sinônimo de qualidade, só que até um filme decepcionante pode ser salvo por uma cena às vezes que toca de forma genuína e gera catarse verdadeira. Uma lágrima de emoção pode salvar muita coisa.

Mas 2018 foi um ano muito difícil. Difícil para todos nós. Politicamente… Socialmente… E, de certo modo, o ano passado ajudou a nos embrutecer um pouco. Isso ajudou com que as lágrimas fossem contidas… Duras… Mais difíceis e valiosas de sair. No ano passado, até muito antes do marco zero do endurecimento (1° e principalmente o 2° turno), eu já estava com poucas lágrimas dispendidas, no máximo raras exceções no início de 2018 como “O Processo” de Maria Augusta Ramos, cuja cena que Dilma cita Maiakovski me pega de jeito toda vez… Ou “Uma Noite de 12 Anos” de Álvaro Brechner que teve a proeza de volver a desvirginar meus olhos em debulhar um bom excesso dos canais lacrimais mesmo ao assisti-lo apenas depois do fatídico 2° turno…

Mas hoje debulhei 2 vezes. Não foram rios nem cachoeiras, mas foram tímidas demonstrações sinceras.

A primeira foi assistir ao fim da trilogia bastante eficiente da saga “Como Treinar o Seu Dragão 3” (“How To Train Your Dragon 3: The Hidden World”) de Dean DeBlois (diretor da trilogia e do cult “Lilo & Stich”, além de roteirista de “Mulan”), configurando o melhor primeiro lançamento de um blockbuster em cartaz do ano. Não que eu esperasse derramar uma demonstração de despedida nem por ser um final para personagens pelos quais eu já me afeiçoasse, muito pelo contrário, minha expectativa era justamente não chorar. E com isso também evito dizer que seja por categorizar, com meus olhos cheios d’água ao final da projeção, este como o melhor dos três filmes, porque não é. O que de fato está em questão aqui é a sorte de trilogias atualmente decepcionarem e muito, e esta decerto conseguiu manter sua consistência na proposta e no resultado, bem como oferecer uma evolução diegética de ‘como treinar a sua criança’ conforme ela cresce.

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A série teve a sagacidade em acompanhar o crescimento de seus fãs infantes desde o princípio, triunfando em acrescentar maturidade nas pitadas de tristeza, perda e decepções tanto para seus personagens quanto para o espectador, do jeitinho que a vida é. Os filmes vão ficando menos ingênuos, apesar de saber manter certo humor naif e o enternecimento, mais como marcas registradas do que necessariamente para continuar sendo infanto-juvenil. Isso sem falar no subtexto filosófico que acertadamente permanece.

Precisavam ter feito sequências após o primeiro filme que já era perfeito? Não. E foi a melhor forma de encerrar a trilogia…? Não sei. Nem precisamos ter resposta certa para isso. Mas definitivamente foi a forma mais digna de desfecho que honrasse os seus personagens. E por isso mesmo, ainda que não esperasse chorar, as homenagens aos três filmes como um todo ao final quebram a gente de jeito.

Voltando à parte filosófica, que agrega muito valor à produção, enquanto o primeiro filme pisava timidamente na teoria da propriedade versus vida selvagem e livre do “Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau, e o segundo contrapunha as formas de poder social com “Leviatã” de Hobbes (até o Dragão antagonista se chamava Leviatã) e a alegoria da Caverna de Platão, sobre a responsabilidade de devolver à sociedade a iluminação alcançada (vide minha crítica linkada abaixo), neste terceiro talvez não alcancemos a pretensão acertada do segundo, mas temos uma sofisticação com ar de transcendência. Neste desfecho da trilogia, temos a junção da reflexão sobre a “Utopia” de Thomas More (vide o paraíso dos dragões aludido no subtítulo no original, “The Hidden World”, que para estranhos pode soar como o Triângulo das Bermudas) contraposta à exacerbação da tirania com “O Príncipe” de Nicolau Machiavel.

É até curioso que o vilão bem construído pareça ter a meta de ser o melhor vilão da trilogia (voz no original do ator F. Murray Abraham, eternamente lembrado como o invejoso personagem Salieri do clássico “Amadeus”), por ser um matador de Fúrias da Noite (espécie do Dragão principal do filme, o ‘Banguela’), mas não é e nem precisava ser. Claramente ele é usado como escada apenas para provar um ponto na evolução do protagonista (voz de Jay Baruchel) e sua auto aceitação como líder democrático não autoritário (que nega o potencial de príncipe tirano em seu leque de possibilidades refletidas no espelho fractal do vilão). O que, inclusive, é realçado pelo recurso do salto no tempo (fato que o trailer estraga um pouco já revelando o protagonista mais velho de barba), mas devo dizer até que o dispositivo poderia ter sido mais usado um pouco no decorrer da projeção, sem confundir de forma alguma as crianças, ao invés de apenas no momento que é aplicado.

Esteticamente, assim como outras franquias animadas em mundos fantásticos, este exemplar apresenta novos cenários deslumbrantes (o tal paraíso dos dragões, muito bem construído) e incrementa o que já foi visto antes para fazer valer a revisita — especialmente nas roupas e construções vikings. — O que faz esta sequência soar a mais parecida visualmente com “Avatar”, o que não é um demérito plasticamente falando, e nos faz lembrar o quanto “Avatar” era lindo de fato.

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E talvez o maior trunfo esteja na retomada do romance, assim como o primeiro incidia fortemente no casal de protagonistas (vozes de Jay Baruchel e America Ferrara), e o segundo em menor escala e mais trágica no reencontro dramático dos pais do herói (vozes de Cate Blanchett e Gerard Butler no original, que volta em participação especial), este investe no romance entre dragões, o Fúria da Noite e a nova personagem e espécie de Dragão na versão feminina chamada Fúria da Luz — os quais vão encantar e fazer muita criança querer comprar as pelúcias deles, já aviso aos papais. E as cenas são todas referenciais ao cinema mudo no melhor estilo de comicidade corporal à la Chaplin, incorporando a eterna cena poética de Cyrano de Bergerac. Um sopra para o outro o que fazer de forma hilária.

Por fim, vale ressaltar duas observações: o 3D é dispensável, mas a dublagem brasileira está tão maravilhosa que vale uma nova conferida no filme para checar as duas versões, na original legendada e com as vozes já em português.

Minha crítica para “Como Treinar o Seu Dragão 2”
http://antigo.almanaquevirtual.com.br/ler.php?id=30170&tipo=2&cot=1

PS. Se você chegou até aqui e se pergunta qual era o 2° filme assistido hoje que me fez chorar…aguarde e confie, crítica em breve!

#ComoTreinarSeuDragão #ComoTreinarSeuDragão #HowToTrainYourDragon #Dreamworks

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