Comportamento Tóxico na Crítica de Cinema

Como evitar atitudes e relações tóxicas em meio ao amor pelo cinema

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29 de dezembro de 2020

Como um dos temas que mais levam a tretas das redes sociais e vida afora é o Cinema, e a última coisa que desejaríamos seria logo o cinema já tão perseguido gerar mortes com pessoas armadas por aí. Portanto, achamos válida uma pausa para revisar 5 atitudes extremamente nocivas tipicamente advindas de Críticxs.

Vamos fazer uma boa autoanálise crítica do meio e de nossa própria toxicidade dentro da bolha, para que possamos não reproduzir comportamentos negativos que nós mesmos criticamos nos outros e salvar nossas vidas e a dos outros… Quem nunca se sentiu humilhado porque um crítico rebaixou um posicionamento de terceiros só porque a pessoa ousou gostar de um filme que “a crítica” (como entidade) defenestrou, e vice versa…?! Que atire a primeira pedra! Vamos nos olhar no espelho e rogar para que possamos sempre nos desconstruir para não mutuamente nos destruir? Preparados?! Paz e Amor?! Vamos lá:

1) “Eu sou o rei do mundo…dos filmes”

Sim, claro, toda crítica deve se embasar em uma boa argumentação, porém o que vemos por aí muitas vezes são imperativos categóricos, usados, inclusive, profissionalmente: amo este filme, odeio aquele filme… Esta obra é perfeita… Não há nada a se salvar naquele trabalho… Bem, nada contra reações acaloradas, mas o trabalho do crítico, ao menos a meu ver, não deveria ser impor esta reação a terceiros que podem não estar no mesmo fervor do momento. É até melhor deixar descansar. Aliás, o trabalho crítico tem muito mais a ver com expandir a obra para todos os tipos de públicos, especialmente aquele que talvez não seria alcançado antes, ou mesmo decodificar questões e técnicas que pode (des)valorizar a obra dependendo do nicho ou destinação, e que pode mudar de acordo com o momento ou plateia diante do objeto cultural, do que apenas eliminar ou ressaltar aquele filme do acervo público.

2) “Você não entende nada de cinema!”

Como se já não fosse o bastante que o profissional possa se armar numa armadura do alto de seu pedestal para seus argumentos serem irrefutáveis (quando na verdade argumentos são circunstanciais na maioria das vezes, por não existir verdade absoluta e porque as coisas mudam com o tempo), o crítico também possui a mania de tentar rebaixar o outro. Um péssimo hábito, diga-se de passagem. Por inúmeras razões. O outro pode até entender menos sobre determinado assunto do que o profissional crítico, mas pode entender muito mais de outros tantos assuntos cujo olhar só terá a agregar. Afinal, a base da crítica é ser plural. Senão bastaria um único texto universal para cada obra de cada vez. A graça é a dialética. E a crítica nem é um meio profissional com bacharel acadêmico, podendo vir de várias fontes e formas, desde comunicação, cinema, antropologia, história, direito, psicanálise e etc… Todas as visões importam. Todo conhecimento é relativo…relativo a algo mais…

3) “Eu vi, você não viu!” — “Só eu sei onde tem!”

Com a democratização da internet os filmes passaram a ter fácil acesso por todos os lados! Seja via streaming, VIMEO, VOD, Youtube, torrent, links e etc… A inacessibilidade é quase coisa do passado, mesmo que ainda devamos debater muito sobre restauração e preservação de acervos da memória do cinema — pois muito ainda se perde por falta de incentivos ou fundos nos cuidados com a cultura de um país. Mas os críticos ainda possuem a péssima competitividade tóxica de quem viu primeiro, quem descobriu algo que ninguém mais sabe e só você pode saber…porque no momento em que outros obtiverem a mesma informação, você deixa de ter um privilégio, e passa a ter de correr atrás do próximo segredo que pode lhe render um prestígio. Mas PERAÍ! A crítica é um meio para um fim, jamais o seu final em si mesma, pois ela precisa ser lida, compartilhada, contra-argumentada e etc… A comunicação com o público é fundamental, e a propagação de cultura inerente ao ato da troca. Auxiliar o público a alcançar a obra é tarefa das mais gratificantes, e em parte por isso muitos críticos são cineclubistas, curadores e etc… Claro que certo ineditismo auxilia na visibilidade e acessos de um texto na rede… Mas devo acrescentar que alguns dos meus textos mais acessados são aqueles sobre filmes já vistos por todo mundo, pois as pessoas querem debatê-lo e cruzar referências. E se o público não puder em algum momento chegar até a obra, isto é apenas tortura, e não um privilégio. Ou seja, se distancia e muito do espírito democratizador da coisa e se aproxima da postura que tantos de nós criticamos no atual governo.

