Contrato Vitalício

Porta dos Fundos chega aos cinemas com comédia irregular

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29 de junho de 2016

_H0A7762_CrÇdito Rachel Tanugi RibasO coletivo Porta dos Fundos chega aos cinemas com seu primeiro longa-metragem Contrato Vitalício nesta quinta. A trupe de humor que se consagrou em vídeos na internet aposta numa comédia surreal e em um gênero que não é comum ser retratado nas produções nacionais: o filme de bastidores. Apesar das boas ideias e do talento dos comediantes, o que funciona muito bem em dois minutos ficou perdido em cem minutos. O resultado final é bem abaixo do que se conhece do grupo.

CV-27_01_64Um cineasta consagrado, Miguel (Gregório Duvivier) e seu ator principal, Rodrigo Assis (Fábio Porchat), são premiados em Cannes, o principal festival de cinema do mundo. Numa festa pós premiação, Rodrigo bêbado assina um contrato vitalício para trabalhar com o diretor. Dá pra ficar mais divertido? Dá. O diretor some e surge dez anos depois, como um mendigo e alegando ter sido abduzido por uma raça que vive no centro da terra, disposto a fazer um filme sobre seu desaparecimento com Rodrigo, agora um artista famoso. A premissa é boa, mas o roteiro se perde. É salvo por piadas envolvendo nomes de artistas famosos, participações especiais (Xuxa, Nelson Rubens, Sérgio Mallandro e outros) e personagens estereotipados que com o talento dos integrantes do Porta brilham (É o caso de Marcos Veras e Luis Lobianco) e garantem risadas.
_DSC5929Contrato Vitalício acerta e erra, mas fica irregular, e perde no timing que é uma qualidade essencial na comédia, fazendo um filme que vai ficando cada vez mais arrastado e repetitivo rumo ao seu desfecho. Um dos grandes acertos da produção foi a escolha de realizar o gênero de mostrar os bastidores, muito comum nos Estados Unidos, que além do cinema tem tradição de excelentes séries sobre o tema (como “Unreal” e “Entourage”). Aqui esse tipo é comum no teatro, onde já tivemos montagens como “Chá Com Limão” e a clássica “Algemas do Ódio”, com Miguel Falabella e José Wilker. No cinema é um frescor e foi o que rendeu boas piadas e tipos estereotipados (mas que funcionaram muito bem), como a preparadora de elenco (Júlia Rabello, que repete a personagem de um icônico vídeo da trupe), a blogueira fitness (Tathi Lopes), o repórter de celebridades Lorenzo (Marco Veras) e o empresário (Luis Lobianco).

_H0A9223Da formação original do Porta dos Fundos, o filme traz João Vicente de Castro, Gabriel Totoro e Antônio Tabet; Clarice Falcão e Letícia Lima ficaram de fora. A direção é de Ian SBF que havia dirigido com Porchat o ótimo “Entre Abelhas”. A ironia, humor e sarcasmo que são marcas registradas desde a criação do grupo não aparecem no longa. Contrato Vitalício não ousa, busca referências externas (“Entourage” e “Se Beber, Não Case”), e começa com uma profusão de piadas sem graça (“Fico feliz que vocês não tenham votado naquele filme russo dos cegos viados”, diz Miguel, personagem de Gregório em Cannes) que vão ganhando reforço com preconceitos e um humor rasteiro, muitas vezes apelativo (como uma obra de arte que é um símbolo fálico), que proliferam mais que as boas sacadas de retratar a obsessão as redes sociais e o culto a fama.

CV-14_01_33O roteiro que envereda para comédia de absurdo precisa de uma dose exagerada de descrença da realidade por parte do público. O final é interessante, mas cada vez mais ficamos desesperados como o protagonista, que não vê a hora de todo aquele pesadelo na sua vida acabar.

Kibe_2_crÇdito Rachel Ribas


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