Corpo Delito

Delito de um corpo social

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03 de fevereiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Aurora

“Corpo Delito” de Pedro Rocha está creditado na ficha técnica como documentário, mas é um interessante estudo de personagem e da condição social de pessoas cumprindo pena em prisão domiciliar que acaba parecendo de forma fluida com um docudrama misturado à ficção. E refere-se ao fato de ser documentário logo de plano, pois o filme decide seguir seu personagem principal com uma tornozeleira de verdade, confinando a narrativa e o espectador ao limitado espaço por onde ele pode trafegar. O confinamento dos enquadramentos na maior parte do tempo ou dentro de casa ou no tribunal, tendo a execução da pena reavaliada, não é apenas físico, mas psicológico. A falta de perspectiva que o protagonista e todos ao redor passam é evidente e interligada.

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Há uma grande crítica social realizada num caminho inverso ao da realidade da população prisional que entope as cadeias, que é o círculo vicioso que força camadas desfavorecidas e negligenciadas da população a quebrar a desigualdade do sistema tão injusta para sobreviver, o que entope as prisões com uma parcela muito maior de um único arquétipo social estereotipado. E “Corpo Delito” faz essa provocação com os personagens ao redor do protagonista, todos igualmente sem perspectiva, só esperando para cometerem um deslize e cair na mesma estatistica, como comprova a cena final no topo de um prédio com vista de toda a cidade urbana com as realidades que estes personagens só podem sonhar, mas não podem ter.

Por outro lado, a opção do confinamento não deve confundir o espectador a interpretar a reiteração dos planos fixos enclausurados como condescendência com o preso nem respiro para legitimar torcermos pelo protagonista por enganar a tornozeleira para sair de casa… A questão da liberdade e da existência ou não de escolha viciam nossa percepção do que é certo ou errado no comportamento do personagem encarcerado na própria casa, seja por carisma ou indução cinematográfica, mas há de se analisar o contexto onde estas atitudes estão sendo julgadas. Afinal, liberdade sem escolha não seria liberdade, como já diria Aristóteles que preferiu tomar veneno de cicuta a abdicar de sua liberdade de escolha.

O diretor também passeia por outros membros da família que poderiam ser mais explorados, homens e mulheres que sofrem tendo uma vida ao redor de um criminoso condenado e não-produtivo para a sociedade, sem poder trabalhar para ganhar dinheiro ou manter sua sanidade mental, sendo sustentado física e emocionalmente por aqueles ao redor. Quando a narrativa abre para os personagens colaterais, nota-se subtextos gigantescos em meio ao não-dito, mas que, dependendo do público do cinema, ainda mais perante o crescimento da extrema direita e da intolerância às minorias, se torna cada vez mais necessário de se ver cronicamente nas telonas.