4) “Mas você não conhece tal cineasta tanto quanto eu… Quantos filmes você já viu dele?!”

Outra péssima mania é o profissional ficar testando o outro. E isto se fortalece ainda mais com recortes de gênero (homens vivem duvidando do conhecimento das mulheres, como se elas naturalmente não pudessem saber mais do que eles, principalmente nos quesitos que eles considerem essencialmente masculinos), mas também recortes de raça, etnia, classe e etc… Um exemplo muito evidente e com várias demonstrações públicas de prepotência são os posicionamentos da crítica branca ao cinema negro e cinema indígena — ainda mais quando escutam expressões como “lugar de fala” e “representatividade” — Dá para ver pessoas do meio tendo verdadeiros infartos quando estas questões aparecem…e aparecem cada vez mais, na verdade, não há lugar mais onde pessoas que se agarram a visões pouco plurais possam se esconder. Não é modinha nem é assunto contornável. Vamos todos simplesmente exercer o poder de escuta e aprender a lidar com isso. Aliás, o quanto professores brancos majoritariamente homens costumam cobrar que seus alunes saibam sobre os grandes mestres homens brancos (claro, inegável que temos de saber sobre eles também) é proporcional a o quanto muitos destes mesmos professores não sabem ainda a mesma quantidade de informação sobre filmografias das mulheres ou não brancas, por exemplo. Mas não temam! Ainda dá para se atualizar. Uma vida inteira com o olhar enviesado pode começar a ser exercida de forma mais plural a partir de algum momento…, basta só começar de algum lugar. E que a crítica também comece a abraçar mais a representatividade e a fazer convites mais plurais para seus sites e veículos. Não chamem apenas mulheres para falar sobre mulheres, pois elas sabem falar também sobre cineastas masculinos e etc…

5) “Amamos os mesmos filmes, eu te amo. Amamos filmes completamente diferentes, eu te odeio”

Claro que existe uma coisa chamada afinidade… E o cinema de fato dá muitas amizades e cria novas famílias. Eu bem sei, posso bem dizer que casei com o cinema e minha esposa idem. Mas…há muitas amizades propiciadas especialmente pelas redes sociais que abraçaram o fogo de palha dos filmes, e se amam ou odeiam de acordo com a temporada de premiações… Se amamos os mesmos filmes, está tudo ótimo…até que não está mais. Há pessoas que deixam de se falar por semanas… meses…e até anos por causa de um filme! Tudo bem que às vezes algumas brigas podem começar com cinema, mas acabar mostrando diferenças irreconciliáveis que já estavam ali plantadinhas para florescer através de noções pré-concebidas e a inabilidade em transcendê-las… e dá até para agradecer aos filmes por desmascarar esses retrocessos de intercâmbio de vida. Mas na maioria das vezes estas mesmas pessoas voltam a falar umas com as outras depois de alguns meses, até de alguns anos (há exemplos notórios até mesmo na história do cinema, como o próprio cineasta canônico Glauber Rocha, com diferenças quase irreconciliáveis com muita gente)! E se voltam, ou é porque mudaram mesmo (se realmente se é capaz de mudar de forma tão radical assim quanto mais velho se fica) ou porque esqueceu a razão inicial da briga e na verdade ninguém mudou tanto assim… Ou seja, filmes podem ter recepções acaloradas, mas a atitude nociva da internet e da virtualidade que permite com que muita gente fale e faça coisas que jamais faria presencialmente é proveniente do ser humano e não do filme. O bom debate é necessário para a pluralidade inerente à crítica, mas deve permanecer no campo dos filmes. Não deve ser confundido com o nível pessoal, a não ser que a pessoa ofenda pessoalmente — aí estas que cruzam esta linha tênue já são outra história. Estas pessoas que se jogam pessoalmente na briga e querem que seu sangue seja jorrado podem estar reproduzindo um comportamento tóxico que não é crítico…mas hoje em dia pode até ser suicida, porque nunca se sabe mais quem poderá estar armado ou não…