Construindo Pontes

Deserto D'Água

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20 de setembro de 2017

Deserto D’Água. Há um belíssimo paradoxo nesta expressão que revela muito do que se quer exprimir sobre o filme paranaense “Construindo Pontes” de Heloisa Passos. A própria diretora em determinado momento do filme, quando já aparece incluída em cena como parte do eixo narrativo para contestar seu pai, usa a expressão para descrever o sentimento de mostrar algo que para ela era dolorosamente lírico e, infelizmente, encontrar pouca ou nenhuma identificação nele com o que ela estivesse sentindo. Como um deserto transbordante. Duas formas de pensamento completamente opostas. E é assim que o próprio filme é construído. De ligações entre os opostos, como frágeis belas pontes entre contraditórios. Um pai que é de extrema direita em um Brasil extremamente polarizado pelas crises recentes, e que acredita que a Ditadura foi necessária para o Brasil (na verdade, ele nem denomina como Ditadura, e sim como “revolução”). Enquanto que a filha é assumidamente de esquerda, Heloisa Passos, uma das maiores diretoras de fotografia do país, que agora estreia na direção de longas-metragens com este documentário extremamente pessoal sobre a relação conturbada com seu pai.

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O ano está sendo talvez tão ambíguo para Heloisa quanto o mote do filme ou uma música do Raça Negra (“então me ajude a segurar esta barra que é gostar de você”). Ao mesmo tempo em que a diretora vê seu país desmoronar moral e politicamente com retrocessos sofridos desde o ano passado quando a Presidenta eleita sofreu um Impeachment extremamente controverso e questionado legalmente, num procedimento que continua retirando cada vez mais direitos sociais conquistados em administrações públicas anteriores, Helô também vê sua carreira ser consagrada. Primeiramente com filmes como “Mulher do Pai” de Cristiane Oliveira que lhe rendeu o prêmio de fotografia no último Festival do Rio, e agora estreia na direção de seu primeiro longa justamente na principal Mostra Competitiva da 50ª edição de aniversário do maior Festival de Cinema Brasileiro, o de Brasília.

E, para compor a matéria-prima de seu filme e propor uma catarse coletiva, ela foi buscar em suas próprias raízes de conflitos em casa como o cenário nacional se reflete nas nossas famílias e na privacidade do lar. Ela sabia que seria tarefa árdua por admitir desde o princípio que possui uma relação muito difícil com seu pai desde sempre. E uma das formas em que isso mais se explicita é no conservadorismo político reacionário por parte dele, que já afetou até sua vida pessoal, quando confessa em tela que ele não aceitou bem seus relacionamentos homoafetivos anteriores. Isto os distanciou por anos, até enfim fazerem as pazes e ele hoje em dia se dar muito bem com a companheira com quem a cineasta decidiu compartilhar sua vida, e sem a qual a própria produção e montagem deste longa não existiriam. Esta delicada revelação é o arcabouço dos conflitos que não apenas eles superam ao longo da projeção, como é exemplo de o quanto o país precisa tomar muito cuidado para não perder o diálogo da liberdade e consciência de direitos constitucionais de igualdade — logo na semana em que o judiciário aprovou a criminosa proposta de cura gay num ato insano recente.

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Voltando à textura do filme, Heloisa constrói tijolo por tijolo desta relação através de uma analogia cruzada, contando uma história de sua infância sobre a maravilha natutal das sete quedas d’água que foram apagadas da história quando se construiu ali a maior represa do mundo: Itaipú. Uma represa para falar do que foi reprimido em nossa história e do que foi alagado e inundado. E resgatar a memória das sete quedas para jorrar o não dito. Daí veio a metáfora política dupla através do Golpe Militar de 64 e a atualidade política cujo Impeachment possui uma grande leitura jurídica em ter sido um novo Golpe, desta vez Parlamentar. E Heloisa vai levando seu pai, que foi engenheiro construtor na época da Ditadura, até a represa de água do que foi não-dito entre eles e até as construções de pontes ferroviárias dele para ver se conseguem alcançar um meio termo — e os acontecimentos do país na própria televisão e jornais invadiram as crenças pessoais deles durante o filme e adaptaram as condições ao vivo.

É curioso analisar o trabalho de uma diretora de fotografia, ao realizar seu primeiro longa-metragem, que precisa ousar colocações de câmera e idealizar planos que abarquem conversas que só filhos que já foram oprimidos sabem o quanto vão gerar conflitos dolorosos, que contém a carga pesada de décadas. Interessante que a palavra “plano” se torna maior. O pai que fez planos de construção concreta e não consegue ver as entrelinhas abstratas e alega que a Ditadura tinha um “plano de país”. E Heloisa usa dos planos de câmera para tentar desconstruir essas noções. Afinal de contas, o Egito Antigo e o Império Greco-Romano também tinham grandes planos, mas construíram algumas das maiores obras do mundo, porém à base de trabalho escravo e hierárquico. Ou seja, existe um diálogo constante entre evolução formalista que atropela o cidadão e manutenção de direito sociais sem deixar de investir no Estado. Uma lição de economia humana.

Heloisa vai dirigindo o pai ao vivo, tendo de encerrar alguns planos ou redimensionando outros. São decisões a partir de conflitos. E nisto a palavra “plano” no sentido de duração e direção dos enquadramentos ganha outro sentido, o que abarca a imprevisibilidade como norte. Precisar cortar ou manter a gravação em momentos espontâneos de discussões diretas e com qual ângulo de câmeras no recinto irá mostrar o quadro é uma decisão ética.

Tão ética que, mesmo percebendo-se o enorme carisma que seu pai vai ganhando como personagem do filme, ainda que num discurso totalmente oposto e perigoso, somos obrigados a nos comunicar com nossos contraditórios através do riso, da simpatia e da compaixão. Uma faca de dois gumes, pois parte dos espectadores de esquerda podem achar que ela está sendo condescendente com a extrema direita por estar ali representada por seu pai. Ou a plateia de direita pode pensar que a diretora de esquerda poderia estar cedendo a razão para a direita. Mas o fato é que a manutenção de poder e de status quo dos opressores costuma ter muito carisma e jamais elevar a voz, oprimindo silenciosamente. Porque quem detém o poder não precisa gritar para conquistar nada, por já possuir tudo dado.

O fato é que para além das ambivalências, estamos lidando com pessoas. Com suas virtudes e defeitos. E o nome do filme é “Construindo Pontes” (inspirado num livro homônimo “Building Bridges” de Jean Rouch) e não destruindo pontes, coisa que o Brasil já consegue fazer por conta própria. E o interessante é justamente a imprevisibilidade dos planos e diálogos conforme a história é contada e redirigida, como demonstra o final, que a cineasta confessa dentro do próprio filme que havia planejado de outra forma, mas abre concessões com sugestões do pai para tentar gerar uma catarse nele que enfim penetre a armadura e se acheguem um pouco mais perto. O último plano antes de subirem os créditos finais com fotos felizes de forma agridoce da família na infância da cineasta, contrastando com as dificuldades do violento pingue-pongue que eles jogam o filme inteiro, já demonstram que eles podem estar lado a lado, mas continuam olhando para direções diferentes, para o trem que atravessa o plano inesperadamente ou para o sol que se põe através dele.

50° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

“Construindo Pontes”

2017, 76 min

Direção Heloisa Passos