Contos Negreiros do Brasil

Novo conceito de teatro documentário é um soco na boca de nosso estômago e nos enche de perplexidade histórica e cênica

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28 de julho de 2017

O teatro é das artes mais livres e libertárias em todos os tempos. É aquela em que a velocidade da estética e dos conceitos, enfrentam constantemente uma busca incessante em comunicar-se com o seu tempo. Historicamente temos, proporcionalmente, poucos estudiosos e encenadores responsáveis em escrever, em todos os séculos, novas diretrizes para a arte teatral; porém, em todos os períodos deste desenvolvimento, e dos testes dessas novas regras- que sempre impulsionaram o fazer-; tivemos muitas tendências e grande liberdade em poder experimentar formas e conteúdos em nossas arte cênica brasileira e mundial. Hoje, encontramos em pesquisa, um novo formato de teatro. O teatro documental. O teatro documentário. Um teatro que mistura fatos reais, com ficção, interpretação com pesquisas científicas, ludicidade com explanação teórica, em planos claros e objetivos. Assim é “Contos Negreiros do Brasil”, que fez parte da Ocupação Marcelino Freire – também autor do texto -, que veio de uma temporada de sucesso na Sala Multiuso do Sesc Copacabana, e está realizando atualmente uma outra bem sucedida agenda no Teatro Poerinha, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O espetáculo leva o público a presentificar índices estatísticos, contextualizados com cenas que reproduzem dores, paixões, medos, alegrias e angústias. A carne negra é exposta em suas dimensões e experiências reais, sociais e culturais. Um espetáculo documentário sobre a condição real e atual da negra e do negro no Brasil; seja o jovem estudante, o gay negro, a negra hipersexualizada pela sociedade, o menor infrator, a prostituta e a idosa. Os personagens veem as cenas por meio das estatísticas apresentadas por um sociólogo e filósofo, com dados atuais que são expostos para plateia, além de atores que interpretam todos os personagens contidos nos 12 contos do livro Contos Negreiros, de Marcelino Freire.

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Rodrigo França escrevendo e explanando à Li Borges e Milton Filho em cena de “Contos Negreiros do Brasil”. Foto Caique Cunha.

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Milton Filho, Li Borges e Rodrigo França em cena de “Contos Negreiros do Brasil”. Foto Caique Cunha.

Desde já, o espetáculo “Contos Negreiros do Brasil”, criado em cena por Fernando Philbert, Li Borges, Milton Filho e Rodrigo França, é um projeto obrigatório e absolutamente necessário para que possamos entender, e tristemente perceber, a grande tragédia que há séculos acometem os negros; e que em pleno século 21, pouco parece ter mudado em sua essência espúria. É muito duro para nós, nos vermos diante de tantas disparidades, de tantas injustiças, de tantos desrespeitos, de tanto genocídio direcionado a uma só raça. Genocídios maiores do que os enfrentados em holocaustos, ou em grandes guerras santas. São séculos de escravidão e de tratamento indigno e sub-humano. De uma raça marcada pela desigualdade, pelo racismo aberto e o velado, pelos maus-tratos, pelo extermínio, e pela escravidão na hedionda lei passada e no fato atual. Por tudo isso, e por todas estas constatações, a obra nos faz sangrar também na carne, ao assistir, ao hediondo descaso e abandono a estes seres humanos, a essa forte, bela e guerreira raça. Saímos da sala com uma dor ancestral e um estado de perplexidade descomunal. Com vontade de abraça-los e de gritar a todos os cantos: “..Chega!!!! Bastaaaa!!! Vivam e deixem viver!!! E como o teatro é a arte da teatralidade, os momentos de dramatização de algumas cenas, são muito pungentes e fazem um ótimo contraponto entre as pesquisas estatísticas apresentadas com muita segurança e propriedade pelo sociólogo e filósofo Rodrigo França, com as atuações de Milton Filho e Li Borges. O cenário e figurino de Natália Lana acompanham a objetividade da concepção cênica, assim como a direção musical de Maíra Lopes e a iluminação de Vilmar Olos.

Li Borges

Li Borges realiza uma cena de antologia em “Contos Negreiros do Brasil”. Foto Caique Cunha.

Duas cenas são dignas de antologia, a primeira quando Rodrigo nos faz enxergar que mesmo na plateia da peça, de aproximadamente 50 pessoas, podíamos ver ali apenas dois ou três negros assistindo ao espetáculo; e por fim, uma das mais duras, contundentes e perfeitas cenas do trabalho, é quando Li Borges nos conta a sua história de vida sobre a relação dela com o seu irmão. Todo o processo da contação, os tempos, a estética, o seu relato épico-emotivo, e principalmente, a história e os fatos em si, são um soco em nosso estômago, uma porrada de um caminhão que nos atropela…ao ir ouvindo o seu depoimento…a minha emoção aos poucos foi se aflorando, até chegar a um estado de dor, taquicardia e explosão em lágrimas…lágrimas de vergonha, de redenção, de dor, de entendimento…uma síntese de arte bastante humana e teatral, para amarrar com primor este novo conceito de teatro documentário! Um espetáculo diferenciado e que alcança um nível muito superior de realização.

Ficha técnica

Texto: Marcelino Freire

Um espetáculo de Fernando Philbert, Li Borges, Milton Filho e Rodrigo França

Direção musical: Maíra Freitas

Elenco: Li Borges, Milton Filho e Rodrigo França

Cenário e Figurino: Natália Lana

Iluminação: Vilmar Olos

Produção: Sergio Canizio

Realização: Diverso, Cultura e desenvolvimento.

 

Serviço

Temporada: de 13 de junho até 28 de julho de 2017

Horário: quartas e quintas, às 20h

Local: Teatro Poerinha

Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia)

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 70 minutos

Lotação: 50 lugares

Gênero: Drama

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4