Coração Mudo

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06 de outubro de 2014

O novo trabalho do diretor dinamarquês Bille August (“A casa dos espíritos” e “Trem noturno para Lisboa”) conta ao longo de enxutos 96 minutos como é a reação de uma família cuja matriarca opta pela eutanásia por conta de sua doença degenerativa. O tema não é novo, porém nem por isso deixa de ser importante. Filmes como o franco-canadense “As Invasões Bárbaras” (2003) e o francês “Uma primavera com minha mãe” (2012) já abordaram a mesma questão: como lidar, ou melhor, “aceitar” a decisão de um ente querido que opta pela morte?

Stills hjerte

Perpassando por questões médicas, éticas, filosóficas, psicanalíticas e familiares, “Stille Hjerte” (no original) nos mostra um fim de semana no qual Esther (Ghita Norby) junto com seu marido, o médico Poul (Morten Grunwald), reúne filhas, genros, neto e sua melhor amiga para passar os últimos dias de sua vida. Como Paul é médico e a eutanásia é proibida por Lei na Dinamarca (assim como na maioria dos países), eles farão uma encenação a fim de dizerem que Esther viria a falecer de forma natural. Porém, o que deveria ser um ótimo final de semana de despedida acaba por se tornar um momento de grande tensão na família. Alguns acertos de contas vêm à tona e o filme acaba descambando, porém de forma extremamente mais contida, para uma situação similar a do filme “Álbum de família” (2012), na qual segredos são revelados.

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Com um cenário que se resume a uma casa no campo, recheado de closes e tomadas fechadas nos rostos dos personagens, o filme que poderia se enveredar para um grande melodrama não o faz. Com atuações contidas e por vezes até bastante frias, o longa não emociona em nenhum momento mesmo tratando de um assunto tão espinhoso e sensível. A trilha é discreta assim como a protagonista e a fotografia de Dirk Brüel é correta, mas não surpreende.

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Apesar do roteiro pouco inovador, o destaque vai para o personagem errático de Pilou Asbaek que interpreta o namorado da filha mais nova de Esther. Dennis (Pilou Asbaek) é mal visto pela família tendo em vista as inúmeras idas e vindas no relacionamento com Sanne (Danica Curcic). Mas é a partir do pouco senso de responsabilidade de Dennis que temos uma das melhores cenas deste sofrido “Coração Mudo” (2014), na qual ele oferece aos membros da família um momento de descontração durante toda essa tormenta ao compartilharem juntos um cigarro de maconha. Infelizmente temos um filme mediano, onde até os principais dilemas da família são extremamente previsíveis desde o princípio. Vale como uma reflexão acerca da eutanásia, pois afinal, para que continuar a viver sem qualidade de vida por conta de uma doença incurável? Quem pode realmente decidir acerca disso? Seria a Lei ou a Moral a definir até que ponto uma pessoa tem que suportar um sofrimento incurável? Como reagir ao drama de consciência por parte daqueles que ficam e autorizam a morte daquele que sofria? Por perguntas como essa o filme se torna interessante. Mas, trata-se de uma película extremamente quadrada e sem qualquer novidade no campo cinematográfico.

 

Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama do Cinema Mundial

Coração Mudo (Stille Hjerte)

Dinamarca, 2014. 95 min.

De Billie August.

Com Ghita Nerby, Morten Grundwald, Paprika Steen, Danica Curcic, Pilou Asbae, Jens Albinus.


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