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Do transcendentalismo à carnalidade do melodrama, 'A Chegada' usa a munição pesada de Denis Villeneuve para torpedear clichês do filão sci-fi

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22 de novembro de 2016

Vulcão em constante erupção, Amy Adams vive uma linguista às voltas com a vinda de ETs em "A Chegada": metafísica e melodrama

Vulcão em constante erupção, Amy Adams vive uma linguista às voltas com a vinda de ETs em “A Chegada”: metafísica e melodrama

RODRIGO FONSECA
Fornecedor de matéria-prima artística pra Hollywood há décadas, exportando talentos que poderiam fazer diferença autoral em sua filmografia interna, o Canadá redescobriu a pólvora (industrial) quando deu subsídios ao quebequense Denis Villeneuve para dar a largada para sua obra como diretor – uma das mais peculiares e ousadas entre os cineastas revelados dos anos 1990 para cá. É difícil apontar os resíduos de identidade narrativa, moral ou temática que fariam do realizador de Incêndios (2010) um diretor-autor, mas há um recorrente interesse por subjetividades que, à beira do precipício, sentem-se impelidas a descobrir quem de fato são, a que pertencem e a que valores querem se abraçar. Essa é a lógica que move A Chegada (Arrival), produção de US$ 47 milhões estruturada como um tratado metafísico sobre a tolerância entre os povos. Há um desenho filosófico nietzschiano no roteiro, num percurso de eterno retorno, no qual as extremidades da trama se espelham, como o título (sem muita bandeira) sugere.

Nietzsche pousa no ombro de Villeneuve com muita frequência, em sua estética iconoclasta, levando seus personagens a um estágio de endurecimento, onde afetividades frágeis como carvão ganham resistência de diamante frente a mergulhos trágicos no ambiente onde tentam escavar um abrigo para suas certezas. Foi assim com o historiador (Jake Gyllenhaal) de O Homem Duplicado (2013) ao perceber que tem um sósia perfeito de si mesmo, andando por sua cidade. Era assim com a agente do FBI Emily Blunt, afogada nos bastidores do tráfico de drogas no seminal Sicário (2015). É assim agora com a linguista Louise (Amy Adams, numa atuação vulcânica), ao ser informada sobre presença alienígena na Terra. O cineasta garimpou-a da literatura,  das páginas do conto Story of Your Life, de Ted Chiang, já traduzido aqui.

Indicada ao Leão de Ouro de Veneza, A Chegada segue os passos de Louise, numa missão encomendada pelo Exército dos EUA, representado pelo coronel Weber (Forest Whitaker), para conversar com os tripulantes de uma nave extraterrestre. O óvni pousa em Montana e é visto em demais cidades do mundo, o que causa pânico. Num preâmbulo, somos informados de que Louise perdeu sua filha para uma doença terminal, logo após sair de uma separação, e que essa tarefa pode servir de analgésico. Isso é o que parece, pois, como já virou padrão em Villeneuve, não existem certezas absolutas em nenhum personagem. Para dar conta dos ETs em forma de molusco, batizados de Abbott e Costello, numa referência à dupla de comediantes famosa nos anos 1940 e 50, Louise terá o físico cético Ian (um insosso Jeremy Renner, único erro do filme). E sua sombra será um soturno agente da CIA temeroso de ataques do espaço: Halpern, encarnado com esplendor por Michael Stuhlbarg.

Sinais do espaço

Sinais do espaço dos aliens em forma de moluscos

Descrito a partir da jornada de ações de Louise, o enredo de A Chegada parece um thriller sci-fi, mas, em sua linguagem, de tintura emotiva saturada – sobretudo na reflexão sobre maternidade logo no início – há uma analogia indisfarçável com o transcendentalismo do americano Terrence Malick e seu A Árvore da Vida (2011). A proximidade se dá pela dimensão filosófica e pela estrutura contemplativa de ambos, muito calcada no uso de voz em off. Mas há uma diferença central entre os dois: Malick, em seu messianismo, é a descarnalidade plena, afastado do corpo, com foco na alma e na condição espiritual. O cinema de Villeneuve é “matéria”, é carne, é útero, é toque. O que se vende como uma ficção científica com ecos de Solaris (1972) troca o existencialismo pelo melodrama, com uma competência rara.
Há uma aparente engenharia de aventura, que poderia se cristalizar a partir da luta entre Louise e o “desconhecido”, representado pela busca por construir um alfabeto comum com os aliens, tendo Halpern como um oponente. Mas Villeneuve opta por um caminho menos espetaculoso e mais intimista, como fizera ao trabalhar o thriller em seu Os Suspeitos (sucesso de bilheteria em 2013), enveredando por um clima mais lento, de observação, sem viradas bruscas, no qual o objeto da comunicação com Abbott e Costello é mais o autoentendimento da tradutora do que a ameaça de uma potencial guerra dos mundos. A chave se dá num diálogo entre Louise e Ian. Ela diz: “A chave para o estabelecimento de qualquer cultura é a língua”. E ele retruca: “Jamais! A chave para o estabelecimento de uma cultura é a Ciência”. Estabelece-se a dicotomia do filme aí: ele cultua o racionalismo empírico da comprovação e do resultado; ela crê na poesia, na transcendência e na progressão aritmética da linguagem. O filme se veste com ambos as argumentos, caminhando para uma dialética do entendimento numa jogabilidade de roteiro circular, de causar surpresa – e impor doçura.

Jeremy Renner, numa atuação inossa, encarna o físico que ajuda Louise

Jeremy Renner, numa atuação inossa, encarna o físico que ajuda Louise

No Brasil, A Chegada chega ainda com cópias dubladas, com um elenco de vozes invejável, a começar pela escalação de Andra Murucci (o gogó mais mavioso do ramo no país) como Louise e do gênio Élcio Romar como a voz de Halpern.


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